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Pandemia trouxe evolução necessária à psicanálise, diz Betty Milan ao lançar livro na França

Áudio 06:59
A escritora e psícologa Betty Milan
A escritora e psícologa Betty Milan © A. Brandão/ RFI
Por: Adriana Brandão
15 min

Betty Milan é psicanalista e escritora, com vários romances e ensaios publicados no Brasil, mas também na França, Espanha, Portugal, Argentina, China e Estados Unidos. Ela vive entre São Paulo e Paris e falou à RFI sobre sua última obra traduzida para o francês “De vous à moi”. O livro publicado pela Érès, com tradução de Danielle Birck, é a versão francesa de “Quem ama escuta” (Record, 2011), que reúne as colunas escritas por Betty Milan no início dos anos 2000, no site da Veja, em resposta às cartas enviadas pelos leitores.

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Betty Milan manteve o consultório sentimental na mídia brasileira, primeiro na Folha de São Paulo e depois na Veja, durante sete anos. Formada em psicanálise com o francês Jacques Lacan, ela transpôs o método analítico para a imprensa e tentou ajudar os leitores a buscar um caminho para superar seus problemas.

A escritora brasileira, autora do romance o “Papagaio e o Doutor”, adaptado agora para o cinema pelo diretor americano Richard Ledes, lamenta que esse tipo de correio dos leitores, que é extremamente útil para o aprendizado sentimental, tenha desaparecido dos jornais brasileiros, principalmente agora neste momento em que o “idéario evangelista arcaico”, ganha o Brasil.

“De vous à moi”, que visa o grande público, é publicado na França pela editora Érès, especializada em Ciências Humanas, em geral voltada para profissionais e acadêmicos. Ele chega às livrarivas francesas em um momento em que a centenária psicanálise é confrontada a um grande desafio. Diante da pandemia de Covid-19, vários psicanalistas aceitaram fazer sessões à distância, pelo telefone. “Uma evolução necessária”, afirma Betty Milan.

RFI: Você respondia ao correio dos leitores como escritora ou como analista?

Betty Milan: Respondia como escritora que tem uma formação analítica e não como analista porque não era de curar que se tratava e tão pouco de uma orientação moral ou conselho. O que eu procurava fazer era dar umas dicas para o consulente se debruçar sobre a sua história e encontrar ou buscar o seu caminho.

RFI - O que guiou suas respostas? Como você as construiu para que outros leitores pudessem se identificar com demandas pessoais e particulares?

BM: Acho que o interessante do meu consultório sentimental está nisso, na maneira como trabalhei. Eu transpus o método analítico do Lacan para a imprensa. Procedendo da seguinte maneira: eu analisava os textos com o maior rigor, levando em conta as repetições, os lapsos, a ênfase, os deslizes, como a gente faz no consultório. A partir disso, eu procurava remeter a pessoa ao teatro e à literatura, transformando o caso singular num caso universal. Por exemplo, a questão do ciúme pode ser tratada através do Othello, a do amor através da Julieta, etc.”

RFI - Alguns casos, são mais complexos do que outros, principalmente devido à época em que vivemos: por exemplo, a mulher que só sente prazer quando apanha. Uma questão delicada em um momento de luta contra a violência doméstica. Como você abordou esses casos?

BM - No caso dessa mulher que era masoquista e cujo o marido se deprimiu porque não queria bater nela, eu obviamente não podia contradizer o desejo dela. O que eu fiz foi mostrar o quão pobre era a sexualidade dela, na medida em que ela só podia ter prazer em uma única situação. Eu fiz uma comparação entre a sexualidade humana que é rica, variada, que se reinventa continuamente e é a expressão da liberdade, e  a sexualidade animal, que é sempre repetitiva porque a meta é a reprodução.”

RFI - O correio sentimental é uma tradição da mídia ocidental. No Brasil, grandes nomes da literatura brasileira, como Nelson Rodrigues e Clarice Lispector, respondiam às cartas dos leitores (na época principalmente leitoras) em meados do século 20. Mas eles assinavam as colunas com pseudônimos. O que mudou de lá para cá?

BM - Muita coisa mudou.  Nelson Rodrigues era dramaturgo e respondia aos consulentes como se fosse uma cartomante, cujo nome era Mirna. Achei no consultório dele algumas pérolas como por exemplo “num casamento em que falta amor falta tudo”. Só que, além de moralista, ele era machista. Clarice Lispector escrevia para o jornal e eu nunca li um livro dela que reunisse os textos do correio sentimental. Rubrica que deveria voltar para o jornal e é extremamente útil dependendo da maneira como ela for feita.  

RFI - Por que parou com o correio sentimental?

BM - Quando a direção da Veja mudou, a rubrica foi suprimida. Quem me abriu o espaço foi o Mario Sabino, que dirige o Antagonista, um site estritamente político. Essa experiência da Veja foi genial, mas por enquanto eu não tenho espaço para fazer o consultório sentimental. A liberdade com a qual eu fiz o meu consultório talvez não seja possível no Brasil de hoje, mas espero que isso aconteça de novo, comigo e com outras pessoas, porque é uma rubrica importantíssima. Fazemos uma educação sentimental nesse momento em que está em baixa, infelizmente. 

RFI - O seu livro, que traspõe ou valoriza o método analítico a uma outra situação que é a cura e o divã, chega às livrarias em um momento em que a centenária psicanálise é confrontada a um grande desafio. Diante da pandemia de Covid, vários psicanalistas aceitaram fazer sessões à distância, pelo telefone. Isso é uma transgressão? Uma evolução necessária da prática tradicional?

BM - É uma evolução necessária, eu mesma estou fazendo sessões pelo whatsapp e descobrindo que é possível fazer sessões extremamente eficazes. Funciona muito bem porque o que importa é a escuta. Basta saber escutar de modo que o outro possa se escutar e se reorientar através disso.”

RFI - Você é formada em medicina e fez especialização em psicanálise com Jacques Lacan, que aprofundou a teoria psicanálitica de Freud. Dessa sua história, você escreveu o livro de ficção “O Papagaio e o Doutor” (1991), que foi adaptado agora para o cinema pelo americano Richard Ledes. Quando ele será lançado?

BM - A adaptação foi uma surpressa extraordinária. Escrevi "O Papagaio" no final dos anos oitenta em português e a primeira edição do livro saiu pela Siciliano. Depois ele teve mais duas edições pela Record e saiu também na França e na Argentina. Há dois anos eu fui fazer uma série de conferências nos Estados Unidos e uma peça minha, chamada Adeus Doutor, foi lida na New York School of Arts. Richard Ledes gostou do trabalho e quis adaptar a peça e o romance para o cinema. Propôs que eu escrevesse o roteiro, mas eu não quis. Foi sorte porque o roteiro escrito por ele é excelente e o filme também. Trata-se de um huis clos com dois atores principais, o David Patrick Kelly, ator do David Lynch, no papel de Lacan, e a maravilhosa Ismenia Mendes, no papel de Seriema. Assisti em vimeo e fiquei muito emocionada. O filme deve ser lançado no próximo ano e eu pretendo estar na avant-première.

RFI - A França e a mídia francesa vêem com uma certa apreensão o que acontece atualmente no Brasil, que, como você disse em uma entrevista recente aqui, atravessa um período ruim. Você acredita mesmo que a cultura popular vai salvar o Brasil?

BM - Eu acredito que a cultura popular, que é profundamente enraizada, vai se salvar. Mas salvar o Brasil não porque nesse momento há uma inflação do ideário evangelista, um ideário arcaico, contrário às mulheres, contrário ao aborto, que se disseminou com a ida dos missionários americanos para o país. Hoje há mais de 20% dos cristãos brasileiros que são evangelistas e eles são extremamente ativos. O ideário dos evangelistas é o mais contrário ao meu. Tendo em vista o meu próximo romance, estou interessada na história política recente do Brasil e ela é aterradora, profundamente contrária à liberdade. Li recentemente que um parlamentar evangelista chegou a propor uma bolsa para ajudar as mulheres que foram estupradas e engravidaram a não abortar, ou seja, uma bolsa estupro. Não existe nada mais retrógrado do que isto.

RFI - Está pessimista?

BM - Eu não estou otimista, por enquanto. É preciso resitir. Quem puder resistir, deve resistir.

 

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