Covid-19: Manaus pede socorro nas redes sociais diante do caos nos hospitais

Funcionários transportam cilindros de oxigênio para hospital em Manaus
Funcionários transportam cilindros de oxigênio para hospital em Manaus AP - Edmar Barros
Texto por: RFI
7 min

O pulmão do mundo está asfixiado, como lembram muitos internautas. Em Manaus, o sistema hospitalar público está saturado e falta capacidade de atendimento, como mostram dezenas de vídeos postados no Twitter e no Facebook. Só nas últimas 24 horas, o Estado do Amazonas registrou 44 mortes e registrou 3.816 novos casos, o maior balanço desde o início da pandemia.

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Os profissionais da Saúde no Brasil estão implorando por ajuda diante do caos nos estabelecimentos hospitalares. Este é o título da reportagem publicada no site do jornal inglês The Guardian, que resume a situação catastrófica no país. A imagem das valas abertas para receber as vítimas da epidemia na primeira onda, publicada em jornais de todo o mundo, é um trauma que dificilmente será superado.

Os pacientes já começaram a ser transferidos para outros Estados, o que faz a população temer a propagação da nova cepa brasileira, considerada preocupante pela OMS (Organização Mundial da Saúde). O aumento dos novos contágios, considerado um "tsunami" pelas autoridades, poderia estar ligado a essa nova variante. O governador do Amazonas, Wilson Lima, reconheceu que o governo enfrenta o momento mais crítico da epidemia.

Diante da falta de oxigênio, o Estado anunciou nesta quinta-feira (14) um toque de recolher de dez dias, que proíbe a circulação entre 19h e 6h. A ocupação dos leitos de UTI para Covid nos hospitais públicos do Amazonas está em 94%. 

Pelo menos dois pacientes teriam morrido nos Pronto-Socorros por falta de oxigênio, de acordo com o jornal El Pais. "É uma calamidade sem precedentes", disse o epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz. "Nas próximas horas, Manaus se tornará protagonista de um dos capítulos mais tristes da epidemia da Covid-19 no mundo."

O governador do Estado lembrou que a região produz grandes quantidades de oxigênio, graças à floresta, mas "hoje as populações precisam de oxigênio e de solidariedade". Nos últimos dias, aviões militares trouxeram para Manaus cerca de 400 cilindros, mas o número é insuficiente.

Na tentativa de salvar o maior número de doentes possível, médicos e enfermeiras se mobilizaram para executar manobras para ventilar manualmente os casos graves, colocando os doentes de bruços. Para isso, três ou quatro pessoas devem estar disponíveis para um único paciente, por no mínimo três ou quatro horas. 

Profissionais relatam dificuldades nas redes sociais

Nas redes sociais, os médicos que estão na linha de frente descrevem o esforço para tentar salvar os casos mais críticos. O cardiologista e intensivista Anfremon d'Amazonas, que atua no Hospital Getúlio Vargas, contou em um vídeo publicado no Instagram que equipes foram acionadas para tratar os pacientes sem oxigênio. 

"Havia mais médicos do que o habitual e muitos residentes", diz. Segundo ele, os profissionais realizaram as manobras manuais para melhorar a ventilação dos doentes e racionaram o uso do oxigênio.

"Foi um momento desesperador, tinha muita gente chorando, porque muitos pacientes morriam e não tínhamos o que fazer", relata."De 27 pacientes, perdemos 3. Cada uma dessas perdas chocou demais a equipe", relata o cardiologista.

No Twitter, o jornal local A Crítica também lembra o triste recorde de sepultamentos na cidade - 198 em apenas um dia. 

Sepultamentos em Manaus bate recorde

Em outro, retuitado milhares de vezes, uma moradora descreve a situação caótica na capital.

Moradora pede cilindros de oxigênio

Nesta quinta-feira (14), o Ministério da Saúde anunciou  que a vacinação deve começar no próximo dia 20, se os pedidos de autorização urgentes das imunizações forem aprovados a tempo. O Brasil está à espera da CoronaVac, do laboratório chinês Sinovac, e da vacina desenvolvida pelo laboratório Astra Zeneca em parceria com a universidade de Oxford.   

Nova cepa

O pesquisador Felipe Naveca, do instituto Leonidas e Maria Deane, que trabalha em parceria com o instituto de pesquisas Fiocruz, disse que o coronavírus originário da Amazônia pode ser tão contagioso quanto as variantes detectadas no Reino Unido e na África. O cientista estuda as mutações observadas no norte do Brasil.

Segundo ele, é provável que a cepa já tenha se espalhado em outras regiões. De acordo com Naveca, as amostras recolhidas na Amazônia eram "ancestrais" das que foram encontradas no Japão, que já tinham sofrido outras mutações. "Estamos terminando o sequenciamento do genoma", declarou. 

Os pesquisadores agora querem saber se a variante é predominante no Estado do Amazonas. Segundo ele, a análise das amostras indica que a cepa está presente em 50% dos casos de Covid-19 no Estado, mas esse número pode ser maior.

Naveca também explicou que essa variante pode ser tão contagiosa quanto as variantes britânica e sul-africana, já que várias mutações da proteína Spike, usada pelo coronavírus para penetrar na célula, foram observadas.

"Mas a situação em Manaus não está associada somente a um maior potencial de transmissão do vírus. Há as festas de final de ano e nesta estação há outros vírus respiratórios", esclareceu. Uma das hipóteses é que as mutações ocorreram porque o número de contaminações é elevado, disse. De acordo com Naveca, até agora não há provas de que a cepa amazônica possa impedir uma resposta imunológica depois da vacinação.

(RFI e AFP)

 

Caos em hospital de Manaus, onde falta oxigênio

 

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