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Festa Literária das Periferias se internacionaliza “num esforço de sobrevivência”, diz Julio Ludemir

Áudio 07:02
Julio Ludemir. Escritor, roteirista e produtor cultural.
Julio Ludemir. Escritor, roteirista e produtor cultural. © A. Brandão/ RFI
Por: Adriana Brandão
13 min

Julio Ludemir é cofundador da Flup, Festa Literária das Periferias. O evento, criado no Rio de Janeiro em 2012, deu visibilidade à riqueza da literatura até então marginal desenvolvida nas periferias das grandes cidades brasileiras. Desde então, formou novos leitores e revelou autores, como Ana Paula Lisboa e Geovani Martins. A Flup, que é um dos festivais marcantes da cena literária brasileira atual, ganha este ano uma versão internacional.

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A edição 2020 da Flup será exclusivamente online, por imposição da pandemia, e dividida em dois finais de semana. De 29 de outubro a 1° de novembro, acontece a programação nacional homenageado a antropóloga e intelectual negra Lélia Gonzalez e destacando uma batalha de poesia, ou slam, de autores negros LGBTQIA+. Uma semana depois, de 6 a 8 de novembro, haverá a versão internacional, com uma seleção de painéis com autores espalhados pelo mundo. “A pandemia nos obrigou a olhar para o mundo e a tirar proveito. Este é o ano das lives e os festivais se tornaram produtores de conteúdo audiovisual relevante”, indica Julio Ludemir.

Será uma edição “absolutamente” especial em consonância com o ano de 2020. “Este ano tem sido um ano especial que vai modificar de uma forma definitiva o mundo, entre outras coisas, pelos movimentos que emergiram como o #BlackLivesMatter (Vidas Negras Importam), que, a despeito de toda a violência do Trump, a despeito da Covid, vêm para as ruas e se espalham pelo mundo repercutindo de uma maneira tão extraordinária como foi o maio de 68 aqui na França”, afirma.

Movimento antirracista e Coletes Amarelos

Na França, ele organiza os painéis que irão integrar essa “Flup pelo mundo”. Em Paris, alguns debates acontecem excepcionalmente com a presença do público no Teatro do Oprimido na próxima terça-feira (13), mas só serão disponibilizados na internet durante o evento em novembro. Eles vão reunir Assa Traoré, irmã de um jovem negro morto durante uma detenção policial e militante antirracista francesa, e Priscillia Ludosky, uma das líderes do movimento dos Coletes Amarelos. A escritora Léonora Miano vai dialogar com Maboula Soumahoro “que é uma grande estudiosa desses ciclos migratórios que estão redesenhando demograficamente a França”, indica.

Cartaz Flup em Paris.
Cartaz Flup em Paris. © A. Brandão/ RFI

A Flup pelo Mundo também procurou vozes, principalmente de mulheres negras, no Reino Unido, Portugal e Espanha, para refletir o momento atual. O representante da África do Sul é um homem, mas sua fala é considerada essencial por Julio Ludemir.

“A entrevista que vai dar um norte a toda essa edição é uma entrevista com Achille Mbembe, onde ele faz uma explicação intersecional e inter-regional dos impactos do #BlackLivesMatter, não apenas no ano de 2020 nas eleições dos EUA, mas na história do mundo. Acho que a gente está vivendo um ponto de virada”, acredita o cofundador da Flup.

“Quando você olha para o #BlackLivesMatter, para o modo como eles se organizam, você vai ver que esse movimento de massa tem um protagonismo das mulheres como nunca existiu na história dos grandes movimentos de massa. Então, tudo isso está acontecendo articuladamente de uma forma orgânica”, avalia.

Diálogo França-Brasil

Julio Ludemir espera levar essas questões para o Brasil, mas também trazer contribuições para a França. Ele diz ter a “sensação que fenômenos (literários, culturais) são lidos como uma exceção quando na verdade eles são a ponta de iceberg, apontam para uma alguma coisa que está se renovando. Houve uma chegada ao ‘mainstream’, como na época do modernismo na França, que foi resultado de processos migratórios, e que impactou profundamente a história do mundo a partir de então”.

Julio Ludemir criou a Flup em 2012, ao lado de Ecio Salles. Ele tem certeza que não poderia ter criado a Festa Literária das Periferias antes. “Ainda que a esquerda já estivesse no poder, não havia maturidade para que as políticas inclusivas em curso (possibilitassem) que emergisse uma geração de escritores como aquela que eu mapeei a partir de 2012.” Ela também não poderia acontecer a partir de 2014, no meio da crise e muito menos agora.

“Obviamente que todo mundo no Brasil, todo corpo dissidente, toda a fala dissidente, está absolutamente ameaçada. Não existe política cultural no Brasil.” Por isso, Julio Ludemir investe na internacionalização da Festa Literária das Periferias que “é um esforço também de sobrevivência desse festival”.

Polêmica

Depois da realização dessa entrevista, uma mensagem foi postada nas redes sociais por um jornalista francês criticando os apoios governamentais da Flup. "A prefeitura do Rio e o governo racista e sexista de Bolsonaro são parceiros de um evento antirracista em Paris”, diz o texto. A RFI voltou a procurar Ludemir para saber sua reação.

Ele lamentou a falta de apuração, o despreparo e o desconhecimento do jornalista em relação à realidade cultural brasileira. “Esse governo desmantelou toda a estrutura cultural. A única coisa que sobrou foram as leis de incentivos. Para ter direito ao dinheiro, eu e qualquer produtor cultural ou artista que queira continuar trabalhando tem, em contrapartida, que publicar as logos das empresas e das instâncias do governo que aprovaram os editais”, explica.

Com essa posição, esse jornalista “está determinando que sejamos silenciados”. “Se ele tivesse dado uma pequena busca no Google veria que eu não tenho nada a ver com esse governo e que serei uma de suas vítimas. Sou uma espécie em extinção e provavelmente, este seja o último ano da Flup”, denuncia.

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