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"É como se houvesse vários museus do Louvre sendo destruídos", diz professor sobre incêndios na Amazônia

Áudio 06:55
Marcos Colón, professor da Universidade Estadual da Flórida e criador da revista Amazônia Latitude, fala em política genocida na Amazônia.
Marcos Colón, professor da Universidade Estadual da Flórida e criador da revista Amazônia Latitude, fala em política genocida na Amazônia. © Arquivo pessoal
Por: Paloma Varón
11 min

Marcos Colón, professor da Universidade Estadual da Flórida, realizador do filme Beyond Fordlândia e criador da revista Amazônia Latitude, alerta sobre as consequências dos incêndios e da interiorização da Covid-19 na Amazônia.

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A Amazônia está queimando. De novo. Apesar da grande mobilização internacional no ano passado, a maior floresta tropical do planeta continua batendo recordes de queimadas em 2020. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), 10.136 incêndios foram declarados nos dez primeiros dias de agosto deste ano, contra 8.669 em 2019.

“Eu acho que a Amazônia ficou ainda mais em evidência durante a pandemia, em que não somente as agruras humanas estão sendo evidenciadas, mas também as agruras ambientais foram expostas”, diz o professor e diretor de Beyond Fordlândia, que trata da exploração da região durante o século XX, sobretudo pelo agronegócio.

"Eu costumo dizer que existem duas Amazônias: a bucólica, construída, ou, nas palavras da professora Neide Gondim, 'a invenção da Amazônia', vista pela ótica europeia. E existe a Amazônia que está vivenciando um processo genocida, com grilagens, um governo homicida, um ministro do Meio Ambiente que é contra o meio ambiente", analisa Colón. "O fogo deixa em evidência várias fissuras dessa Amazônia", completa.

Interiorização da Covid-19

"Chegamos a 575 óbitos por Covid-19 nas terras indígenas e mais de 18.000 casos confirmados. Há um descaso das autoridades, o próprio presidente se negou a cumprir as decisões que davam aos povos indígenas o atendimento necessário como simplesmente ter água potável", denuncia.

Para ele, isso só agrava os problemas que a região já enfrenta, como a monocultura da soja.

“Eu costumo dizer que a soja na Amazônia hoje é como jogar futebol numa casa de vidro. A gente está vivendo hoje sob os escombros e estilhaços de uma concepção colonialista da Amazônia que não se importa com as vidas que estão sendo ceifadas, com a floresta que está sendo desnudada”, descreve, diferenciando as queimadas que servem ao agronegócio daquelas que ele chama de “queimada cultural”, praticada pelos pequenos agricultores.  

"Na realidade, o que está em jogo aí é que a gente não perde apenas uma safra, a gente perde a biodiversidade com imensas possibilidades de matrizes de material genético, de potencialidades de cura, coisas que a gente ainda desconhece. É como se houvesse vários Louvres sendo destruídos pelo fogo", exemplifica.

Marcos Colón mostra-se preocupado com a combinação dos problemas causados pelos incêndios e pela interiorização da Covid-19.

"Os incêndios duram de julho a outubro, em geral, e nós vamos entrar agora em um momento de interiorização da interiorização da Covid-19, que sai dos grandes municípios, que ainda estão tentando se reerguer do colapso, e entra em ascensão nestes municípios, que estão queimando, o que causa uma exponencialidade de problemas. O fogo gera problemas respiratórios nas comunidades afetadas, além da destruição do bioma – não vai ter caça, não vai ter onde cultivar alimentos", explica.

O professor ressalta que as queimadas têm consequências a curto e longo prazos, "que vão muito além daquilo que a gente está vendo a olho nu", e lembra que o fogo chegou também ao Pantanal.

Humanidades e causas amazônicas

Há um ano e meio, Marcos Colón criou a revista digital Amazônia Latitude. O veículo independente é coordenado nos Estados Unidos, onde ele mora, e conta com colaboradores nacionais e internacionais. A publicação cria uma ponte entre a academia e a sociedade, para "traduzir" os dados científicos sobre a Amazônia, explica Colón.

“Eu queria dedicar este diálogo a todos os mártires, homens e mulheres, que de forma direta e indireta, passando por Chico Mendes, irmã Dorothy, os caciques Aritana e Raoni, pagaram com suas vidas o preço para a floresta hoje estar de pé. São homens que lutaram e lutam pela floresta", finaliza.

 

 

 

 

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