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"Bolsonaro é produto e produtor de discurso que nega ditadura", afirma sociólogo

Áudio 07:09
O vice-presidente Hamilton Mourão (à esq.) e o presidente Jair Bolsonaro, durante cerimônia militar em 2019.
O vice-presidente Hamilton Mourão (à esq.) e o presidente Jair Bolsonaro, durante cerimônia militar em 2019. AP - Eraldo Peres
Por: Cristiane Capuchinho
12 min

Ao perceber a onda de ataques às universidades públicas, o sociólogo José Eduardo Szwako, da Uerj, decidiu investigar o avanço do discurso anticientífico. De cara, deu-se conta que o negacionismo da ciência em grupos conservadores vinha misturado com um discurso de negação dos crimes da ditadura brasileira. Em Paris, onde apresentará um seminário na EHESS (Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais), Szwako falou à RFI sobre o fenômeno que, segundo ele, ganhou corpo em 2009 e teve contribuição da mídia.

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São muitos os tipos de discursos negacionistas. Há os que negam o clima, os que rejeitam a eficiência das vacinas ou ainda os que recusam fatos históricos, como o Holocausto. Os atuais mandatários do governo brasileiro assumiram um discurso que nega os crimes da ditadura militar brasileira.

Para o pesquisador da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), este é o resultado de um processo de emergência pública de discursos minimizando a ditadura no Brasil, que ganhou amplitude há uma década.

"Editoriais, artigos de opinião, tomadas públicas de posição em defesa da ditadura passam a acontecer no Brasil a partir de 2009 e 2010, e isso vem crescendo. Me parece que é dentro dessa onda que aparecem [Bolsonaro e Mourão]. Eles são tanto produto como produtores deste processo de negação", sublinha.

Apesar do apoio maciço da população à democracia (75 % na pesquisa Datafolha de junho), esse discurso minoritário ganhou espaço com contribuição da mídia, considera o pesquisador.

"Se você voltar em 2009, tem textos do Bolsonaro como deputado defendendo não só a ditadura como o [coronel Carlos Alberto Brilhante] Ustra. Há uma posição muito ambígua da mídia naquele momento porque não havia nenhuma crítica a esse elogio da ditadura. A mídia tratou como se fosse neutro, como se fosse aceitável defender a ditadura nas páginas de seus jornais."

No ato mais recente, o vice-presidente Hamilton Mourão, em entrevista a um canal de televisão alemão, se recusou a chamar de ditadura o governo entre 1964 e 1985 e fez um elogio ao coronel Brilhante Ustra, condenado por torturas no período. A fala foi repudiada por políticos e diversas entidades defensoras de direitos humanos.

Negacionismos múltiplos mas com pontos em comum

Ao buscar os movimentos intelectuais por trás dos ataques às universidades, o professor da Uerj deparou-se com um emaranhado de mensagens que negam a história, a ciência, mas também rejeitam os direitos reprodutivos femininos.

"Rapidamente percebi que havia uma relação do negacionismo científico com um negacionismo histórico. Era muito presente principalmente a negação da violência dos agentes da ditadura. É central nesses grupos de WhatsApp, nesses sites conservadores, um discurso contra os direitos produtivos das mulheres. É uma agenda anti-aborto", detalha Szwako.

É exatamente em relação aos direitos femininos e da população LGBT que o pesquisador acredita existir ameaça mais concreta: "não são assuntos que a sociedade em geral parece preocupada em defender."

Nos diversos assuntos em que a realidade é truncada, o sociólogo aponta quatro traços que caracterizam os negacionismos: a presença de teorias da conspiração, o uso de falsos especialistas, os ataques sistemáticos a especialistas consagrados e a criação de expectativas impossíveis de serem realizadas, sobretudo pela ciência.  

O método não é novo. Já era usado para negar o genocídio contra os judeus, questionar o mau causado pelo cigarro, o aquecimento do planeta e até mesmo negando a gravidade da Aids, nos anos 1980. Algo parecido com o que vemos hoje com a Covid-19 e as manifestações contra o uso de máscaras, lembra o sociólogo.

A grande diferença da onda atual é a transformação da qualidade e da difusão com novos suportes tecnológicos. "A internet e as redes sociais transformam tudo isso, com dois fenômenos que se conjugam, que são o negacionismo e a produção de fake news. Os grupos de WhatsApp são fábricas de produção e de difusão de fake news."

Essa máquina complexa apareceu com sucesso na eleição de Donald Trump, em 2016, no Brexit, e também nas eleições brasileiras de 2018

Caos informacional

O método, no entanto, não tem cores ideológicas. Há negacionismos de direita bem como de esquerda. "O discurso antivacina, por exemplo, aparece muito na esquerda, principalmente em franjas sociais ligadas à contracultura, a ambientalistas e a hippies", exemplifica.

Para o pesquisador, o contexto de desinformação impõe desafios aos cientistas e também aos jornalistas.

"As universidades e os cientistas têm um papel a cumprir, como vocalizadores e formadores da opinião pública. Mas acho que os jornalistas também têm um trabalho muito duro que é o de ter uma educação científica, para evitar o que acontece hoje, em que erros em relação à ciência são divulgados. O trabalho de jornalistas não é menor no que está por vir."

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