Policiais Antifascismo: “Antes, éramos lunáticos; agora, nos chamam de visionários"

Uma mulher grita com policiais militares durante protesto contra crimes cometidos pela polícia contra negros nas favelas, fora do governo do estado do Rio de Janeiro, Brasil, domingo, 31 de maio de 2020.
Uma mulher grita com policiais militares durante protesto contra crimes cometidos pela polícia contra negros nas favelas, fora do governo do estado do Rio de Janeiro, Brasil, domingo, 31 de maio de 2020. AP - Silvia Izquierdo

O acirramento da crise política no Brasil tem levado o movimento dos Policiais Antifascismo a sofrer mais ameaças e intimidações pela ala bolsonarista da categoria. Ao mesmo tempo, o avanço de tentativas de controle de instituições como a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República faz com que cada vez mais policiais “isentões" procurem o movimento progressista, iniciado em 2017.

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“Esse grupo, muito grande da polícia, que não se posiciona nem à esquerda, nem à direita, quando nos via acenando a bandeira antifascismo, achava que éramos fanáticos, lunáticos, que estávamos delirando com teorias conspiratórias. Hoje, muitos já ligam para a gente para dizer que fomos visionários e sabíamos o que iria acontecer”, afirma o delegado Orlando Zaccone, um dos fundadores da associação que hoje já conta com pelo menos 500 integrantes.

“Pode parecer pouco, numa estrutura que tem mais de 1,2 milhão policiais. Mas a polícia está extremamente dividida. Os policiais que encampam o campo progressista e democrático ficam, geralmente, muito velados, por causa das perseguições. A lógica dominante é a conservadora retrógrada, antidemocrática”, complemente Denilson Campos Neves, policial civil na Bahia. "O campo de bolsonaristas, está ficando raivoso e acompanha o que está acontecendo fora da polícia. Esse grupo, cada vez mais, aponta as armas para a gente como se fôssemos os inimigos”, frisa Zaccone.

Orlando Zaccone
Orlando Zaccone © Arquivo Pessoal

Investigação por formação paramilitar

A ala bolsonarista encontra eco na Justiça. Recentemente, o Ministério Público do Rio Grande do Norte abriu uma investigação para apontar se os Policiais Antifascistas podem ser enquadrados como grupo paramilitar. Para Zaccone e Neves, este é mais um sinal de que um golpe institucional já está em curso.

"Nós imaginávamos que seria um golpe militar clássico, como na década de 1960. Mas não é isso: o golpe do Bolsonaro é institucional, através da ocupação dos espaços institucionais. Ele já está fazendo isso na prática, sem necessidade de levantar uma arma”, constata o policial baiano, lembrando que o Legislativo e Judiciário ainda não deram respostas à altura das afrontas do presidente. Bolsonaro incita, sem puderes, seus apoiadores a rejeitar os demais Poderes.

No início do mês, ao mesmo tempo em que milhares de pessoas rompiam o isolamento social contra o coronavírus para protestar contra o governo federal, os Policiais Antifascistas lançaram um manifesto para defender a democracia, assinado por cerca de 800 agentes, até esta sexta-feira (12). No texto, dizem que está em curso a “institucionalização de mecanismos de controle e repressão para afastar qualquer tipo de oposição ao governo".

Combate ao fascismo no mundo

No momento em que países do mundo todo propagam os protestos iniciados nos Estados Unidos contra o racismo e a violência policial, o manifesto não se priva de falar que, no Brasil, reina “o racismo institucional; a misoginia; a LGBTfobia; a criminalização dos movimentos sociais”.

"Lutamos contra governos protofascistas que neutralizam qualquer tipo de oposição, como está acontecendo no Brasil. Fico feliz de estar podendo participar, no meio dessa tensão mundial, porque o enfrentamento ao fascismo não é feito só no Brasil, mas também na Europa, nos Estados Unidos”, comenta Zaccone, responsável pelo inquérito da morte do pedreiro Amarildo, na Rocinha, em 2013.

Os policiais avaliam como distante a possibilidade de, por conta da dissidência política, acabarem presos. Avaliam que, antes disso, podem sofrer com intimidações como congelamento de salários, bloqueio da carreira ou até a expulsão. Também não temem, por enquanto, pela vida. ”Mas o que está acontecendo com o governo Bolsonaro foge da ótica da razão, do diálogo, então qualquer coisa que vier desse governo não nos surpreende”, indica Neves.

Denilson Campos Neves é policial civil na Bahia.
Denilson Campos Neves é policial civil na Bahia. © Arquivo Pessoal

Na prática, Bolsonaro não melhorou a vida dos policiais

Os dois antifascistas ressaltam, entretanto, que o apoio dos policiais a Bolsonaro não é incondicional. O jogo pode começar a virar se o governo decidir reforçar a repressão contra os manifestantes antibolsonaristas, avalia Neves. Ou então por perceberem que, concretamente, governo não apresentou medidas para melhorar as condições de trabalho e de vida dos policiais até agora, apesar do discurso. "Não existe nenhuma relação de troca, de os policiais poderem dizer que vão defender o governo porque ele está nos protegendo. Muito pelo contrário: a vida dos policiais piorou”, garante.

O delegado Zaccone argumenta que, se a crise política se aprofundar, vai acabar sobrando para as Forças Armadas decidirem o rumo político do país, “como sempre aconteceu no Brasil, desde o Império”. “É  algo que ainda não conseguimos romper na história do Brasil. Em países de tradição democrática, você não concede esse amplo poder às forças militares.”

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