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Ficar ou voltar? Brasileiros na França enfrentam dilema de retornar ou não ao Brasil na pandemia

Com o cancelamento do estágio na França, Júlia Barroso preferiu retornar ao Brasil, onde segue o isolamento social no Rio de Janeiro, na casa dos pais.
Com o cancelamento do estágio na França, Júlia Barroso preferiu retornar ao Brasil, onde segue o isolamento social no Rio de Janeiro, na casa dos pais. © Arquivo Pessoal
Texto por: Lúcia Müzell
6 min

Era para ser a primeira vez que a professora de português Fernanda Coelho, 33 anos, iria ao Brasil com o marido francês, com quem se casou há dois anos. Porém, a falta de um plano de controle do coronavírus no país faz com que o esposo esteja desconfortável com a viagem. Para piorar, as incertezas quanto aos voos entre a França e o Brasil permanecem, apesar de o país europeu ter afrouxado a quarentena e a União Europeia poder reabrir as fronteiras externas em julho. O casal não sabe se o retorno, previsto para 23 de agosto, poderá mesmo acontecer.

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Como Fernanda, milhares de brasileiros que vivem no exterior enfrentam o dilema de viajar ou não para o próprio país em meio à pandemia. “Tem poucos voos e, os que têm, estão sendo cancelados sem nenhum tipo de explicação”, conta a professora, que já teve uma passagem prevista para abril anulada. “Meu marido acha melhor não irmos e esperarmos melhorar a situação lá. Entendo que é complicado: a gente teria de continuar a quarentena no Brasil, na casa da minha mãe em Piracicaba.”

A professora de português Fernanda Coelho teme ficar "presa" no Brasil e está indecisa sobre a  viagem ao país, prevista para julho.
A professora de português Fernanda Coelho teme ficar "presa" no Brasil e está indecisa sobre a viagem ao país, prevista para julho. © Arquivo Pessoal

No Estado de São Paulo, a cidade é uma das que registra maior aumento de novos casos de Covid-19, e ilustra a aceleração da doença no interior do país, nas últimas semanas. Desde maio, o Brasil é o país onde há mais novos infectados diários no mundo, uma situação que prolonga as restrições de viagens de outros países e de companhias aéreas para territórios brasileiros.

Para outros, a permanência na França não foi uma escolha: sem trabalho durante a quarentena, centenas de brasileiros perderam a renda para se sustentar no país, onde os custos de vida são elevados. O aluguel de um pequeno studio na capital, por exemplo, dificilmente sai por menos de 700 euros (em torno de R$ 4 mil).

Apoio consular para retornar

Desde o início da quarentena na França, em 16 de março, o consulado do Brasil em Paris presta auxílio a brasileiros que acabaram bloqueados em solo francês, principalmente por dificuldades financeiras. Dois voos de repatriação foram organizados pelo governo brasileiro, levando mais de 100 passageiros. No total, 354 retornos foram viabilizados com a ajuda da representação diplomática, incluindo apoio na remarcação de voos cancelados.

“A maioria eram não-residentes, pessoas que não tinham como ficar aqui, mas não estavam conseguindo voltar”, explica João André Silva de Oliveira, cônsul-adjunto. A mesma situação se repetiu em outros países europeus atingidos pela pandemia, como Espanha, Itália ou Reino Unido. “Nas últimas semanas, houve uma queda na quantidade de pedidos. Com a vida voltando ao normal, os residentes puderam retomar suas atividades."

Desde meados de maio, com o início do afrouxamento das medidas de confinamento, os serviços consulares como emissão de passaportes, foram restabelecidos, preferencialmente pela internet. Entretanto, o ritmo está menor do que o normal, afirma Silva de Oliveira – um sinal de que os brasileiros não estão apressados para viajar para o país natal.

É o caso da advogada Renata Zagne, 38 anos. Apesar do aperto financeiro gerado pela pandemia e das incertezas sobre a carreira, ela preferiu ficar em Paris. Está vivendo de economias, que devem sustentá-la até agosto. "Conversei com todo mundo e achamos que não é um bom momento, pelas incertezas politicas e o andamento da pandemia no Brasil”, afirma. “Lá, não vejo uma solução para o problema, como aqui. Mal ou bem, a gente acaba conseguindo algum trabalho, enquanto que lá, com um desemprego tão alto, não seria fácil, mesmo tendo qualificação”, diz a carioca de Niterói.

Apesar do aperto financeiro gerado pela pandemia e das incertezas sobre a carreira, advogada Renata Zagne preferiu ficar em Paris. Na foto, ela aparece diante da Torre Eiffel antes do confinamento.
Apesar do aperto financeiro gerado pela pandemia e das incertezas sobre a carreira, advogada Renata Zagne preferiu ficar em Paris. Na foto, ela aparece diante da Torre Eiffel antes do confinamento. © Arquivo Pessoal

Dúvidas sobre atendimento médico na França

No caso da universitária Júlia Barroso, 23 anos, o raciocínio foi inverso. Ela estava na metade do curso de dupla diplomação em engenharia quando a pandemia interrompeu os planos de um estágio remunerado em Paris. A jovem então se apressou para pegar o primeiro voo de volta para o Rio de Janeiro, onde afirma respeitar o isolamento social para conter a disseminação da Covid-19 desde março.

Além da questão financeira, também pesou na decisão as incertezas em relação ao atendimento médico que ela teria na França, caso precisasse. “A gente sabe como os franceses podem ser preconceituosos com estrangeiros. Pensei que, se tivessem de optar entre um francês e um estrangeiro num hospital, eu poderia ficar sem atendimento”, relembra a jovem.

“Mas a situação está péssima aqui [no Rio]. Dá uma tristeza porque, quando voltei, as coisas pareciam caminhar para outro lado. A quarentena aqui foi decretada muito mais cedo do que na França, e eu tinha esperança de que sairia antes. Só que a população não está respeitando, as autoridades do governo desdenham do problema”, comenta Júlia. A estudante planeja voltar à França em julho para retomar o curso, por mais um ano.

Já Fernanda Coelho permanece insegura, seja na França ou no Brasil. “Eu teria medo lá e tenho medo aqui. Ainda não consigo relaxar. A epidemia está controlada agora na França, mas pode voltar”, pondera a paulista, residente há nove anos no país europeu.

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