Jornal francês vê governo Bolsonaro sem rumo, apesar de eleição de aliados no Congresso

O presidente Jair Bolsonaro é beneficiado a curto prazo pela vitória de aliados na Câmara e no Senado.
O presidente Jair Bolsonaro é beneficiado a curto prazo pela vitória de aliados na Câmara e no Senado. REUTERS - UESLEI MARCELINO
Texto por: RFI
3 min

As eleições de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco são analisadas nesta terça-feira (2) pelo jornal Les Echos, publicação de referência no meio empresarial francês. Jair Bolsonaro conseguiu colocar dois aliados na presidência da Câmara dos Deputados e do Senado, o que o protege a curto prazo de processos de impeachment, diz o diário francês. 

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O principal ponto em comum entre os dois vencedores é que ambos contaram com o apoio explícito do chefe de Estado, explica o texto do correspondente em São Paulo, Thierry Ogier. Ele observa que as reformas econômicas tendem a tramitar mais depressa do que as pautas de costumes, mesmo se o governo não envia sinais claros do que pretende fazer.

É especialmente a chegada de Arthur Lira ao comando da Câmara que muda a situação. "Sua vitória oferece uma trégua para Jair Bolsonaro, fortemente criticado por sua polêmica gestão da epidemia de Covid-19, motivo de vários pedidos de impeachment", informa o jornal francês, na medida em que cabe ao presidente da Câmara dos Deputados validar ou não esses pedidos. Les Echos salienta que a dupla vitória de aliados deve permitir que Bolsonaro acione seu programa para as próximas eleições.

"Mas que programa?", indaga o diário francês. "O governo Bolsonaro parece ter perdido o gosto pelas grandes reformas econômicas ou privatizações", constata a publicação. Alguns observadores evocam a falta de clareza do programa econômico do governo, apesar de o presidente do Senado ter apontado a importância de realizar algumas reformas que dividem a opinião pública. 

Queda de popularidade

Analistas consultados pelo Les Echos estimam que o governo tem se comportado de forma errática em relação às reformas, sem manifestar claramente o que pretende fazer. Alguns projetos terão consequências dolorosas e caras em termos de popularidade, o que pode levar Bolsonaro a dar prioridade a pautas menos explosivas do ponto de vista do Planalto, como a ampliação do porte de armas e a autorização de atividades de mineração em terras indígenas.

Les Echos assinala que a popularidade de Bolsonaro despencou recentemente para 31% de opiniões favoráveis. "A gestão da epidemia é cada vez mais contestada, principalmente em Manaus, onde dezenas de pacientes morreram por falta de oxigênio nos hospitais", aponta o Les Echos. Outra razão para o declínio de Bolsonaro nas sondagens foi a interrupção do pagamento do auxílio emergencial aos mais pobres no início do ano. "As revelações sobre os gastos extravagantes do governo federal com alimentos no ano passado, incluindo € 2,3 milhões em leite condensado, também irritaram muitos brasileiros", conclui a reportagem.

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