Cargo sob medida para Roberto Azevêdo na PepsiCo revela apetite de multinacionais por expertise geopolítica

O diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, alegou "razões familiares" para deixar a direção-geral da OMC um ano antes do previsto.
O diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, alegou "razões familiares" para deixar a direção-geral da OMC um ano antes do previsto. José Cruz/Agência Brasil

O diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, se prepara para assumir a vice-presidência e a direção-geral do grupo americano PepsiCo no início de setembro, quando irá deixar o cargo na instituição multilateral em crise. O brasileiro possui uma expertise geopolítica e uma lista de contatos valorizada atualmente por bancos e multinacionais, principalmente num contexto internacional conturbado.

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A tendência de multinacionais recrutarem políticos, diplomatas e servidores com grande experiência em organismos multilaterais não é nova, mas tem se fortalecido no atual ambiente político e econômico, que associa alta concorrência e uma boa dose de imprevisibilidade.

Além de Azevêdo, esta semana outra nomeação chamou a atenção dos mercados. O banco americano JPMorgan Chase anunciou na terça-feira (18) que o ex-ministro das Finanças britânico, Sajid Javid, que ainda é deputado, ingressará na instituição como assessor para atividades europeias.

O francês Sébastien Bazin, presidente do grupo de hotelaria Accor, número um do setor na Europa, diz com frequência que a chegada do ex-presidente Nicolas Sarkozy ao conselho de administração do grupo, em 2017, abriu as portas para novos negócios em vários países.

No caso de Azevêdo, formado em engenharia e diplomata de carreira, o cargo na PepsiCo foi talhado sob medida para tirar o maior proveito possível de suas competências. A Pepsi anunciou que ele passará a trabalhar na empresa em setembro e explicou, em um comunicado, que criou um novo cargo para Azevêdo, reagrupando as atividades de política pública, assuntos governamentais e de comunicação. De acordo com a empresa, o brasileiro terá por missão "consolidar os esforços de compromisso da PepsiCo com governos, reguladores, organizações internacionais e atores não governamentais".

O catalão Ramon Laguarta, presidente e diretor-geral da PepsiCo, destacou que o brasileiro possui "competências políticas valiosas e conhecimentos técnicos sobre os ambientes sociais, políticos e regulamentares complexos", que têm um impacto na sociedade.

Em maio, Azevêdo disse que deixaria o comando da OMC no fim de agosto, um ano antes do fim de seu mandato, por "razões familiares", sem revelar quais seriam as suas futuras atividades. Ele conheceu o atual presidente e diretor-geral da PepsiCo há alguns anos, num período em que foram vizinhos de bairro em Genebra.

"Estou feliz de me juntar à PepsiCo no momento em que o fortalecimento das relações entre as empresas, os governos e a sociedade se tornou essencial para gerar um crescimento sustentável e inclusivo a longo prazo", declarou o brasileiro.

Sucessão na OMC

Após a saída de Azevêdo da OMC, um dos quatros diretores-adjuntos – um americano, alemão, um nigeriano e um chinês – deve comandar o organismo multilateral até a eleição do sucessor do brasileiro. Mas os 164 países membros da organização, que habitualmente tomam decisões por consenso, não chegaram a um acordo para selecionar o novo diretor. O processo de designação – com oito candidatos na disputa – deve começar em setembro e pode seguir até novembro.

Em pleno marasmo econômico mundial devido à pandemia de Covid-19, o futuro diretor da OMC deverá preparar a conferência ministerial prevista para 2021, estimular as negociações paralisadas e resolver os conflitos entre a organização e os Estados Unidos.

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