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"Há uma politização excessiva da pandemia", diz médico infectologista da Fiocruz

Áudio 06:56
O médico infectologista da Fiocruz, Fernando Bozza.
O médico infectologista da Fiocruz, Fernando Bozza. © Arquivo Pessoal

O Brasil se tornou o segundo país com o maior número de casos da Covid-19 em meio a controvérsias políticas sobre a melhor forma de combater o vírus, que tem se propagado rapidamente em várias regiões do país. Diante de uma situação ainda considerada fora de controle, e com previsões alarmantes devido a subnotificações de casos, pesquisadores brasileiros correm contra o tempo para identificar os tratamentos mais eficazes e contribuir para a descoberta de uma vacina.

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Médico infectologista e pesquisador da Fundação Fiocruz, Fernando Bozza participa de grupos de estudos transversais sobre a melhor forma de cuidar dos pacientes. "Um dos aspectos positivos da pandemia foi mobilizar toda a comunidade científica", constata, e acrescenta: "assim como a sociedade em geral tem se mobilizado, esse vazio do governo faz com que a comunidade científica se mobilize ainda mais".   

Segundo Bozza, a busca para encontrar soluções para a epidemia no Brasil envolve não apenas pesquisadores da área médica e de saúde, mas também equipes de matemáticos, economistas e engenheiros. 

"Do ponto de vista de investigação biológica, tem várias iniciativas importantes, como novas moléculas, reposicionamento de moléculas. Temos trabalhado com antivirais usados contra o HIV e (os estudos) têm demonstrado que eficácia no controle do Sars-CoV-2 ", diz em referência ao vírus que provoca a Covid-19.

 

Outras linhas de pesquisa, de acordo com o especialista, buscam entender os mecanismos da doença. "Uma das preocupações hoje é que nas formas graves da doença, os pacientes têm ativação do sistema de coagulação. A hipercoaguabilidade é um dos fenômenos que parece ser muito característico da Covid-19. Entender o papel das plaquetas e de outros fatores da coagulação e anticoagulantes para o controle, tem sido feito", comenta.

Pesquisas com cloroquina

Fernando Bozza acompanha ainda três grandes estudos clínicos com drogas, sendo que dois deles avaliam o uso de cloroquina, estão em fase de análise e sendo randomizados. "Muitas informações sobre a cloroquina têm gerado controvérsia. Dois estudos foram concluídos e devem trazer informações sobre o uso da cloroquina para a progressão, se ela evita ou atrasa as formas mais graves da doença", explica. 

Além dos estudos com pesquisadores no país, o Brasil também participa de ensaios e testes em colaboração com grupos internacionais, com a própria OMS e até com a indústria sobre novos medicamentos, e, em breve, também sobre vacinas. "Hoje o Brasil é um dos centros de epidemia da Covid e como há essa mobilização, (o país) tem um potencial grande para essas pesquisas", avalia. 

Fernando Bozza participa ainda de estudos sobre a iniquidade social do Brasil e seus efeitos de letalidade em relação ao novo coronavírus. Assim como outros estudos já identificaram, as desigualdades flagrantes entre as regiões e os diferentes grupos étnicos são fatores que contribuem para uma maior exposição à doença. 

"De fato, quando a gente olha diferenças raciais e de nível educacional e sócioeconômicos, podemos observar que o efeito da Covid-19, especialmente do ponto de vista da letalidade, é muito desigual. A mortalidade nas populações mais vulneráveis, com menor nível educacional e mais pobres, é várias vezes maior do que em populações de renda mais alta, branca e educadas. Essa iniquidade é muito clara e importante no nosso meio", constata. 

Politização da pandemia

Membro do gabinete de crise formado por especialistas para assessorar o governo do Rio no combate à pandemia no Estado, o médico infectologista lamenta a falta de coordenação política entre as esferas de poder no país.  

O especialista  deplora o que considera uma "politização excessiva" do combate à pandemia no momento em que deveriam se juntar os esforços para diminuir o impacto na população

"Para o enfrentamento da pandemia, um dos pontos essenciais é uma coordenação de todos os entes federativos. Os governos federal, estadual e municipal devem trabalhar no mesmo sentido, que é o de buscar o controle, ver os recursos, apoiar as iniciativas para mitigar a propagação da epidemia e também para o atendimento adequado das populações. Está havendo uma politização excessiva na condução da epidemia e um certo conflito entre visões do próprio governo federal em relação aos governadores, e muitas vezes aos prefeitos, o que tem levado a uma ausência de coordenação de fato", diz.

"Há uma mensagem vinda do governo federal que é contraditória à dos governadores, principalmente dos estados mais afetados. Muitas dessas medidas que a gente sabe que são efetivas, de isolamento social, e medidas até mais dramáticas como a de lockdown, acabam não sendo tomadas e, muitas vezes, não percebidas como necessárias pela população", constata.

Diante da evolução rápida da epidemia, o infectologista defende uma hospitalização precoce dos pacientes, que é benéfica tanto do ponto de vista da redução da transmissão, quanto médico.

"A gente sabe que os pacientes sintomáticos têm uma carga viral mais alta. Tirá-lo da comunidade e fazer um isolamento é muito importante. Além disso, uma vigilância e a utilização de oxigênio em pacientes com fatores de risco, parecem previnir a progressão da doença", garante. 

"A gente defende que a hospitalização não se dê apenas para os doentes mais graves, que necessitam de terapia intensiva, mas que se deem também anteriormente. A abertura dos hospitais de campanha no Rio, por exemplo, é essencial para essa estratégia", afirma.  

 

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