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Brasil é um dos países onde a pandemia mais afetou saúde psicológica de meninas e jovens mulheres, diz Ong

Áudio 06:50
Cynthia Betti, diretora executiva da ong Plan International
Cynthia Betti, diretora executiva da ong Plan International © Arquivo Pessoal
Por: Elcio Ramalho
12 min

A Ong Plan Internacional divulga nesta quarta-feira (24), durante a Assembleia da ONU, um estudo sobre o impacto da pandemia da Covid-19 na vida de meninas e jovens mulheres de 14 países. No Brasil, o levantamento mostrou um impacto psicológico importante, pelo aumento da ansiedade, mas também pelo distanciamento do universo escolar que, para muitas delas, representa proteção.

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No total, o estudo ouviu 7 mil garotas entre 15 e 24 anos por meio de um questionário abordando diversos temas para avaliar os efeitos sobre a saúde. Os resultados mostraram que 88% das entrevistadas disseram ter níveis altos ou médios de ansiedade por causa da pandemia, 62% das meninas disseram que estavam tendo dificuldades por não poderem ir à escola ou à universidade e 58% estão sentindo os efeitos negativos de não poder sair de casa normalmente.

“No caso do Brasil e da América Latina, não frequentar a escola e não poder sair de casa com frequência foram os impactos negativos mais apontados pelas entrevistadas”, relata Cynthia Betti, diretora executiva da ONG Plan International Brasil.

Segundo ela, há uma explicação pela preocupação manifestada com o fato de não poder frequentar as salas de aula e conviver com os amigos. “No Brasil, a escola é mais do que o aprendizado, a escola é um espaço seguro, onde a menina pode buscar informação e, às vezes, buscar proteção quando acontece alguma coisa em casa”, explica.

“Infelizmente, sabemos que mais de 70% dos casos de violência contra as meninas e mulheres acontecem dentro da própria casa. Então, a casa não é o lugar mais seguro para muitas delas. Poder ir à escola e frequentar amigos é uma forma delas buscarem ajuda, quando necessário”, acrescenta.

Exclusão digital

Outro dado preocupante evidenciado pela pesquisa foi o que Cynthia chama de “abismo da exclusão digital” que, segundo ela, está diretamente relacionado no país com as classes sociais. “Nas classes D e E, somente 59% têm acesso à internet. Para famílias com apenas 1 salário mínimo, 78% só acessam a internet por meio de um celular. E como uma criança, uma jovem pode estudar por meio do celular? Quando ela tem acesso à internet”, diz. “Além da saúde, o rompimento com os estudos abala a confiança na projeção sobre o futuro. Por isso falamos muito no estudo de vidas interrompidas e impactadas”, afirma.

Cynthia destaca o problema da exclusão digital como um dos mais urgentes do país: “Não é possível que em pleno século 21 a gente sofra tanto, com tantas pessoas excluídas do mundo digital. Principalmente agora que ficou tão evidente a questão da educação à distância e do acesso à informação”.

Neste contexto, a falta de acesso à informação e de métodos contraceptivos agravaram uma situação já bastante difícil. “Estamos encontrando muitas jovens e adolescentes grávidas, com gravidez indesejada. E normalmente elas acabam abandonando os estudos. Com isso, a evasão escolar aumenta. Temos uma preocupação muito forte em olhar para essas meninas e jovens e perceber que devemos fazer algo para que elas retornem à vida delas, à escola, e que possam continuar os estudos”, diz a diretora executiva da Ong.  

Aumento da ansiedade

O Brasil, onde o levantamento ouviu 500 meninas e jovens de várias regiões por meio de um questionário online, se destacou como um dos países onde houve mais impacto da pandemia na saúde psicológica, diante do aumento da ansiedade, relatado por mais de 90% das entrevistadas.  

“A ansiedade tem a ver com o medo da falta de proteção, medo de alguém da família ficar doente, e do que vem por aí. Além de efeitos colaterais como o acesso à renda. Muitas delas perderam empregos ou tinham empregos informais e foram muito impactadas financeiramente. Isso traz uma ansiedade ainda maior”, explicou Cynthia.  

“Quanto mais vulnerável economicamente e socialmente a classe à qual ela pertence, mais ansiosa ela fica e mais medo tem do futuro. O impacto psicológico foi muito maior nesse período (de pandemia)”, destacou.

Além de apontar os efeitos, o documento traz recomendações para governos e autoridades reagirem para combater os impactos negativos da pandemia sobre essa população feminina.

“A primeira recomendação é de que precisamos olhar para elas de modo diferente. Por isso estamos trazendo esses dados para saber como reagir com essas meninas e jovens mulheres. Precisamos trazer essas meninas e mulheres para os espaços onde estão sendo decididas as políticas públicas. Precisamos ouvi-las e integrá-las na criação de soluções”, afirma.

 “Temos que perceber que serviços de acessos a métodos contraceptivos e direitos sexuais e reprodutivos têm que ser garantidos independentemente do momento da pandemia. O acesso à saúde básica tem que ser garantido a essas meninas. Temos, como governo, Estado, ver como garantir esses apoios”, concluiu.

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