Meio Ambiente

Acuados entre fogo e agricultura, animais do Pantanal não têm para onde fugir

Áudio 06:09
Onça-pintada descansa na área de Porto Jofre, Mato Grosso. (15/09/2020)
Onça-pintada descansa na área de Porto Jofre, Mato Grosso. (15/09/2020) AFP

Em meio a uma seca sem precedentes, o fogo no Pantanal já consumiu pelo menos 2,3 milhões de hectares do bioma no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A área representa 15% de toda a extensão da maior zona tropical úmida do mundo, conforme o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo).

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As imagens dos animais mortos ou gravemente feridos pelas chamas causam comoção e revolta. Acuada entre o fogo, de um lado, e gigantescas terras destinadas à agricultura, do outro, a fauna típica da região não tem para onde escapar.

"Saindo do Pantanal, para onde poderiam ir? O Cerrado, o bioma do entorno? A maior parte do Cerrado já foi transformado em agricultura”, explica Joari Costa de Arruda, doutor em biodiversidade e biotecnologia e professor da Unimat (Universidade do Estado do Mato Grosso).

"Na realidade, o Pantanal é um refúgio de toda a pressão que temos em volta. Suprimindo esse ambiente com os incêndios, esses animais não têm para onde ir. Não há um local onde eles possam permanecer, voltar, procriar. Se a gente perder mais desse ambiente, são vidas que jamais vamos conseguir ver novamente”, diz.

Carcaça de um jacaré na área próxima à estrada Transpantaneira no Pantanal, região de Pocone, Mato Grosso. 14 de setembro de 2020.
Carcaça de um jacaré na área próxima à estrada Transpantaneira no Pantanal, região de Pocone, Mato Grosso. 14 de setembro de 2020. AP - Andre Penner

Fauna excepcional ameaçada

As onças-pintadas são o cartão-postal do Pantanal, que concentra a maior população da espécie no planeta. Mas também estão ameaçados animais típicos como arara-azul-gigante, lobo-guará, ariranha, tamanduá-bandeira e o tuiuiú, além de dezenas de serpentes, jacarés e macacos, entre tantos outros.

Um guaxinim é resgatado de uma área ardente de brejos por um grupo de biólogos no brejo do Pantanal, estado do Mato Grosso, Brasil, em 26 de agosto de 2020.
Um guaxinim é resgatado de uma área ardente de brejos por um grupo de biólogos no brejo do Pantanal, estado do Mato Grosso, Brasil, em 26 de agosto de 2020. AFP - JOAO PAULO GUIMARAES

"Se o Cerrado também não for preservado, teremos problemas. As nascentes do Pantanal estão todas no Cerrado, como os rios Cuiabá e Taquari.  As chuvas vêm de lá”, frisa Arruda.

O pesquisador lembra que os incêndios ilegais, iniciados em julho para expandir a área plantada e preparar a terra, não são o único problema que o Pantanal enfrenta: 2020 está sendo um ano excepcionalmente trágico para o bioma. No início do ano, a deterioração da qualidade da água dos rios, com o fenômeno chamado de dequada, levou a uma mortalidade em massa de peixes.

Um brigadista tenta apagar um incêndio próximo à estrada Transpantaneira no Pantanal perto de Pocone, estado de Mato Grosso, Brasil, segunda-feira, 14 de setembro de 2020.
Um brigadista tenta apagar um incêndio próximo à estrada Transpantaneira no Pantanal perto de Pocone, estado de Mato Grosso, Brasil, segunda-feira, 14 de setembro de 2020. AP - Andre Penner

Depois, a pandemia de coronavírus resultou no aumento das atividade nos rios, que ficaram sobrecarregados. Agora, a estiagem e a ocorrência de temperaturas extremas propagam os incêndios. Pela primeira vez desde que há registros meteorológicos, Cuiabá teve três dias consecutivos a 42˚C.

"A gente hoje está passando por uma seca histórica, a maior dos últimos 100 anos, conforme os registros. Estamos num período em que, pela legislação, é proibido o uso de fogo, mas não é o que temos visto”, comenta. "É muito tenebroso o futuro que nos espera se a gente não cuidar mais disso."

Joari Costa de Arruda, professor da Unimat e coordenador da ONG Ecopantanal.
Joari Costa de Arruda, professor da Unimat e coordenador da ONG Ecopantanal. © Arquivo Pessoal

Falta de articulação para combater o problema

Denis Rivas, presidente em exercício da Ascema (Associação dos Servidores de Carreira de Especialistas em Meio Ambiente), denuncia que, até agora, o governo federal não adotou um protocolo organizado para salvar a fauna nem combater o fogo.

"Hoje, eles estão tentando correr atrás no combate ao incêndio somente para atender à opinião pública, e de uma maneira muito atrapalhada. Em todo esse período, eles não ouviram os técnicos. Em nenhum momento o ministro sentou para dialogar com eles, que têm 20 ou até 30 anos de experiência”, afirma Rivas. "Isso está tendo impacto direto na falta de capacidade de organização e articulação.”

Um número limitado de brigadistas do Ibama e do ICMBio, além de voluntários, atuam dia e noite para enfrentar as chamas. Eles se expõem a um fenômeno particular da região, chamado fogo subterrâneo, que queima componentes orgânicos altamente inflamáveis depositados sob o solo.

"O fogo subterrâneo queima as raízes das árvores. Em locais que já foram queimados no passado, as árvores não se recuperaram mais”, detalha o especialista da Unimat. "Árvores de 12 ou 15 metros de altura morrem com os incêndios no Pantanal. A vegetação de lá é adaptada para um clima molhado, hidromórfica, e não para o fogo."

Uma arara azul sobrevoa uma área queimada do Pantanal, estrada do Parque Transpantaneira no estado de Mato Grosso, Brasil, em 13 de setembro de 2020.
Uma arara azul sobrevoa uma área queimada do Pantanal, estrada do Parque Transpantaneira no estado de Mato Grosso, Brasil, em 13 de setembro de 2020. AFP - MAURO PIMENTEL

Menos fiscalização em ano de recorde de incêndios

Para Denis, a única estratégia eficaz para evitar que uma tragédia como essa volte a se repetir é a prevenção, graças aos mecanismos de fiscalização ambiental de órgãos como Ibama e ICMBio:

"Em 2019 inteiro, fizeram descaso, fingiram que não estava acontecendo nada, atrasaram contratações, diminuíram orçamento, não fizeram nenhuma reposição de servidores. Essa sinalização é desastrosa”, pontua o servidor. "O que estamos vendo hoje, esse descontrole, tem muito mais a ver com uma falta de sinalização do governo federal de que iria de fato combater os crimes ambientais, o desmatamento e as queimadas."

O resultado é que, em 2020, houve uma queda de 22% das multas ambientais relativas ao tema no Mato Grosso do Sul e 52% no Mato Grosso, em comparação com o ano passado. Isso ocorre ao mesmo tempo em que o Pantanal registra recordes de queimadas: dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que os incêndios cresceram 210% em 2020.

Um carcará no pântano do Pantanal, estrada do parque Transpantaneira no estado de Mato Grosso, Brasil, em 13 de setembro de 2020.
Um carcará no pântano do Pantanal, estrada do parque Transpantaneira no estado de Mato Grosso, Brasil, em 13 de setembro de 2020. AFP - MAURO PIMENTEL

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