RFI Convida

Mito da democracia racial não permite que você revide, diz artista congolês radicado no Brasil

Áudio 06:44
Bukassa Kabengele
Bukassa Kabengele © Arquivo Pessoal

Bukassa Kabengele, 47, é um ator e músico congolês, que mora no Brasil desde os 10 anos de idade, quando chegou ao país junto com seu pai, que lecionava então na cadeira de Antropologia da USP. Naturalizado brasileiro, ele se tornou conhecido não apenas pela participação em diversas novelas e séries da Globo, mas também por sua atuação no movimento negro. Kabengele fala sobre os recentes protestos antirracistas no Brasil e no mundo, sobre a “falsa democracia racial” brasileira e sobre o peculiar preconceito brasileiro contra imigrantes negros.

Publicidade

(Para assistir a entrevista completa, clique no vídeo ao fim da matéria)

Bukassa Kabengele afirmou que “apoia completamente a manifestação [antirracista, no Brasil, ocorrida em 7 de junho], mesmo se não esteve “presencialmente”. “Lutamos contra uma situação de extermínio que vem ocorrendo há séculos, desde que o negro chegou no Brasil, escravizado pelo sistema colonial”, disse. “Houve uma divergência de olhares e narrativas em relação ao momento [por parte das lideranças negras], mas estas são todas vozes importantes dentro do movimento”.

“As populações negras no Brasil já são afetadas por um braço do racismo, a estrutura brasileira é calcada num sistema patriarcal, racista, machista. Pessoas sofrem com isso. Como se não bastasse, você tem uma polícia que invade lugares pobres, onde pessoas se resguardam de uma crise sanitária importante e agressiva como essa. Você fica em casa, mas a polícia invade e te mata”, disse o ator e músico, numa referência ao assassinato do garoto negro João Pedro pelas forças policiais em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio.

“Racismo é insustentável”

“A situação do racismo é insustentável. Os movimentos continuam lutando acho que eles nunca pararam, eles são antigos, os movimentos de resistência vêm desde a chegada dos negros africanos escravizados no Brasil”, avalia Kabengele. “Ele continuam. O que acontece é que, na verdade, eles não têm muita visibilidade na mídia”, afirma.

“Não existe um racismo melhor ou pior do que outro. Mas existem lugares onde não existe a possibilidade de criar uma consciência para se opor e lutar contra o seu algoz. No Brasil, temos um racismo velado, onde foi criada esta falsa ‘democracia racial’, a ideia de que tratamos melhor os nossos negros. Essa frase já vem carregada de um racismo que não permite que você revide”, analisa. "Trata-se do racismo que invisibiliza o negro nas mídias, mas que também não oferece condições para que as pessoas desenvolvam senso crítico, para que possam entender e zelar por seus lugares e direitos".

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.