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Livro de brasilianista norueguês destaca papel ambíguo da Noruega na Amazônia

Áudio 07:19
O escritor Torkjell Leira.
O escritor Torkjell Leira. © Fotomontagem RFI/ Arquivo Pessoal
Por: Ana Carolina Peliz
15 min

A Noruega é conhecida por ter ambiciosos planos de redução dos gases do efeito estufa, que incluem investimentos de bilhões de reais na proteção da Amazônia. Mas o país estabeleceu uma relação ambivalente com a floresta: ao mesmo tempo que a protege, investe em indústrias que a destroem. Isso é o que expõe o livro “A luta pela floresta: Como a Noruega ajuda a proteger e a destruir o meio ambiente no Brasil”, do brasilianista norueguês Torkjell Leira.

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Na obra, publicada pela editora Rua do Sabão, Leira explora as relações entre Brasil e Noruega desde o século XIX até os dias atuais. “Embora tenhamos destinado entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões para proteger o meio ambiente e os povos indígenas na última década, investimos cinco a dez vezes mais nas indústrias mais poluentes e prejudiciais ao meio ambiente. Espero que nos próximos anos possamos fazer mais para proteger a Amazônia — e menos para destrui-la”, escreve Leira.

“Sim, é um paradoxo”, afirma. “Eu vejo também as ações do governo brasileiro nesse livro e, claro, em qualquer país você vê esse mesmo paradoxo: ações para proteger o meio ambiente e ações para destruí-lo”, pondera. “Eu olho o governo dos dois países e critico o que há de ruim e apoio o que há de bom”, explica.

Segundo ele, o livro, publicado na Noruega em janeiro, foi feito com o objetivo de alertar a sociedade norueguesa, que já é bastante sensibilizada sobre questões ambientais, para as atividades do país na Amazônia.

Com quase 200 empresas no Brasil e investimentos de R$ 100 bilhões, a Noruega é um dos principais parceiros comerciais brasileiros. Três das quatro maiores empresas norueguesas têm seus principais investimentos estrangeiros no Brasil: a petrolífera Equinor, a empresa química e de pesticidas Yara e a mineradora Norsk Hydro. Isso torna o país o terceiro maior destinatário dos investimentos noruegueses, depois dos Estados Unidos e da União Europeia.

Alumínio e salmão

A narrativa, feita em primeira pessoa, tem como ponto de partida o escândalo ambiental envolvendo a Norsk Hydro, em Barcarena, no Pará, e as repercussões do caso no Brasil e na Noruega. A Hydro Alunorte, que produz alumina, foi comprada da Vale pela mineradora norueguesa em 2010.

Em 2018, a empresa foi denunciada por vazamentos de rejeitos de bauxita (de onde se extrai o alumínio) no meio ambiente, após fortes chuvas em Barcarena. Depois de uma vistoria com a presença do Ministério Público, foi identificada uma tubulação clandestina que saía da refinaria e despejava rejeitos que contaminaram o solo da floresta e rios das localidades próximas.

Também foram encontradas outras tubulações que tinham a mesma finalidade. A empresa foi condenada a funcionar com 50% de sua capacidade e pagar uma multa de R$ 150 milhões por danos ambientais.

Após meses de negativas, os diretores da Hydro reconheceram não somente que os vazamentos tinham ocorrido, como tinham sido feitos de forma deliberada. 

No livro, Leira volta no tempo para explicar como a empresa se instalou na Amazônia brasileira já nos anos 1970, para se tornar o maior investimento da Noruega no exterior nos anos 2000.

Para o autor, as duras reações do governo de Michel Temer contra a Hydro na época do caso foram motivadas por tensões entre Oslo e Brasília devido ao aumento do desmatamento da Amazônia. Ele também acredita que o modo como a crise foi administrada evidenciou um distanciamento da Hydro das comunidades locais e a pouca familiaridade com a legislação, imprensa e política brasileiras.

Outro ponto levantado por Leira no livro, é a importação de soja para a fabricação de ração para alimentar as criações de salmão em cativeiro. A Noruega é o maior produtor de salmão do mundo e 25% da ração para os peixes vêm da soja do Mato Grosso. “Dessa maneira, nós somos um ator nesse jogo de desmatamento no Mato Grosso, na Amazônia e no Cerrado brasileiro”, afirma.

Ditadura e Bolsonaro

Leira também conta no livro como a Noruega se beneficiou de relações com o governo militar para instalar empresas no Brasil, através da história do empresário Erling Loretzen e da fábrica de celulose Aracruz, que contou com financiamentos do BNDES, na década de 1970. “Ele conseguiu o investimento porque era amigo íntimo dos ditadores da época”, diz. A empresa se transformou em um símbolo de desastres ambientais e descaso pelos povos indígenas e sinônimo de investimento predatório.

Essa ideia desenvolvimentista que existiu no período militar e ajudou empresas estrangeiras a se instalar na Amazônia e explorar recursos naturais, deixando apenas o ônus dessas atividades para a população local, poderia estar de volta agora com o governo de Jair Bolsonaro, segundo Leira.

Ele traça um paralelo entre a situação das empresas norueguesas na época com o contexto atual do Brasil, citando a responsável pelas operações da companhia estatal de petróleo Equinor, que tem investimentos no Brasil, Margareth Øvrum. Em entrevista ao jornal norueguês Dagens Næringsliv sobre as queimadas na Amazônia, ela elogiou a política econômica e de proteção da floresta do governo de Bolsonaro.

“Para mim é muito preocupante ver como representantes da maior companhia norueguesa falam tão bem de um governo que faz tão mal para a Amazônia", afirma o autor. "Sabemos que é o contrário, que o governo Bolsonaro está sendo o pior governo brasileiro, talvez desde a volta da democracia, quando se fala em direitos indígenas e meio ambiente”, completa.

Ele também critica a posição da Noruega em relação ao acordo entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA). Para ele, a Noruega poderia ter seguido o exemplo da França e da Irlanda, que se opõem ao acordo devido aos riscos ambientais que poderia acarretar.

Por outro lado, Leira lembra que o país retirou os investimentos de seu Fundo Soberano, o Oljefondet, o maior do mundo, de empresas envolvidas em escândalos de corrupção e desrespeito dos direitos humanos como, a JBS e a Eletrobrás.

Dois lados

Ainda que o livro não poupe críticas a políticos e empresários da Noruega e do Brasil, também mostra as ações positivas desenvolvidas pelos dois países conjuntamente para proteger a Amazônia.

“Minha agenda é promover um desenvolvimento sustentável na Amazônia e quero que o meu governo, as empresas e a sociedade norueguesas façam a sua parte”, diz o autor.

Por ter trabalhado como conselheiro no Rainforest Foundation, Leira foi um espectador privilegiado de momentos históricos para as negociações climáticas. Ele narra, através de histórias interessantes e curiosas, reuniões improvisadas em pequenos auditórios e até mesmo em escadas, que deram origem ao Fundo Amazônia, que durante anos financiou projetos de proteção da floresta.

Do enredo fazem parte o cantor inglês Sting, o cacique Raoni e a ex-primeira-ministra norueguesa Gro Harlem Brundtland. Mas finalmente, segundo ele, foi o esforço de associações, cinco pesquisadores brasileiros e até a participação de um policial indiano que decidiram o futuro do fundo.

“O fator que eu narro no livro, que muitas pessoas não conhecem, é que a iniciativa de tudo isso, não era do governo, de um primeiro-ministro ou de um ministro do Meio Ambiente. Era de algumas organizações governamentais norueguesas, muito influenciadas e inspiradas por organizações ambientais brasileiras”, explica.

Leira insiste em deixar claro a importância do Brasil na preservação da floresta.

“O Brasil foi importante não só para criar o fundo Amazônia, mas nesse jogo mundial. Durante muitos anos foi a estrela em negociações de clima e nas questões de meio ambiente porque conseguiu baixar o desmatamento na Amazônia em quase 80% em menos de uma década. Agora estes números estão voltando a piorar, infelizmente”, afirma. “Quando o Brasil decide que sim, que é importante, que vai fazer, o Brasil consegue. E isso é uma lição muito boa para o mundo,” conclui.

 

 

 

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