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Documentário sobre prisão de Caetano Veloso durante ditadura estreia no Festival de Veneza

Áudio 07:08
Caetano Veloso no documetário Narciso em férias.
Caetano Veloso no documetário Narciso em férias. © Captura de tela
Por: Gina Marques
17 min

O filme Narciso em Férias teve sua estreia internacional  nesta segunda-feira (7) no 77° Festival de Veneza na Itália, fora da competição oficial. Conta o período que Caetano passou na prisão em 1968 durante a ditadura militar, quando ele e Gilberto Gil foram retirados de suas casas em São Paulo por agentes a paisana, duas semanas depois de decretado o Ato Institucional número 5, e foram levados para um quartel no Rio de Janeiro.

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Produzido por Paula Lavigne e dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil. O longa é baseado no homônimo capítulo Narciso em Férias, do livro  Verdade Tropical que Caetano Veloso escreveu na década de 1990.

Caetano, Paula e os diretores conversaram exclusivamente com a RFI por videoconferência. Eles estão no Rio de Janeiro e não puderam viajar à Itália por causa da pandemia da Covid-19.  

Choro durante gravação

Caetano lembra que chegou a chorar em alguns momentos da gravação do filme. “Foi quando eu me lembrei de um sargento que me ajudou a ter contato direto com Dedé que era minha mulher. Depois ele foi punido porque os superiores descobriram e eu soube. Não gosto nem de falar desta lembrança. Eu já tinha escrito o texto do Verdade Tropical desde os anos 90, meu livro,  mas em alguns momentos eu tinha dificuldade para responder as perguntas. Eu sentia a angústia. Algum momento eu chorei. A gente teve que parar a gravação. Mas é preciso ter coragem de enfrentar o tema.” disse.

Caetano afirmou que não foi torturado fisicamente durante os 54 dias que permaneceu encarcerado. “Nós não sofremos tortura, mas nesta prisão onde havia outras pessoas. Em diversas noites nós ouvimos gritos lancinantes de tortura. Pessoas naquele mesmo lugar onde estávamos estavam sendo torturadas, apanhavam. Então gritavam 'Traz a maca, traz a maca' . Não sabíamos se a pessoa havia morrido ou se estava morrendo. Tudo acontecia à noite, no escuro, em outro lugar do quartel, mas perto de nós. Eu ouvia e ficava angustiado. Até hoje eles torturam criminosos comuns, talvez fossem criminosos comuns. Mas talvez fossem presos políticos. A gente ouvia.” recordou.

Ele contou que ainda se sente atormentado pelo que sofreu durante a detenção e também com a atual situação política no Brasil: “Sempre algo me atormenta disso tudo. Nós temos ouvido ultimamente no Brasil, por causa de um crescimento e da implantação de um governo de direita, um governo reacionário, elogios ao período da ditadura militar por parte das autoridades, do presidente da República e das pessoas que o apoiam. Até passeatas na rua pedindo a volta do Ato Institucional número 5 que provocou a nossa prisão. Não se pode deixar de sentir o peso destas coisas. A gente sente para resto da vida. Ainda mais diante de uma situação tão estranha como esta de evocar como uma coisa positiva o período militar”.

O cantor e compositor descartou que com o governo de Jair Bolsonaro possa haver o retorno a uma ditadura militar como aconteceu de 1964 à 1985 no Brasil, mas ressaltou que há uma série de atos que minam os princípios democráticos. “Há uma certa ameaça a democracia. Por exemplo, tudo aquilo que aconteceu no que era o Ministério da Cultura e passou a ser Secretaria da Cultura, e depois tudo o que aconteceu no Ministério da Saúde, principalmente o que aconteceu no Ministério da Educação. Há um desmonte assim de todo esboço de organização da melhoria da educação no Brasil. São coisas que vão minando a realidade democrática. Além disso, as autoridades  fazem afirmações contra certos princípios e elogiando coisas inaceitáveis como chamar um notório torturador de herói” afirmou.

Paula: "realidade obscura"

Paula Lavigne, esposa de Caetano e produtora do filme, acredita que a atualidade política do Brasil pode despertar um interesse ainda maior pelo filme. “Estamos vivendo uma realidade muito obscura. Eles não assumem que são fascistas, mas são fascistas. Vivemos com essa pressão. Acho que é o momento certo para lançar este filme. É muito bom que os jovens possam ver. Hoje no Brasil há manifestações pedindo a volta da ditadura militar. Não são muitas pessoas, mas elas são barulhentas. Aquelas pessoas não sabem o que é uma ditadura militar. Isso é o que acontece hoje no Brasil. Há também uma perseguição muito forte do governo principalmente contra as pessoas empenhadas com a cultura. Porque eles sabem que nós não vamos nos calar e somos uma ameaça a qualquer tipo de  fascismo.” ela disse. 

Renato Terra, diretor e roteirista do filme, contou que a ideia de fazer o documentário Narciso em Férias foi de Paula Lavigne. “No começo de 2018 Caetano teve contato com relatórios secretos que ele nunca tinha visto sobre ditadura militar, sobre o período que ele esteve preso. Foi o período mais violento da ditadura militar do Brasil. Ele ficou muito sensibilizado ao ler estes documentos 50 anos depois da sua prisão. A sua angústia aumentou com a iminência de Jair Bolsonaro ser eleito presidente do Brasil em 2018. Jair Bolsonaro que apoia diretamente torturadores. A Paula notou que seria o momento adequado para a gente falar da prisão do Caetano porque este assunto voltava na sua mente com bastante frequência” lembrou o diretor.

Formato minimalista

Narciso em Férias foi gravado na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, dentro de uma sala inacabada. “Parece uma caixa quadrada com as paredes de cimento, com o pé direito muito alto. O local começou a ser construído para ser um cinema, mas pararam as obras. Como tudo que é cultura no Brasil está parado. Este governo realmente nos odeia, nos odeia e quer acabar com a gente. A sala não ficou pronta então a gente achou esta locação bem significativa, um lugar amplo.” explicou Paula Lavigne.

O filme foi gravado em um único lugar e conta só com os depoimentos de Caetano Veloso. Segundo os diretores, a escolha do formato minimalista do filme enfatiza as declarações de Caetano Veloso. “É só o Caetano contando a história dele, sem imagens de arquivo, sem outras entrevistas, sem trilha sonora, sem qualquer truque. Porque com este formato minimalista a gente conseguiu que todos os detalhes das expressões do Caetano fossem potencializados. Então cada olhar dele, cada gesto, cada silêncio, cada pausa, a escolha do plano aberto ou fechado da câmera, tudo isso ganha uma relevância para que o espectador consiga vivenciar e ter a experiência de compartilhar as memórias do Caetano da prisão.” disse Renato Terra.

Ricardo Calil acrescentou:“Como João Moreia Salles disse, é uma opção moral e estética.  Justamente para poder oferecer ao espectador essa experiência de imersão nas memórias do Caetano. Acho que é uma opção que é muito cinematográfica também, porque a fala do Caetano, a sua memória prodigiosa, faz com que o espectador imagine e transforme aquelas palavras em imagem. Embora minimalista, o filme é muito cinematográfico.” 

 

A canção na prisão

Caetano contou que compôs apenas uma música na prisão, "Irene". A canção foi em homenagem a sua irmã mais nova que na época era adolescente. No entanto, não lhe permitiram ter um instrumento musical na cela.  

“Quando eu estava preso, fiz apenas uma canção porque eu não tinha direito a ter violão na cela. Gil tinha. Gil tinha violão. Porque Gil completou o curso superior. Aqui no Brasil tem uma lei que diz que quem completa o curso superior tem mais direitos. Na última fase da nossa prisão Gil ficou em um quartel e eu em outro. O major que era o chefe do quartel disse que eu não podia ter violão porque eu não tinha o curso superior completo. É mais um retrato dessas coisas do Brasil que parece cultivar a desigualdade até os mínimos detalhes.”

Anos depois ele compôs a canção Terra que se refere a um momento importante dentro da prisão quando Dedé, sua esposa na época, lhe trouxe uma revista com primeiras fotos do planeta visto do espaço sideral. No filme ele canta essa música e toca violão.

“Música e a canção popular em particular é uma coisa de revigoramento das almas. É justamente o oposto de um Ato Institucional número 5, que retirava o direito de Habeas Corpus, não exigia mandatos para que as forças policiais entrassem nas casas, enfim era uma coisa terrível. A música por princípio é o movimento da alma que é o oposto disso”, concluiu 

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