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Lula pede desculpas a famílias de vítimas e diz que “Cesare Battisti foi uma frustração”

Cesare Battisti é escoltado pela Polícia Federal em 5 de outubro de 2017, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, após um juiz decretar a sua prisão preventiva.
Cesare Battisti é escoltado pela Polícia Federal em 5 de outubro de 2017, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, após um juiz decretar a sua prisão preventiva. AFP/File
Texto por: RFI
6 min

Pela primeira vez, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva explicou os motivos de sua decisão de conceder o refúgio no Brasil ao ativista italiano Cesare Battisti, em 31 de dezembro de 2010. Em entrevista nesta quinta-feira (20) à TV Democracia, Lula disse que ao saber que o italiano confessou os crimes “sente uma grande frustração” e pede desculpas às famílias das vítimas.

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Gina Marques, correspondente da RFI em Roma

O ex-ativista do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), organização terrorista de extrema esquerda que atuou no período conhecido como os "anos de chumbo" na Itália, cumpre prisão perpétua desde janeiro do ano passado no presídio de Oristano, na ilha da Sardenha. Battisti foi condenado por quatro homicídios cometidos na Itália, no fim da década de 1970.

Em março de 2019, durante um longo interrogatório feito pelo procurador Alberto Nobili na prisão, Battisti admitiu sua responsabilidade em quatro mortes: a do subtenente Antonio Santoro, morto em Udine, em 6 de junho de 1978; a do joalheiro Pierluigi Torregiani e do comerciante Lino Sabbadin,  ambos mortos pelo PAC em 16 de fevereiro de 1979, o primeiro em Milão e o segundo em Mestre; e a do agente Digos Andrea Campagna, assassinado em Milão em 19 de abril de 1978. Battisti, até então, sempre havia se declarado inocente dos crimes.

“Quando ele foi preso e confessou, foi uma frustração. Ele comprometeu um governo que tinha uma relação extraordinária, e eu ainda tenho, com toda a esquerda italiana e europeia. Ele não precisaria ter mentido para quem acreditava nele. A base da verdade na política é você não prejudicar um amigo”, disse Lula.

O ex-presidente ressaltou que quando alguém comete um crime, deve dizer a verdade e o advogado saberá como defendê-lo.

"Não dá para mentir para os amigos. Hoje, acho que, assim como eu, todo mundo da esquerda brasileira que defendeu Cesare Battisti aqui ficou frustrado. Ficou decepcionado. Eu não teria nenhum problema de pedir desculpas à esquerda italiana e às famílias, por ele ter cometido os crimes e ter enganado muita gente no Brasil. Não sei se enganou muita gente na França, mas na verdade muita gente achava que ele era inocente. Nós cometemos esse erro e devemos desculpas. Não tenho dúvida nenhuma. Ele mentiu para as pessoas de bem aqui no Brasil que acreditavam nele."

O ex-presidente afirmou que não conheceu Cesare Battisti pessoalmente.

“Eu nunca estive com o Battisti. Não o conheço pessoalmente. Ele nunca me procurou, talvez porque eu não fosse um revolucionário de esquerda como ele gostaria de ser. Portanto, eu mantive ele aqui porque o meu ministro [Tarso Genro] dizia que ele era inocente e que não tinha provas da culpabilidade.”

O motivo do refúgio de Battisti no Brasil 

Segundo o ex-presidente Lula, em 2009, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, tomou a decisão de conceder o status de refugiado à Cesare Battisti, porque acreditava na sua inocência.

“O Tarso Genro me disse: não dá para mandarmos ele [Battisti] embora, porque ele pode ser detonado na Itália e é inocente. Toda a esquerda brasileira, companheiros e muitos partidos de esquerda e personalidades da esquerda pediam para que Battisti ficasse aqui.”

Lula ressaltou que a sua decisão de conceder o status de refugiado político a Battisti provocou muitas críticas até do ex-presidente italiano Giorgio Napolitano, seu aliado histórico desde 1980. 

No ano passado, Napolitano escreveu uma carta sobre o episódio afirmando que o brasileiro lhe prometeu uma coisa e fez outra, enfatizando “a parte extremista” do governo petista.

"Até o ex-presidente da República italiano Giorgio Napolitano, com quem eu tive longas conversas, e toda a esquerda italiana estavam me pressionando para que o Brasil devolvesse Cesare Battisti. Não foi uma decisão fácil."

Entenda o caso Battisti

Depois de cometer os quatro assassinatos junto com o grupo Pac, Battisti fugiu da Itália na década de 1980 e passou um longo período no México. A sua condenação pelos homicídios ocorreu à revelia na Justiça italiana. Na década de 1990, Battisti se exilou em Paris, protegido por uma legislação do governo socialista do ex-presidente François Mitterrand (1981-1995). Em 2004, o governo francês autorizou a extradição do terrorista italiano ao seu país de origem. No mesmo ano, ele fugiu da França para o Brasil, onde permaneceu até ser detido, em 2007, no Rio de Janeiro.

Em 2009, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, lhe concedeu refúgio político, mas em novembro do mesmo ano o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou o status de refugiado e estabeleceu que a última decisão sobre o caso deveria ser tomada pelo presidente da República.

Em dezembro de 2010, no último dia de mandato como presidente, Lula garantiu a permanência de Battisti no Brasil.

Em 2018, o presidente Michel Temer revogou a condição de refugiado. Em dezembro do mesmo ano, o STF determinou a prisão do italiano. Temer autorizou a extradição para a Itália, mas Battisti fugiu para a Bolívia, onde foi preso em 12 de janeiro de 2019 e extraditado para a Itália no dia seguinte.

Hoje, Battisti, que está com 65 anos, cumpre a pena de prisão perpétua em isolamento no cárcere de Oristano.

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