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“Nenhum sistema está preparado para tantos pacientes”, diz médico responsável por UTIs no Rio

Áudio 18:08
O médico Felipe Saddy está à frente do combate ao coronavírus no Rio de Janeiro.
O médico Felipe Saddy está à frente do combate ao coronavírus no Rio de Janeiro. © RFI
Por: Maria Paula Carvalho

O Brasil é um dos únicos países do mundo com mais de 100 milhões de habitantes que dispõem de um sistema universal de saúde. Contudo, há uma fratura entre a medicina privada e o atendimento do SUS, como explica o médico carioca Felipe Saddy, um dos profissionais à frente do combate à Covid-19 no Rio de Janeiro. Nessa entrevista à RFI, ele também fala sobre cloroquina e a troca de ministros da Saúde em meio à crise sanitária.

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Um dos desafios durante a pandemia de coronavírus é equilibrar o número de leitos disponíveis nos hospitais com o número de casos graves da doença. Felippe Saddy tem mestrado e doutorado em pneumologia e forte experiência em terapia intensiva. Atualmente, o médico é coordenador da UTI ventilatória do Hospital Copa D’or e coordenador de rotina no CTI do Hospital Pró-Cardíaco, duas grandes unidades de saúde do sistema privado na capital fluminense.

“Neste momento, as coisas estão mais organizadas. Nós passamos por uma primeira fase de atordoamento, na primeira semana dessa doença, que é muito complexa e gera muito trabalho, já que os pacientes têm evoluções distintas, exigindo um tratamento individualizado”, afirma.

“Esta semana tivemos novos estudos especificamente sobre a parte pulmonar. Alguns pacientes mais graves evoluem com fibrose pulmonar, o que já está definido através de biópsias. Não são todos que evoluem assim, mas os mais graves, aqueles em ventilação mecânica, que não melhoram a oxigenação, aí sim pensamos em fibrose pulmonar", acrescenta. O médico explica que se trata de "um excesso de cicatrização que resulta em piora da troca gasosa, aumentando o tempo de ventilação e de internação, podendo até levar à morte".  

De acordo com o especialista, o número de pacientes internados caiu na última semana. Porém, a complexidade dos casos exige, muitas vezes, cuidados intensivos. “O nível de suporte necessário para esses pacientes é muito grande. Não é só ventilação mecânica. Pelo menos 30 a 40% deles precisam do uso de diálise, que é outro nível de suporte avançado de vida muito complexo e que requer cuidado, hora a hora, e pessoal treinado. Isso sem contar com as complicações, que podem ser uma trombose venosa, seja nas pernas ou nos pulmões”, diz.

Mais de 26.000 casos no RJ

Balanço divulgado na segunda-feira (18) pela Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro apontava 26.665 casos confirmados de coronavírus e 2.852 mortes. Previsão da prefeitura do Rio publicada na imprensa brasileira nesta sexta-feira (22) estima que a cidade passará dos 40 mil casos, em menos de duas semanas.

“Nenhum sistema do mundo está preparado para um volume de pacientes tão grande”, avalia Saddy. “A infecção tem grande chance de acontecer pela transmissibilidade da doença. Agora, a sobrecarga do sistema será inexorável. Já existe essa sobrecarga: há filas no sistema público. No sistema privado, onde eu atuo, nós tivemos um volume de internações muito grande, mas conseguimos atender os pacientes. Porém, o volume daqueles que podem ainda estar infectados e evoluir mal é significativo”, observa.

SUS X privado

“Sem sombra de dúvidas existe uma diferença enorme da estrutura do SUS versus a estrutura do hospital privado. Por exemplo: na Itália, o número de leitos de terapia intensiva é muito pequeno, não chega a 5% do total ou, no máximo 10%, em locais onde há muitas cirurgias. Aqui no Brasil, é diferente no sistema privado, que tem um foco maior em terapia intensiva por questões obviamente econômicas. Já no SUS, a gente tem uma situação parecida com o que existe normalmente na Itália. Quando comparamos com o número total de leitos, temos um número de vagas de UTI menor, sem contar com a redução do investimento ao longo dos últimos anos. Então, a infraestrutura necessária para cuidar de pacientes tão complexos acaba sendo menor e estando aquém do que gostaríamos”, lamenta.

“Da mesma forma que existe um carro popular, existe um carro de alto luxo, de alto padrão, com alta complexidade, elétrico, etc. A mesma coisa acontece com a estrutura de terapia intensiva. Desde a cama que tem balança, que roda o paciente ou o respirador de última geração, até as coisas mais simples. E isso, às vezes, faz diferença, não tenha dúvida”, constata o médico.

Não é apenas a infraestrutura, no entanto, que é diferente nos atendimentos particulares ou públicos no Brasil. “A outra questão é de pessoal. Ao longo do tempo, as pessoas melhor preparadas acabaram migrando do SUS para o sistema privado. Então, hoje, nós temos uma necessidade de pessoal competente e preparado para esse tipo de situação. Lembrando que o SUS, há 20 anos, tinha profissionais espetaculares. Hoje não necessariamente, pela queda do investimento no setor da saúde no Brasil”, lamenta.

Isolamento social X subsistência

São as políticas de saúde pública que determinam o tamanho da onda de doentes que chega aos hospitais. Na França, o governo optou por um confinamento rigoroso da população, a fim de reduzir a curva de contágios e diminuir a necessidade de internações de casos graves. No Brasil, há posições diferentes de um estado para outro e muita controvérsia sobre a necessidade de distanciamento social e aplicação de barreiras sanitárias.

“Como médico, olhando meramente para a parte profissional, é óbvio que quanto menos contato as pessoas tiverem, menor vai ser a sobrecarga do sistema de saúde. Entretanto, nós estamos num país de Terceiro Mundo e as pessoas precisam sair de casa para trabalhar, para ganhar o seu sustento e levar comida para casa. Isso é muito sensível em países como o nosso que não têm uma retaguarda social como gostaríamos”, analisa Felipe Saddy.

“É óbvio que, como médico, eu não tenho que discutir o lockdown e o bloqueio social, pois isso é o que diminui a necessidade de leitos dentro do sistema de saúde, seja privado ou público. Entretanto, é preciso entender que a população necessita de ajuda e, à medida que o tempo passa, o retorno financeiro cai e as pessoas começam a pensar na sua subsistência. É uma pena porque, de fato, o que prima nesse sistema é a saúde das pessoas, porque se não tem saúde, não tem economia”, afirma.  

Cloroquina

Pesquisadores do mundo inteiro trabalham em estudos sobre tratamentos para a Covid-19. Entre essas pesquisas, está a indicação da cloroquina e da hidroxicloroquina que, pelo menos até o momento, não têm comprovação científica de sua eficácia.

“Nos dois hospitais em que eu trabalho, que são privados e abertos a médicos assistentes, existem colegas que acreditam na hidroxicloroquina. A determinação do nosso serviço é de não usar por falta de evidências. Entretanto, médicos que internem seus pacientes nessas UTIs e queiram prescrever, há um consentimento informado, esclarecendo todos os efeitos colaterais. E se a família concordar, será administrado, sabendo dos riscos e da falta de benefício evidenciado na literatura”, explica.  

O governo brasileiro emitiu um protocolo para o uso da cloroquina em pacientes de Covid-19. Felipe Saddy conta que os estudos feitos pelo Dr. Raoult, em Marselha, no sul da França, inicialmente geraram esperanças na eficácia do tratamento com esse tipo de medicamento.

“Houve um primeiro estudo francês, altamente questionável e que, inclusive, foi retirado de publicação sobre a hidroxicloroquina que gerou um impacto positivo na sociedade médica. Porém, à medida que a gente leu o trabalho e entendeu que a metodologia era altamente discutível e, portanto, os resultados também, nós paramos e vimos que precisávamos rever a questão da hidroxicloroquina. Do ponto de vista teórico parece bom, mas, na prática, não se mostrou até o momento benéfico”, esclarece.

Troca de ministros da Saúde: “O Brasil complica as coisas”  

Em plena pandemia de coronavírus, o Brasil já trocou de ministros da saúde mais de uma vez. Para Saddy, a falta de uma diretriz bem definida sobre a crise traz incerteza.

“Isso gera uma insegurança, à medida em que numa situação de pandemia o ministro da Saúde é o porta-voz do governo. Então, quando a gente tem uma quebra de uma conduta que vinha sendo feita de forma bem clara, bem direcionada, a partir de um polo central, que é o governo, isso gera um nível de incerteza”, avalia.

“Porém, por outro lado, as sociedades médicas estão bem inteiradas da situação, vários órgãos se manifestaram sobre isso, mas, infelizmente, temos uma crise que vai além da pandemia. É muito típico do Brasil a gente complicar as coisas, como fazemos sempre”, ironiza.

Subnotificação

Outro problema é a possível subnotificação de casos de Covid-19 no Brasil. O ministério da Saúde diz que não há como saber exatamente quantas pessoas foram infectadas pelo coronavírus no país. Saddy acredita em uma subnotificação de casos, cuja alguns indicadores seriam a falta de testes em massa na população (são testados os casos graves) e um aumento significativo por síndromes respiratórias (quase 10 vezes mais em 2020, segundo estudo recente).

“Eu não tenho dúvidas de que há subnotificação. A única forma de a gente saber são os testes em massa, sabendo que eles têm algumas limitações. Mas, sem dúvida, a testagem mostraria a realidade, como fez, por exemplo, a Coreia do Sul. Isso é importante para que o próprio governo possa tomar medidas em relação à abertura ou não”, diz. 

Esperança em vencer a guerra

O Brasil tem tido um número elevado de óbitos entre médicos e enfermeiros, com mais de 140 mortes registradas entre profissionais de saúde. Só no Rio de Janeiro, passa de 30 o número dos profissionais que perderam a batalha contra a Covid-19. Entretanto, para o médico responsável pela UTI ventilatória do hospital Copa D’or, a sensação é de estar vencendo a luta.

“Anteontem, eu encontrei com um colega e ele disse: ‘Agora estamos ganhando’. Isso reflete na nossa moral, começarmos a perceber que estamos fazendo a coisa certa, pois já demos inúmeras altas, algumas que foram muito comemoradas, como a de pacientes que precisaram de medidas extremas de suporte ventilátorio, com oxigenação do paciente através de uma máquina fora do corpo dele, até que o pulmão se recuperasse. E isso nós dá muita força. No CTI, ao contrário do que se achava no passado, a maior parte dos pacientes melhora e nós os devolvemos para as suas famílias e à sociedade”, comemora.

 

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