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Yanomami lançam campanha mundial "#ForaGarimpoForaCovid"

Um dos vários garimpos ilegais no território Yanomami na Amazônia brasileira.
Um dos vários garimpos ilegais no território Yanomami na Amazônia brasileira. © FUNAI
Texto por: RFI
4 min

O povo Yanomami lançou nesta terça-feira (2) uma campanha mundial para exigir que as autoridades brasileiras expulsem os 20.000 garimpeiros ilegais de seu território, com o objetivo de frear a propagação do novo coronavírus. Na França, a campanha "#ForaGarimpoForaCovid" tem o apoio e é divulgada pela ONG Survival International.

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Três Yanomami já morreram de Covid-19 e dezenas de indígenas estão infectados pelo coronavírus, informa a Survival. O comunidado da ONG diz que o "temor é que a doença aniquile milhares de Yanomami e afete também várias comunidades ye’kwana que vivem no mesmo território".

Novas pesquisas realizadas para apoiar a campanha revelam que 40% dos Yanomami (quase 14.000) que vivem perto das áreas invadidas por garimpeiros poderiam ser infectados pelo vírus e que o território desse povo indígena é o mais vulnerável de toda a Amazônia brasileira diante da doença.

A Survival conversou com Dario Yanomami, da associação Yanomami Hutukara. Ele declarou que eles "vigiam a propagação da Covid-19 no território e estão muito tristes com as três primeiras mortes". O líder associativo disse que os pajés da tribu trabalham sem descanso para conter essa xawara (epidemia). "Vamos lutar e resistir. Para isso, precisamos do apoio do povo brasileiro e do mundo inteiro", pediu.

A campanha “#ForaGarimpoForaCovid” foi lançada por várias associações yanomami e ye’kwana, com o apoio de organizações brasileiras e internacionais do mundo inteiro a favor dos direitos humanos. O objetivo é conseguir 100.000 assinaturas em um manifesto que pede a ação do governo do presidente Jair Bolsonaro e do poder legislativo para defender as terras indígenas.

"Precisamos urgentemente evitar que mais doenças se espalhem entre nós. Garimpeiros entram e saem de nossas terras em busca de ouro, sem nenhum controle", explica o documento virtual.

Maior território indígena do Brasil

O território Yanomami é a maior reserva indígena do Brasil, com 96.000 km². Ele é alvo de invasões e garimpos ilegais de ouro desde os anos 1980. Epidemias de malária, introduzidas pelos garimpeiros nessa época, mataram um quinto da população Yanomami no Brasil e dezenas na Venezuela.

Os garimpeiros buscam ouro nas proximidades das numerosas tribus isoladas, chamadas de Moxihatatea. Os índios isolados são particularmente expostos ao risco de serem dizimados por doenças contra as quais não têm imunização.

O líder Davi Kopenawa, conhecido como o “Dalaï Lama da floresta tropical”, advertiu recentemente a ONU que os Yanomami isolados poderiam, em breve, ser exterminados se nada for feito para a proteção de seu território.

Os garimpeiros parecem aproveitar do caos criado pela epidemia do coronavírus, incentivados pela posição do presidente Bolsonaro, favorável a exploração mineral, escreve a Survival. Entre março e fevereiro desde ano, houve um aumento do desmatamento no território Yanomami pelos garimpeiros. O presidente brasileiro encoraja ativamente as invasões e apresentou um projeto de lei visando vender as terras indígenas, informa a ONG.

O presidente Jair Bolsonaro questionou a extensão da reserva, demarcada em 1992, e defende a exploração econômica de áreas de preservação. "O contexto político não está nada favorável. Temos um ministro do Meio Ambiente que enxerga a pandemia como oportunidade para passar a legislação que fragiliza a proteção ambiental. Por outro lado, é responsabilidade do Estado deter essa atividade ilegal e criminosa", ressalta Antonio Oviedo, pesquisador do Instituto Socioambiental (ISA), em entrevista à AFP. Um manifesto, lançado em maio pelo fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, radicado na França, também pede a proteção dos índios brasileiros nesse momento de pandemia.

Catástrofe humanitária em curso

Fiona Watson, diretor de pesquisa da Survival, declarou durante o lançamento da campanha "#ForaGarimpoForaCovid" que a sobrevivência dos Yanomami depende da expulsão dos garimpeiros. "Atualmente, os rios estão poluídos de mercúrio, as florestas destruídas e as crianças morrem de malária. Novos garimpeiros aproveitam da pandemia de Covid-19 para invadir o território. Uma catástrofe humanitária está em curso", denunciou Fiona Watson.

"Se o governo não agir agora, poderemos assistir a um nova corrida do ouro terrível, como nos anos 1980, quando um quinto da população Yanomami morreu de doenças importadas por inação do governo", alertou a diretora da Survival.

O Brasil, com mais de 500.000 casos e quase 30.000 mortes por coronavírus, é o segundo país do mundo com mais pessoas infectadas e o quarto com o maior número de mortes por causa do vírus. Até 30 de maio, de acordo com o balanço da Articulação Não Governamental dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), 76 povos indígenas tinham sido afetados pela doença, com 1.747 casos confirmados e 167 mortos.

 

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