Acessar o conteúdo principal
RFI Convida

Vídeos com desinformação sobre a pandemia proliferam e causam mortes, adverte pesquisadora

Áudio 07:06
 Nina Santos, pesquisadora do INCT.DD e professora da Faculdade de Comunicação da UFBA
Nina Santos, pesquisadora do INCT.DD e professora da Faculdade de Comunicação da UFBA © Arquivo Pessoal
Por: Lúcia Müzell

A pandemia de coronavírus trouxe à internet uma invasão de informações no mínimo duvidosas sobre a Covid-19, a sua gestão e eventual cura. O ambiente virtual, terreno fértil para as fake news, influencia o comportamento das pessoas neste momento tão delicado da história. O assunto foi tema da pesquisa "Ciência Contaminada”, que analisou mais de 11 mil vídeos disponíveis na rede, a respeito da pandemia.

Publicidade

A pesquisadora de Comunicação Nina Santos e seus colegas da Universidade Federal da Bahia (UFBA) identificaram quatro principais grupos de publicações no Youtube que incluem a palavra “coronavírus”: vídeos de cunho religioso, complotistas, médicos e de cientistas especializados ou jornalísticos que contêm comentários de especialistas. As conclusões a respeito dos três primeiros grupos são assustadoras. “Eles estão majoritariamente pautados em desinformação, com informações falsas ou imprecisas sobre a doença”, explica a doutora pelo Centro de Análise e Pesquisa Interdisciplinar sobre as Mídias, da Universidade Panthéon-Assas - Sorbonne, na França.

Entre os religiosos, que têm o pastor Silas Malafaia como principal porta-voz, o foco é atribuir a pandemia a uma “praga ou punição divina”, indica Nina. “Por adotarem esse tipo de discurso, acabam minimizando formas de combater e se prevenir do coronavírus”, nota a pesquisadora.

Médicos vendem produtos

Na segunda rede, estão os adeptos das teorias conspiratórias, seguidamente apoiadas em teorias globalistas. Estes vídeos centram o debate sobre o tema nas implicações políticas internacionais, como a hipótese de que o vírus foi criado propositalmente pela China para dominar o mundo, como de pano de fundo.

Na terceira, são os médicos que tomam a palavra – mas não para reforçar a mensagem majoritariamente adotada pela comunidade científica a respeito do combate à Covid-19, com medidas de isolamento. “Isso nos surpreendeu porque poderia ser uma boa notícia, mas na verdade esses médicos se apropriam desse momento para vender alguma coisa. Eles disseminam um discurso de fortalecimento da imunidade e da vida saudável, como se bastasse para combater a pandemia”, conta a professora. “Nas descrições dos seus vídeos, eles aproveitam para vender coisas: um e-book, um curso, um suplemento alimentar.”

A quarta rede, baseada em informação científica comprovada, é composta pelos veículos jornalísticos, que promovem cobertura e debates a respeito do assunto, com a presença de especialistas reconhecidos. “Algumas personalidades cresceram muito neste período, como Átila Iamarino e outros divulgadores científicos, que ajudam a tornar mais palatável a linguagem médica e da pandemia”, observa Nina.

Próxima etapa: hidroxicloroquina

A equipe da UFBA analisa, agora, um segundo relatório específico sobre a hidroxicloroquina, num momento em que o presidente Jair Bolsonaro utilizou, em ampla escala, a sua própria contaminação para fazer propaganda do medicamento. “Ao falar de fake news, é preciso entender que estamos em um momento de crise epistêmica, ou seja, a crise dos centros da sociedade que são capazes de produzir verdades, conhecimentos aceitos por todos. No momento em que temos uma grande crise entre esses atores, que não conseguem entrar num acordo sobre quem é capaz de decidir a verdade, fica muito difícil conseguirmos construir acordos democráticos”, analisa a pesquisadora, citando o exemplo dos dados oficiais de desmatamento da Amazônica, minimizados pelo próprio governo federal.

“O mais grave é que, numa situação de saúde e, especificamente, dessa pandemia, não apenas a gente tem uma dificuldade de construir acordos, mas a gente tem a defesa de discursos que são graves e notadamente falsos, sem nenhum tipo de sustentação científica. Numa situação de pandemia, isso leva a situações concretas como a morte das pessoas”, adverte Nina.

Uma pesquisa recente mostrou que, nos lugares onde Bolsonaro é mais apoiado, o índice de contágios pelo coronavírus é superior. Além disso, a cada vez que o presidente defende publicamente a reabertura da economia ou se reúne em grupo sem proteção contra o vírus, o número de casos de Covid-19 volta a subir nessas cidades.

Combate às fake news: uma necessidade de difícil aplicação

Nina Santos avalia que o combate às fake news deve vir de várias frentes – institucional, pelos governos e a justiça, mas também pelas próprias plataformas digitais. Entretanto, ela é receosa quanto à possibilidade de “privatização” do controle do que é falso ou verdadeiro na internet.

"As plataformas precisam tomar medidas, mas baseadas numa discussão e em guias do que deve ser considerado falso na rede, num acordo social mais amplo, porque senão a gente perde completamente o controle de como o debate público está sendo construído, do que pode ser incluído ou não”, pontua a professora.

Recentemente, a tese de doutorado de Nina Santos foi premiada como uma das melhores do ano de 2019 da universidade Sorbonne, uma das mais respeitadas da França.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.