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"Meu nome é Enéas": lenda da extrema-direita influenciou Bolsonaro, diz Le Monde

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, citou Enéas quando foi atacado pelas queimadas na Amazônia.
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, citou Enéas quando foi atacado pelas queimadas na Amazônia. AFP/File
Texto por: RFI
7 min

Em uma reportagem assinada pelo correspondente Bruno Meyerfeld, o Le Monde faz uma analogia entre Jair Bolsonaro e o ex-candidato à presidência e ex-deputado federal Enéas Carneiro, fonte de inspiração do presidente brasileiro. O jornalista também aponta semelhanças entre Enéas e o ícone da extrema direita francesa, Jean-Marie Le Pen.

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Morto em 2007, alguns anos após ter sido eleito o deputado federal mais votado do Brasil da época, com 1,5 milhão de votos, Enéas Carneiro até hoje inspira a extrema direita brasileira, diz o texto. “Para Jair Bolsonaro, ele é nada menos do que um ‘herói da pátria’, um ‘profissional brilhante’, um ‘exemplo político a seguir’, que ‘nunca cedeu à pressão’. Uma personalidade ‘firme e corajosa, à frente do seu tempo’”, cita a reportagem.

O político, ícone do conservadorismo nacionalista e cardiologista de profissão, é uma figura conhecida dos brasileiros pelo seu bordão, "Meu nome é Enéas", lançado quando disputou as eleições presidenciais de 1989. A apresentação, sucinta, e que virou motivo de piada, foi criada porque ele tinha pouco tempo de TV no horário eleitoral gratuito. Mas, apesar da fama local, Enéas continua desconhecido no exterior.

Para Meyerfeld, este desconhecimento é um erro, "pois Enéas tem muito a ver com os rumos do Brasil de hoje". “Ex-grande líder da extrema direita brasileira, falecido em 2007, ele foi um dos políticos mais surpreendentes de sua época, ao mesmo tempo marginal e popular, preocupante e engraçado. De muitas maneiras, ele pavimentou o caminho para o atual mestre de Brasília”, escreve.

“Durante anos, Jair Bolsonaro tentou estabelecer um relacionamento com seu antecessor político Enéas", revela Meyerfeld. “Em 2017, então deputado, trouxe (em vão) um projeto de lei com o objetivo de incluir seu ícone no próprio Livro dos Heróis da Pátria oficial, listando os nomes dos maiores brasileiros de todos os tempos. Elogiou o ‘nacionalismo valente’ e a ‘oposição ao comunismo’ do ‘Doutor Carneiro’".

Em agosto de 2019, lembra Le Monde, Bolsonaro recorreu à imagem de Enéas mais uma vez durante o momento mais tenso de sua presidência: os grandes incêndios na Amazônia, que geraram um alvoroço global. Bolsonaro exumou e depois compartilhou nas redes sociais uma velha gravação de seu mestre, listando as potências ocidentais, mais interessadas, segundo ele, nos "bens" (ou "riqueza incomensurável") da Amazônia do que no verdadeiro “bem” da floresta, que consiste em sua preservação.

Meritocracia à brasileira

Em seguida, o correspondente do jornal traça um perfil de Enéas. “Mas quem foi esse "herói" a quem Bolsonaro tanto gosta de se referir? Enéas Ferreira Carneiro nasceu em 1938 em uma família pobre de Rio Branco, capital do Acre, perdida nas profundezas da Amazônia, filho de um barbeiro e de uma dona de casa. Aos 9, perdeu o pai e, aos 19, mudou-se com a mãe para o Rio de Janeiro”, escreve.

Sua ascensão foi meteórica: aluno brilhante, leitor voraz, Enéas estudou e depois deu aulas de Medicina, Física, Química, Matemática, Biologia e até de Língua Portuguesa. Ele finalmente se tornou um cardiologista reconhecido, uma referência em sua área. “O símbolo de uma certa meritocracia à brasileira”, analisa o jornalista.

Em 1989, aos 51 anos, Enéas ingressou na política pela porta da frente: ele se candidatou à presidência nas primeiras eleições da era democrática brasileira. Para isso, fundou o Partido para a Reconstrução da Ordem Nacional (Prona), que reunia todos os grupos de extrema direita da época e colocou todas as suas forças na batalha. Reuniu apenas 0,53 % votos.

“A experiência foi, no entanto, um sucesso, porque Enéas fez nome e, melhor ainda, uma voz, um rosto e um estilo. Em seus clipes de campanha (com apenas 15 segundos de duração), o ‘Doutor’ surge como um profeta do apocalipse: barba de guru, óculos gigantescos, vociferando com voz rouca no ritmo de uma metralhadora, tudo em um cenário verde e amarelo angustiante e com as notas da Quinta Sinfonia de Beethoven… Antes de concluir com o bordão: ‘Meu nome é Enéas!’, Um slogan que passará a ser a sua assinatura”, explica Le Monde ao leitor francês.

“Jean-Marie Le Pen do Brasil”

Meyerfeld conta que Enéas, que virou um fenômeno de campanha (1989 e 1994) e posteriormente um fenômeno eleitoral (como deputado, em 2002) é conhecido como o “Jean-Marie Le Pen do Brasil”, “Enéas é detestado por boa parte dos brasileiros, mas adorado por outros, que consideram que ele tem um lado carnavalesco, ao mesmo tempo divertido, excêntrico, sincero e cativante”.

Em 2007, vítima de leucemia, Enéas morreu aos 68 anos. Mas seu legado não está morto, diz Le Monde. “Para entender Bolsonaro, é preciso primeiro entender Enéas", insiste Odilon Caldeira Neto, professor de história da Universidade de Juiz de Fora (UFJF), autor de uma tese sobre o Enéas Carneiro e que atualmente prepara um livro sobre o deputado.

“Embora nunca tenha sido membro de seu partido, Bolsonaro se inspirou fortemente em Enéas e eles têm muito em comum", diz o pesquisador ao jornal francês. “O que os aproxima no nível das ideias é antes de tudo uma visão muito conservadora das questões sociais, o antiparlamentarismo, um nacionalismo exacerbado e uma concepção de poder muito autoritária e vertical”, explica o pesquisador.

Conhecido por suas posições anti-aborto e anti-LGBT, Enéas rejeitou uma classe política tradicional "podre, suja, nojenta e antipatriótica". Ele planejava triplicar o tamanho do exército e equipar o Brasil com armas atômicas. “Não para jogar em ninguém, mas para impedir que alguém jogue em nós”, dizia ele.

Enéas valorizava os estudos, ao contrário de Bolsonaro

Mas a comparação com o Bolsonaro termina por aí: "Carneiro, ao contrário do Bolsonaro, não era nostálgico da ditadura e se opunha totalmente à censura da imprensa", continua Caldeira Neto. “Ele também era um antiliberal frenético, contrário à privatização e, sem dúvida, não teria aprovado a linha do atual governo sobre o assunto. Finalmente, Enéas era um médico, um homem de Ciência, um estranho diante do discurso religioso neopentecostal de Bolsonaro".

Os dois homens também diferem muito em estilo. “Enéas se orgulhava de sua formação acadêmica, valorizava estudos, habilidades e conhecimentos. Ele era elegante e tinha um discurso elitista, um vocabulário disciplinado. Bem ao contrário de Jair Bolsonaro, vulgar em tudo, que usa camisas de futebol em público e elogia repetidamente o ‘brasileiro médio’", descreve Caldeira Neto.

Não importa: ao revindicar seu legado, Bolsonaro pode inscrever sua presidência na história política do Brasil, mas também associar seu nome a uma figura que voltou a ser popular. Porque, diz Le Monde,13 anos após a sua morte, o “Doutor” inspira uma certa nostalgia. Vários projetos foram lançados recentemente para reviver seu partido, o Prona, dissolvido em 2006. Na Internet, sua barba febril está por toda parte e seu famoso bordão, "Meu nome é Eneas", alimenta inúmeros memes, montagens e canções de paródia.

 

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