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José A. Moisés: Bolsonaro não “entrou" em campanha para 2022 – ele nunca saiu dela

Áudio 06:59
Cientista político José Álvaro Moisés, da USP: "As pessoas precisam comer e para quem está com fome ou sem emprego, a necessidade se torna mais importante do que a avaliação do que faz ou diz o governo."
Cientista político José Álvaro Moisés, da USP: "As pessoas precisam comer e para quem está com fome ou sem emprego, a necessidade se torna mais importante do que a avaliação do que faz ou diz o governo." © IEA/ USP
Por: Lúcia Müzell
12 min

Com pesquisas de opinião apontando aumento de sua popularidade apesar da gestão da pandemia de coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro intensificou as viagens pelo país e dá atenção especial ao Nordeste, única região onde perdeu as eleições de 2018. A repercussão positiva da ajuda emergencial de R$ 600 para a população mais vulnerável dá um ar de início de corrida pela reeleição em 2022. No entanto, para o cientista político José Álvaro Moisés, na realidade, o presidente jamais saiu de campanha desde que foi eleito, há dois anos.

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"Não só já começou como, desde o primeiro dia da sua administração, ele está em campanha. Ele não saiu da campanha de 2018 e isso estabeleceu as prioridades de suas atividades”, frisa o professor da USP (Universidade de São Paulo), coordenador de um grupo de trabalho sobre a qualidade da democracia no Brasil, do Instituto de Estudos Avançados.

As últimas pesquisas de opinião indicam a recuperação da popularidade a índices comparáveis aos de antes da pandemia e até mesmo um recorde de aceitação (37%) desde o início do mandato. Ao mesmo tempo, Bolsonaro mantém uma forte taxa de rejeição, que chega a 50%. A reeleição não está garantida, mas parece bem encaminhada.

"No sistema político brasileiro, de presidencialismo de coalizão, um apoio estável de cerca de 30% dos eleitores costuma ter chances de reeleição. Se ele conseguir isso, há uma grande chance de que ele vá para o segundo turno do processo eleitoral”, observa Moisés.

Entre a fome e a opinião, eleitores mudaram de lado

O especialista ressalta que três fatores levaram à alta da popularidade do presidente, apesar da gestão errática da pandemia de coronavírus. Primeiro, o auxílio emergencial, embora o sucesso da medida se deva mais ao Congresso do que ao Planalto. Bolsonaro propunha R$ 200, os parlamentares negociaram a elevação para R$ 500 e o presidente, numa jogada política de mestre, bateu o martelo num valor ainda maior, de R$ 600.

"As pessoas precisam comer e para quem está com fome ou sem emprego, a necessidade se torna mais importante do que a avaliação do que faz ou diz o governo. Não é que as pessoas não saibam que o governo foi irresponsável no tratamento da pandemia; elas sabem disso. Mas a necessidade se impõe”, observa o cientista político. "Até pessoas que eram críticas ao governo, eleitoras de Lula e do PT, passaram a apoiá-lo.”

O segundo ponto, continua Moisés, foi a alta votação obtida por Bolsonaro ao se eleger, que não pode ser esquecida. “Foram mais de 55 milhões de votos, mais de um terço de todo o eleitorado brasileiro. Ou seja, ele perdeu apoio por alguns meses, mas conseguiu recuperá-lo.”

Por fim, Moisés afirma que a cultura política brasileira, de fraca contestação do poder, explica os “panos quentes” sobre a administração problemática da crise por Bolsonaro. “Os brasileiros não são conscientes de que eles podem cobrar o governo pelos seus malfeitos, por abusos de poder, por atos autoritários ou corrupção”, constata o coordenador de pesquisas.

Chave para barrar a vitória: unir oposição

O cenário é favorável, mas ainda é cedo para apostar que o líder de extrema direita está com o caminho fácil para a reeleição. O cientista político indica que a maior incerteza vem da oposição: os diferentes partidos e personalidades opositoras conseguirão superar suas diferenças em nome de uma candidatura forte e de união contra Bolsonaro em 2022?

“Elas precisam entender que é um momento extremamente importante para o país. A reeleição seria muito ruim para a democracia brasileira, no meu ponto de vista. Desde o início do mandato, ele já fez várias ameaças e colocou em risco aspectos muito importantes da democracia, ao confrontar com radicalismo o Congresso e o STF”, observa Moisés.

O especialista ainda minimiza a influência, no Brasil, de uma eventual derrota do presidente Donald Trump nas eleições nos Estados Unidos, em novembro. José Álvaro Moisés avalia que, por mais que a aliança com o norte-americano seja celebrada por Brasília, não resultou em avanços concretos para os brasileiros. Sob esta perspectiva, ele considera que as questões internas terão um peso muito maior no voto, em especial a situação econômica.

"Mesmo que consiga estender o auxilio emergencial, ele precisa promover a retomada para criar empregos e  melhorar a renda, além de enfrentar questões de políticas públicas extremamente importantes como segurança, saúde e educação. O país precisa crescer, ter recursos e investimentos – e não é isso que está acontecendo”, lembra o especialista da USP.

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