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Porta-voz do movimento de Greta Thunberg no Brasil, que já captou quase R$ 1 milhão para Amazônia, revela sonhos e ameaças

Áudio 07:02
Valentina Ruas, 17 anos, porta-voz da Fridays for Future Brasil.
Valentina Ruas, 17 anos, porta-voz da Fridays for Future Brasil. © Arquivo pessoal

Aos 17 anos, Valentina Ruas termina o ensino médio em Brasília e sonha em cursar faculdade de relações internacionais, de olho no futuro do Brasil. O desejo já começa a se tornar realidade: Valentina é hoje uma das porta-vozes do Fridays for Future Brasil, a filial tupiniquim do movimento criado pela jovem sueca Greta Thunberg, que, há um ano, chacoalhou o mundo e deixou muito marmanjo do primeiro escalão irritado. Ela conta à RFI como é fazer parte de uma geração que já nasce ameaçada pelas mudanças climáticas, e busca um protagonismo esperançoso e sem medo de ameaças. 

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Para ver a entrevista na íntegra, clique no vídeo abaixo

“A campanha SOS Amazônia [que já arrecadou quase R$ 1 milhão] começou quando o prefeito de Manaus postou um vídeo fazendo um apelo à Greta [Thunberg], pedindo que ela ajudasse a cidade”, conta Valentina Ruas, porta-voz da Fridays for Future Brasil. “Entramos em contato com ele e oferecemos o contato dela, mas dissemos que precisávamos saber exatamente como ela e também nós poderíamos ajudar”, diz.

A estudante conta que os jovens do movimento fizeram uma reunião com a prefeitura de Manaus, onde entraram em contato com o estado catastrófico da pandemia do coronavírus na capital. “Nossa primeira ação foi juntar vários ativistas ao redor do mundo para fazer um vídeo de apelo a líderes mundiais para ajudar Manaus, principalmente países que já haviam passado pela fase mais crítica da Covid”, relata Ruas. “Esta ação teve uma repercussão muito grande, e foi por isso que decidimos lançar uma campanha de financiamento coletivo”, explica.

O dinheiro arrecadado “já está sendo aplicado à medida que as doações acontecem”. “Não temos uma data para o término da campanha, continuaremos arrecadando para ajudar as pessoas. A Fundação Amazônia Sustentável (FAS), que está nos ajudando com isso, já está comprando os recursos e entregando nas comunidades, mas estamos também já implantando a telemedicina, e, com isso, painéis solares, então é uma coisa mais duradoura. Não será apenas a doações de cestas básicas e equipamentos médicos, mas alguma coisa que ficará até depois desta campanha [de arrecadação] acabar", detalha a jovem ativista.

 

“A Fridays for Future é um movimento horizontal. A gente não tem alguém a quem responder, é claro que temos que estar dentro de nossas pautas e demandas, mas não existe uma hierarquia. Qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode começar a protestar e fundar uma greve pelo clima onde está”, lembra Valentina. "Jovens que quiserem fazer parte do movimento podem entrar em contato com qualquer ativista do Fridays ou diretamente nos contatar pelas redes sociais", conta.

Sobre o acordo entre Mercosul e União Europeia, a porta-voz do movimento diz que considera “um grande retrocesso na política socioambiental”. “Poderia trazer benefícios se olharmos do ponto de vista econômico, mas aí caímos naquela mentalidade lucros acima de vidas. Se a gente for analisar toda a outra parte de desmatamento, abuso de direitos humanos dos povos originários das florestas e de todas as consequências negativas que isso traria, não era nem para esse acordo estar em jogo. Por isso, tranquilizou muito a Merkel ter falado que tem muitas dúvidas sobre a ratificação deste acordo”, afirma.

Sobre a possibilidade de, como Greta Thunberg, sofrer ataques pesados devido ao ativismo ecológico, Valentina Ruas diz que se previne.

“A gente sabe que o Brasil é o quarto país que mais mata ativistas ambientais no mundo, isso já demonstra a hostilidade contra nós”, conta ela. “Tenho receio de sofrer ataques, mas estamos sempre nos prevenindo. Sofremos muitas ofensas digitais, é uma coisa muito corriqueira e precisamos separar o que pode ser mais perigoso do resto. Uma das ativistas já recebeu até um e-mail falando que se não parássemos iríamos todos morrer, coisas do tipo. São coisas que a gente tenta não levar muito a sério, porque senão eles estarão conseguindo exatamente o que eles querem”, avalia a jovem.

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