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Análise: Elites econômicas, Congresso e governadores não permitiriam golpe de Bolsonaro

Presidente Jair Bolsonaro circula, sem máscara, em meio a apoiadores, em 24 de maio de 2020.
Presidente Jair Bolsonaro circula, sem máscara, em meio a apoiadores, em 24 de maio de 2020. AFP/File
Texto por: Lúcia Müzell | Elcio Ramalho
3 min

A operação policial resultado do chamado Inquérito das Fake News, do STF, levou o presidente Jair Bolsonaro a radicalizar ainda mais o discurso contra o Judiciário, num aprofundamento da crise institucional no Brasil. Nesta quinta-feira (28), o líder de extrema direita chegou a evocar uma intervenção militar, por meio do artigo 142 da Constituição, que condiciona a atuação das Forças Armadas para garantir a lei e a ordem. Mas para analistas ouvidos pela RFI, Bolsonaro conta com bem menos apoio do que reivindica para promover um eventual golpe.

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“Não digo que seja impossível Bolsonaro tentar algum tipo de ruptura ou de golpe, dada a índole do bolsonarismo. Seria dilacerador, traumático para o país. Mas acho improvável que desse certo, apesar de ele ter o apoio dos militares, das polícias e até uma base miliciana”, avalia o cientista político e economista Thomas de Barros, pesquisador da Sciences Po de Paris. "Muitos Estados e seus governadores não o estão apoiando. O Congresso não está do lado dele, nem a imprensa. Um golpe não se sustentaria no Brasil de hoje. Nós não estamos em 1964.”

Hipótese de golpe não é mais "devaneio"

O cientista político da UFMG Dawisson Belém Lopes destaca a gravidade dos comentários de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, que foi explícito ao afirmar, em uma live, que "não se tratava mais de 'se', mas de 'quando' aconteceria a ruptura institucional”. “Talvez, pela primeira vez, as pessoas estejam começando a cogitar essa hipótese seriamente –  não apenas como um devaneio, o pior cenário, mas algo que começa a parecer tangível”, constata o professor.

"Isso me parece um discurso alarmante, que não pode ser desconsiderado nem minimizado. A situação pode ser insustentável dentro de algum tempo e enfrentamento haverá. A ruptura seria a clássica, a tomada do poder pela força”, indica Lopes, para quem o apoio das Forças Armadas ao presidente é menor do que ele estima. "Acho que as Forças Armadas não embarcariam nesse tipo de aventura. Há clivagens e oposição dentro delas: o general [Carlos Albertos dos] Santos Cruz é uma voz que tem sido muito sóbria e, de certa maneira, servido como dique de contenção contra uma intervenção.”

Empresários abandonariam governo

Thomás de Barros ressalta que qualquer movimentação nesse sentido seria alvo de retaliação internacional e, num contexto de globalização, causaria graves prejuízos à economia brasileira, já debilitada. Por isso, o empresariado também abandonaria o barco do presidente, na avaliação do cientista político.

“O mercado, os empresários e industriais podem até apoiar o Bolsonaro hoje, mas não apoiariam um golpe porque sabem que isso seria muito ruim para o bolso e negócio deles", resume.

Lopes frisa ainda que, antes de chegar a esse ponto de ruptura, há alternativas previstas na Constituição. "O impedimento do presidente, por crime de responsabilidade ou crime comum; uma renúncia, que poderia ser induzida pelas próprias Forças Armadas. E uma terceira hipótese é ter um presidente protocolar, esvaziado, que cumpra o seu mandato de forma inefectiva e ineficiente, mas com muitos custos humanos, por conta dessa ineficiência administrativa, especialmente nesta época de pandemia".

Para Barros, o presidente "partiu para o vai ou racha” no contexto da pandemia de coronavírus. A gestão desastrosa da crise o enfraqueceu e isolou politicamente, em poucas semanas. "Bolsonaro criou essa crise: a melhor forma de navegar na tempestade é ser a tempestade. Mas agora temos uma tempestade ainda maior que o Bolsonaro”, analisa.

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