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Plataforma digital lança cartilha para ajudar a enfrentar “o maior luto coletivo do Brasil”

Aj jornalista Sandra Soares, cocriadora do projeto “Vamos Falar Sobre o Luto?”
Aj jornalista Sandra Soares, cocriadora do projeto “Vamos Falar Sobre o Luto?” © Arquivo Pessoal
Por: Adriana Brandão
5 min

A plataforma digital “Vamos falar sobre o luto” ganhou ainda mais relevância nesse momento de pandemia. O projeto, realizado de forma voluntária, foi criado em 2015 no Brasil por um grupo de sete amigas, que viveram o luto, e decidiram criar um canal de informação para ajudar quem perdeu pessoas queridas. A jornalista Sandra Soares, radicada na França há três anos, é uma das cofundadoras do projeto.

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A ideia inicial do “Vamos falar sobre o luto” era quebrar o tabu em torno do assunto. “A sociedade costuma, muito rapidamente, virar a chave e dizer ‘vida que segue’. As pessoas têm medo de tocar no assunto, achando que vão colocar o dedo na ferida, fazer a pessoa que está sofrendo lembrar de quem partiu. Isso não existe porque, na verdade, quem foi embora continua com a gente. A gente não esquece”, ressalta Sandra Soares.

As sete fundadoras, que são da área de comunicação, criaram uma plataforma de informação, para “conectar pessoas e tornar o luto menos solitário e desamparado". Antes de colocar o site no ar, realizaram uma sondagem na internet coletando histórias de pessoas que viveram o luto. Receberam “três mil histórias”, muito mais do que o esperado, e a primeira narrativa que publicaram, quando o site foi ao ar em 2015, teve uma recepção surpreendente.

“A primeira história foi acessada por 150 mil pessoas e o site tinha capacidade para 5 mil. Estreamos saturados e o site saiu do ar. Percebemos que havia muita vontade de falar e uma abertura para ouvir também. Acho que esse tabu, no fundo, incomoda as pessoas. A única certeza que a gente tem, é a certeza da morte. É um assunto comum a todo mundo”, acredita a cofundadora.

Falar é “liberta-dor”

A plataforma, que conta com a supervisão de especialistas, não envolve atendimento presencial ou digital. Ela compartilha as narrativas de quem viveu o luto, entrevistas e informações para quem quer buscar ajuda especializada em todo o Brasil. A experiência indica que compartilhar essas histórias, falar da perda de pessoas queridas e das dificuldades de viver sem elas é libertador, segundo a cofundadora do site.

“A gente gosta de usar essa palavra que, dividindo, fica liberta-dor. Falar dá sentido para a experiência e o luto nada mais é do que isso. Você encontrar um sentido, uma narrativa pessoal que te deixe mais confortável com aquela situação. Todas essas frases feitas, como 'fica feliz porque ele não sofreu' ou 'pensa que ele descansou', eu digo que são frases prêt-à-porter que a sociedade tenta nos oferecer. O luto tem uma capacidade imensa de transformar a vida de quem fica porque a gente revaloriza a vida. Quem toma contato com a morte, entende a fragilidade da vida.”

Sandra Soares mora na França há três anos e continua participando do site de maneira voluntária, escrevendo artigos e entrevistando pessoas para alimentar a plataforma. A França e o Brasil têm rituais no momento da morte bastante distintos. No Brasil, os enterros são rápidos e menos roteirizados. “Fizemos uma pesquisa sobre a relação das pessoas com esses os rituais (no Brasil). Existe uma angústia porque as pessoas não sabem o que dizer. Nada acontece (no velório) até que chega aquele momento muito difícil, quando os profissionais levam o caixão até a sepultura. Existe uma queixa que é: ‘eu saí do velório e do enterro pior do que entrei’, quando na verdade essas cerimônias têm potencial para encaminhar um luto mais positivo, para trazer aconchego, união compartilhamento”.

Na França, os enterros podem demorar dias e até semanas, e as cerimônias são preparadas. “A família convida pessoas para falar sobre o morto, você é guiado naquele percurso e eu acho que isso ajuda”, salienta Sandra.

Rituais alternativos

Independentemente do país ou da cultura, todos esses rituais convencionais estão comprometidos pela pandemia de coronavírus. O distanciamento social e outras medidas sanitárias impostas impedem as pessoas de dar adeus a seus entes queridos ou de serem reconfortadas durante as cerimônias. Por isso, a plataforma “Vamos falar sobre o luto” criou nessa “pandemia da tristeza” uma cartilha indicando rituais alternativos que podem ajudar as pessoas “no maior luto coletivo que o Brasil já enfrentou”.

Sandra Soares cita, por exemplo, a opção de realizar orações coletivas ou homenagens pelo whatsapp ou outras plataformas digitais. Mas o mais importante continua sendo o apoio de amigos. “Em qualquer situação, na pandemia ou fora dela, é se fazer presente, é dizer 'eu estou aqui para você', é perguntar para a pessoa como ela quer viver o luto, porque não tem regra. Para quem está sofrendo, é muito importante saber desse amor. Saber que a pessoa que partiu foi amada. E ajudas práticas também, que de novo na pandemia é mais complicado, mas por exemplo se oferecer para fazer supermercado, buscar crianças na escola, entender que aquela pessoa está com a capacidade de viver a vida cotidiana reduzida”, orienta.

 

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