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Linha Direta

“Pazuello fica, Salles fica” diz Bolsonaro sobre comando da Saúde e do Meio Ambiente

Áudio 08:04
O presidente de Brasil, Jair Bolsonaro, no Palácio da Alvorada em  15 de julho de 2020.
O presidente de Brasil, Jair Bolsonaro, no Palácio da Alvorada em 15 de julho de 2020. AFP
Por: Raquel Miura

Pressão é grande para que presidente substituta general interino que cuida das políticas sanitárias. Empresários brasileiros e internacionais também endurecem cobranças sobre ação do governo contra desmatamentos.

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Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

Pressionado diante dos números alarmantes da Covid 19 no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro não cedeu e disse que o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, continuará no cargo, ele que é oficialmente um ministro interino. O próprio presidente havia dito que pretendia escolher um nome em definitivo e essa expectativa cresceu nos últimos dias por alguns motivos: os militares estão incomodados com um general da ativa comandando o ministério em meio à pandemia e às ações controversas do presidente na área. O caso ganhou mais holofotes com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, dizendo que o Exército está associado a esse genocídio, numa referência aos quase 80 mil mortos oficiais da doença no país.

Além da pressão política de partidos que desejam indicar o novo nome para a pasta, médicos e cientistas têm criticado o ministério diante da insistência da atual equipe em citar a hidroxicloroquina como agente no combate ao coronavírus, quando estudos científicos e a OMS ressaltam os efeitos colaterais perigosos da droga, que não tem eficácia comprovada contra o novo vírus. Na noite de ontem numa transmissão para as redes sociais, Bolsonaro elogiou o ministro interino e falou dos militares que ocupam vários cargos na Saúde e outros ministérios

“Se fizer hoje uma enquete junho a parlamentares, governadores, prefeitos que entraram em contato com Pazuello, vocês vão ver que é favorável, é positivo. Ah, mas ele não é médico. Tudo bem, eu sei que não é médico. Agora o que sempre eu acho que nessa área precisamos mais de gestor do que um médico. Seria excelente se tivesse um médico e gestor. Mas infelizmente é difícil você coordenar esses dois pontos. Agora essa história de desmilitarização, não. Isso aí não… Inclusive, se tiver uma pesquisa de opinião pública, os militares estão muito bem avaliados aqui enquanto ministros”, afirmou Bolsonaro.

O presidente, que está com coroanvírus, fez a transmissão tendo à sua mesa uma caixa de hidroxicoloquina e outra de um vermífugo, ambos sem comprovação científica no tratamento da doença. E só ponderou com a frase, fale com um médico, porque foi alertado de que tal postura poderia lhe render uma ação até em tribunais internacionais.

“Já que estão falando que faço propaganda, vou fazer propaganda mesmo. Mas não é propaganda não. Tem que procurar o médico, hein. Mas olhe, está aqui, Hidroxicloroquina e Annita”, disse o presidente, citando o nome de marca de um dos produtos.

Reabertura da economia

Bolsonaro também defendeu a reabertura da economia, mesmo o país enfrentando na semana uma média de mais de mil e 50 mortos por dia. Já em alguns estados como São Paulo, que havia definido data inclusive para o retorno das aulas, soou amarelo. Uma das preocupações veio com a previsão do matemático da FGV Eduardo Massad:

“Nós temos no Brasil 500 mil crianças portadoras de vírus zanzando por aí. Se você abrir agora em 1º de agosto, mesmo usando máscara, mesmo botando dois metros de distância, nós vamos ter no primeiro dia de aula 1.700 novas infecções, com 38 óbitos. Isso vai dobrar depois de 10 dias, quadruplicar depois de 15 dias”

Para Massad, os números de mortes no Brasil entre os pequenos já é grande e pode atingir cifras bem preocupantes: “Quantas crianças morreram de Covid no Brasil até hoje? Alguém tem ideia? 300 e poucas. Mais de 300 crianças abaixo de cinco anos morreram. Se a gente abrir escola, a gente vai chegar a 17 mil. Ou seja, 17 mil crianças vão morrer e não precisariam morrer”, calcula o especialista.

Salles fica

Outro ministro considerado na corda bamba foi elogiado e, segundo o presidente, continua no posto se desejar. Ricardo Salles, do Meio Ambiente, virou alvo de especulações diante das reclamações de empresários brasileiros de que a política ambiental do governo tem prejudicado a imagem do país lá fora com consequências negativas para a exportação de produtos. Ou seja, existe uma cobrança internacional em cima do país nessa área.

O vice-presidente Hamilton Mourão, que comanda o Conselho da Amazônia, assumiu o debate com promessas de reverter números crescentes da devastação e muitos acham que o atual ministro não se enquadra nesse novo discurso. O presidente Bolsonaro, no entanto, defendeu Salles e chegou a falar que índios estão entre os que mais põe fogo na floresta

“É difícil você conter tudo isso aí. E uma parte considerável das pessoas que desmatam, às vezes num mesmo lugar, é o indígena, é o caboclo. Salles fica, Pazuello fica sem problema nenhum. São dois excepcionais ministros. A gente lamenta aí aquela reunião reservada nossa onde você não mede palavras, onde Salles falou ‘passar boiada’. O que ele quer é desregulamentar muita coisa, não é permitir que alguém cometa crime, não. É desregulamentar, desburocratizar. Às vezes o cara da cidade tá reclamando. Vai pro campo plantar pra ver o que é bom pra tosse”, falou Bolsonaro.

Governo não mostrou nova postura na política ambiental

Por essas e por outras o geógrafo e ambientalista Mário Mantovani disse à RFI que o governo ainda não mostrou uma nova postura na área ambiental e que, por enquanto, a sinalização de defesa do Meio Ambiente é para inglês ver.

“O governo não mudou nada. Ele também só recebeu as pressões e tá dissimilando por enquanto. Não tem nenhuma atividade que prove que há uma mudança de comportamento. O ministro do boi e da boiada que passa continua. O governo ainda teve atitudes depois dessa pressão de mudar o Inpe (Instituo Nacional de Pesquisas Espaciais). Nós temos ainda a pressão do Ministério da Agricultura com relação à questão fundiária. Não há nenhum sinal que o governo vai mudar. Só vimos simulações”.

O especialista também afirmou que a atuação de militares na floresta Amazônica, divulgado pelo governo como medida de enfrentamento aos problemas ambientais, não traz solução alguma: “Dizer que a presença do Exército na Amazônia vai resolver, isso não é verdade. Militares não resolvem esse problema. O que a gente precisa é de políticas públicas. O que existe de positivo até aqui nesse assunto é apenas a pressão internacional”.

Eleição americana

Um estudo publicado na revista Science por exemplo mostra que até 20% da soja exportada para a União Europeia pode ter sido plantada em área de desmatamento ilegal. Analistas avaliam que uma eventual vitória do democrata Joe Biden nos Estados Unidos pode elevar a pressão sobre o Brasil na questão ambiental. O presidente Bolsonaro disse que deseja a vitória de Donald Trump, mas que se ele não vencer, tentará se aproximar de seu adversário visando questões comerciais:

“A gente torce pelo Trump. Tenho certeza que vamos potencializar e muito o nosso relacionamento. Agora, se der o outro lado, da minha parte eu vou procurar fazer algo semelhante. Se eles não quiserem, paciência, né. O Brasil vai ter que se virar por aqui. Mas acho que nessa questão comercial Brasil-Estados Unidos tem muita coisa independente de qual partido, Republicano ou Democrata, esteja no poder”, ponderou o presidente brasileiro.

Nessa área internacional há muita crítica, de empresários e mesmo de aliados políticos do governo Bolsonaro, como partidos do centrão, de que a presença do atual ministro de Relações Internacionais, Ernesto Araújo, é muito ruim para os interesses nacionais, visto a atuação dele com alto viés ideológico. Por diversas vezes ele já apimentou de forma negativa a relação Brasil/China, por exemplo, com críticas ao país asiático. E foi mais um ministro que recebeu elogios do presidente nas redes sociais.

“Vira e mexe, falam que o Ernesto vai sair das Relações Exteriores. Um cara excepcional o Ernesto, excepcional. Tudo que eu converso com ele, parece que é meu irmão gêmeo, a gente se acerta perfeitamente. Se ele tem que sair, eu tenho que sair também”, disse Bolsonaro.

 

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