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Revista francesa de fotografia tem como tema Brasil vertiginoso

Capa da revista bianual 6Mois, que traz três reportagens fotográficas sobre o Brasil
Capa da revista bianual 6Mois, que traz três reportagens fotográficas sobre o Brasil © Captura de tela
Texto por: Patricia Moribe
4 min

“Brasil, a vertigem” é o título da edição n° 19 da revista francesa de fotografia 6Mois (6Meses), especializada em grandes reportagens. A publicação aborda neste número a destruição da Amazônia, a vida em um cortiço vertical de São Paulo e o cotidiano das famílias de grandes pecuaristas no Mato Grosso do Sul e no Pará.

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Léna Mauger, uma das editoras-chefe de 6Mois, conta que o número sobre o Brasil deveria ter saído em março, mas por causa do isolamento da pandemia só chegou às livrarias em junho. “Como é uma edição semestral, não estamos conectados com a atualidade, mas quando fechamos o número, em setembro, falava-se muito de Bolsonaro e da questão indígena, então decidimos ir por esse caminho”, explica Mauger.

“A revista busca temas em projetos pessoais e de longo termo. Pesquisamos muitos portfólios e tudo o que vem sendo produzido nos últimos anos. Damos muita importância à narração, ao tratamento fotográfico, e à temática”, disse a editora à RFI.  

Cristina De Middel é a autora das fotos sobre a Amazônia. “Adoramos o trabalho de Cristina. É ao mesmo tempo poético e muito forte, jornalisticamente. Ela conhece bem o terreno, tem imagens artísticas, com imersão nos assuntos”, relata Mauger sobre o trabalho da fotógrafa espanhola baseada no Brasil. As imagens de De Middel retratam a destruição da Amazônia, a voracidade dos madeireiros e a resiliência dos indígenas.  

Cristina De Middel
Cristina De Middel © Cristina de Middel / Magnum Ph - Cristina de Midde

Pecuaristas e círculo do poder

“Sobre os pecuaristas, é um assunto muito difícil, seja em fotos ou texto, pois tem a questão de se entrar no círculo do poder. Quando contactamos Carolina Arantes, ela estava prestes a fazer mais uma viagem ao Brasil para visitar as famílias dos pecuaristas, e achamos que essa visão vinha a calhar.

A mineira Carolina Arantes, 40 anos, há 11 na França, é a autora de “Steak Fric”, um jogo de palavras da expressão “steak frites” (bife com fitas) que vira “bife e grana”.

“Eu comecei a pesquisar o assunto em 2014, quando o Brasil passou os Estados Unidos como fornecedor mundial de carne”, disse Carolina à RFI. “Venho de Uberaba, em Minas [Gerais], grande região pecuarista, mas não conhecia esse meio e eu estava muito intrigada a respeito da influência desse grupo no poder”.

As imagens de Carolina, feitas em Sinop, no Mato Grosso do Sul, e em Marabá, acompanham o cotidiano de famílias poderosas. “Fiquei surpresa quando vi que elas eram tão discretas”, diz a fotógrafa. “O poder está na terra e não em objetos”. Arantes entrou nas casas, nos jatinhos, nos casamentos e em leilões de gado. “Foram anos de muitos contatos para ganhar a confiança, para mostrar que era um trabalho sério”, conta Carolina.

O catolicismo e a devoção das famílias tradicionais pecuaristas também dão o tom às imagens de Carolina. “A religião é muito forte, não há mistura com a bancada evangélica”, explica a fotógrafa.

O tema dos pecuaristas ganhou neste no também um selo de qualidade importante, a bolsa de incentivo National Geografic Explorer, que vai permitir a Carolina dar continuidade ao projeto. Sobre a revista francesa, ela diz que é “uma grande oportunidade, a 6Mois é uma das poucas publicações no mundo que investem em reportagens fotográficas longas”.

Carolina Arantes
Carolina Arantes © Carolina Arantes

Cortiço vertical no coração de São Paulo

Já “Squat toujours” (sempre cortiço), de Javier Alvarez, “traz a temática da habitação precária, com uma mensagem até positiva, sem se apoiar no lado miserável da pobreza. Um trabalho muito humano e tocante, dá para ver que o fotógrafo passou tempo nesse lugar, convivendo com os moradores. É justamente esse tipo de proximidade que nossa revista busca”, diz a editora-chefe Léna Mauger.

Alvarez traz um relato visual de um cortiço vertical do centro de São Paulo, o edifício Marconi, construído nos anos 1930. Escadas, corredores, apartamentos e personagens diversos povoam esse microcosmo da sobrevivência. O prédio foi ocupado em 2012. São 400 pessoas vivendo em 13 andares, dividindo um banheiro em cada piso.

O fotógrafo chileno fez várias idas e vindas entre Chile e São Paulo entre 2014 e 2019. “Comi e dormi junto com os moradores, muitas vezes sem tirar fotos. Conquistei a confiança das pessoas até me sentir na legitimidade de contar suas histórias”, disse Alvares à revista 6Mois.

Javier Alvarez
Javier Alvarez Javier Alvarez

 

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