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"Faço o trabalho que o governo deveria fazer": fundadora da Casa Nem luta por abrigo de LGBTIs no Rio após despejo

Áudio 07:04
Indianara Siqueira, fundadora da Casa Nem e ativista dos direitos LGBTQI
Indianara Siqueira, fundadora da Casa Nem e ativista dos direitos LGBTQI © Divulgação
Por: Márcia Bechara
14 min

Indianara Siqueira milita não só pela sobrevivência das pessoas LGBTI+, mas também pelos oprimidos da sociedade em geral. Sua luta inspirou o documentário "Indianara", lançado no Festival de Cannes em 2019. Ironia do destino, no mesmo dia [25 de agosto] em que o filme estreou na Europa e nos Estados Unidos, os habitantes da Casa Nem, abrigo no centro histórico do Rio de Janeiro voltado para pessoas LGBTIs em situação de  vulnerabilidade, foram despejados. A fundadora e matriarca do abrigo contou à RFI como resiste no meio da expulsão.

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Para ver a entrevista na íntegra clique no vídeo abaixo

Após estreia em Cannes e exibição em 40 festivais internacionais, “Indianara”, filme sobre a ativista ícone da causa transexual no Brasil foi lançado nos Estados Unidos e Reino Unido na semana passada, no mesmo momento em que a Casa Nem, abrigo para pessoas LGBTQIs, no Rio de Janeiro, foi despejada pela polícia, após uma reintegração de posse autorizada pela  justiça.

“Nesse momento estamos com as atividades em suspenso. Temos a possibilidade de dois espaços agora [depois do despejo], um que foi prometido pela Prefeitura [do Rio de Janeiro], para o qual enviamos todo o projeto, e a documentação para a cessão de um espaço definitivo [em Laranjeiras], para que a Casa Nem possa ser assentada”, conta Indianara Siqueira. “Estamos funcionando temporariamente em uma escola, mas é um espaço que tem uma vizinhança muito complicada, que já atacava alunos da escola. Então, imagine a galera LGBT+, que é acolhida e vem da rua”, explica a ativista.

Como a escola está em funcionamento, o trânsito se torna ainda mais difícil no local para o público da Casa Nem. “A diretoria ainda funciona, as pessoas vêm buscar certificado, tudo isso... Óbvio que os corpos LGBT+ no Brasil, especialmente os corpos trans, não são habituados a transitar nesses espaços e as pessoas não estão acostumados a vê-los transitarem nesses locais. Gera tensões, gera briga”, relata Siqueira. “Eram 65 pessoas, mais da metade voltaram para as ruas ou foram para as casas de amigos. As mães e as crianças foram para outros espaços, porque a reintegração de posse poderia ter sido violenta em Copacabana”, diz.

Indianara conta que o despejo, que contou com a intermediação de Erick Witzel, filho trans do governador do Rio e assessor de empregabilidade da Coordenadoria Especial de Diversidade Sexual (Ceds), aconteceu de maneira não-violenta, apesar da apreensão. "Ia ser muito violento, havia toda a tropa de choque da Polícia Militar, bombeiros, Defesa Civil, o Conselho Tutelar, mas a PM veio com bombas, gás e armamento pesado para desocupar o local”, relata.

"Ocupamos esse prédio porque estava abandonado há mais de 18 anos. Nesse prédio encontramos um acervo de obras de arte, isso foi noticiado pela imprensa brasileira. Chamamos a Polícia Federal, o Museu Nacional, entregamos todas as obras ao Iphan e ao museu. O local estava em total abandono, com diversos animais mortos, pombos, ratos, água parada, era um foco de doença para a própria população. E muita sujeira, tiramos oito caçambas de lixo deste prédio, demos uma reformada básica, para que ele se tornasse habitável, pois havia janelas que caiam em cima de pedestres”, lembra Indianara Siqueira.

“Depois disso, a administradora do espólio do herdeiro do prédio entrou na justiça para retoma-lo. Se antes deixavam abandonado, com obras de arte e tudo, bastou o prédio ser ocupado para requererem o imóvel. Apesar de todo o aparato de polícia para o despejo, resistimos e, como faço um trabalho de ativista junto ao poder público, órgãos como a Defensoria Pública vieram nos proteger, porque eles sabem que realizou um trabalho social que o governo não dá conta. Na verdade, eu faço um trabalho que o governo deveria fazer”, diz.

“Estes mesmos órgãos estão ajudando a cobrar pelo acordo feito na frente das câmeras de televisão do país. Enquanto não tiver nada definitivo e assinado temo pelo futuro da Casa Nem. Nesses governos de extrema direita ou religiosos, é sempre difícil a negociação para a diversidade, para o pessoal LGBTIA+, para determinadas populações”, afirma.

“A  Casa Nem sobrevive hoje através de uma rede doações. São os apoiadores da Casa, que chamamos de Colabores. A Casa Nem é muito revolucionária, um divisor de águas dentro do próprio movimento LGBTIA+, obrigando este movimento a ir mais para a esquerda. Somos também anticapitalistas, prezamos a liberdade das pessoas, um outro mundo possível. Não queremos mais funcionários, queremos que as pessoas sejam cada vez mais livres, que as pessoas trabalhem menos, que aproveitem mais a vida, tem que aproveitar a pandemia para mudar a ótica do mundo, não podemos voltar ao que era antes. É uma tribo, é a chamada Utopia, que chegou”, afirma Indianara.

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