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Vacinas: posição de Bolsonaro ameaça imunização de brasileiros contra a Covid-19

Áudio 06:58
“A realidade é que acho que nós perdemos essa batalha [do coronavírus] no Brasil", diz a médica especialista em saúde pública Ligia Bahía, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“A realidade é que acho que nós perdemos essa batalha [do coronavírus] no Brasil", diz a médica especialista em saúde pública Ligia Bahía, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). © Divulgação/ Abrasco
Por: Lúcia Müzell
11 min

A vacina contra a Covid-19 ainda nem chegou no mercado e o governo brasileiro já afirma que “ninguém é obrigado a se vacinar”. Os comentários, divulgados também pela secretaria de Comunicação do Planalto e por um dos filhos do presidente, desviam o foco da pandemia para uma nova polêmica ideológica. 

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Segundo a médica especialista em saúde pública Ligia Bahia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o posicionamento vai abalar a imunização dos brasileiros, quando a vacina estiver disponível. Para ser eficaz, será necessária uma vasta campanha de vacinação e uma alta cobertura vacinal no país – idealmente, de 95% da população.

“Corremos um risco sério porque, se temos um presidente da República que diz que tanto faz vacinar ou não, certamente vai diminuir a procura pela vacina”, afirma a pesquisadora. “O SUS já está subfinanciado. Já será difícil organizar uma campanha potente de vacinação porque precisa de recursos financeiros, humanos e de apoio social, inclusive das igrejas. Se tivermos igrejas neopentecostais contra a vacinação, será um problema. Não há cura divina”, indica a professora.

Polêmica “superada no século passado”

Bahia relembra que foi um longo processo para tornar a vacinação obrigatória no Brasil, em 1910. Desde então, o país construiu uma larga tradição no tema, consolidada nos anos 1970.

A sanitarista lembra que a população brasileira é amplamente favorável à imunização coletiva e, especificamente, à vacina contra a Covid-19, em um momento em que o país amarga uma crise econômica histórica. Portanto, para Bahia, trata-se de “falsa polêmica”, já que o tema “foi superado no início do século passado”. 

“É muito estranho que, no momento em que o Brasil é o segundo país com o maior número de casos, tem a segunda maior letalidade e um número de óbitos alto e macabramente estável, o presidente do país venha afirmar isso”, critica a especialista da UFRJ, que espera que prefeitos e governadores se contraponham à narrativa do governo e incentivem a futura vacinação. 

“A realidade é que acho que nós perdemos essa batalha [do coronavírus] no Brasil. É claro que é muito cansativo ficar isolado, mas não houve apoio para que o isolamento fosse de fato efetivado”, constata. “O grupo do governo traz a mensagem de que as pessoas vão morrer mesmo, que quem morre é velho ou já é muito gordo. Um senso comum muito macabro, porque não corresponde à realidade, mas colou.”

Uso político da vacinação

Bahia faz questão de diferenciar o movimento internacional que inclui médicos, biólogos, cientistas e, sobretudo, ecologistas que questionam as vacinas do grupo que chamou de adeptos de uma “guerra ideológica”. A especialista em saúde pública avalia que a posição de Bolsonaro reflete a recusa da ciência pelo presidente e se inspira, mais uma vez, no norte-americano Donald Trump. Para ela, trata-se de um movimento mundial de “superpolitização estratégica da proteção da saúde”.

“O movimento antivacinas é legítimo e tem uma filosofia, um argumento, de que não se deve intervir na natureza. Esse pessoal não é terraplanista e o diálogo com eles têm que ser estabelecido”, argumenta a professora. “A ideologia terraplanista é um falso movimento antivacina que, na realidade, é anticiência”, diz a especialista.  

 

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