Bonapartistas levam civilização europeia e luxo para corte do Rio de Janeiro

O Paço Imperial, localizado na Praça XV de Novembro no Rio de Janeiro.
O Paço Imperial, localizado na Praça XV de Novembro no Rio de Janeiro. © A. Brandão/ RFI

A partir de 1815, com a queda de Napoleão Bonaparte e o Congresso de Viena, há o restabelecimento das relações diplomáticas entre a França e Portugal. Apesar do fim da ameaça bonapartista, Dom João, que estava no Rio de Janeiro desde 1808, decide manter a corte portuguesa no Brasil que é elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves. O restabelecimento das relações amistosas propiciou a imigração de muitos franceses — comerciantes, militares, artistas — muitos deles bonapartistas.

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Isso não significa que antes de 1815 não havia franceses no Brasil, e mais especificamente no Rio de Janeiro. Eles eram pouquíssimos numerosos e tentavam passar despercebidos, como constatou nos arquivos da imprensa da época a historiadora Lucia de Bastos. “Até 1815, os poucos franceses que aqui entravam, quando vão publicar algum anúncio na Gazeta do Rio de Janeiro, tentavam se desculpar quase por serem franceses. Eles se preocupavam em dizer: não somos favoráveis à Revolução Francesa, não somos favoráveis a Napoleão Bonaparte”, afirma a professora da UERJ. O imperador francês, que havia declarado guerra às monarquias da época, era visto por seus adversários como “uma figura maléfica” e os princípios franceses como “abomináveis”.

Com a queda de Napoleão, o Restabelecimento da Monarquia na França e a paz entre os dois país, isso vai mudar totalmente. Sem nenhum obstáculo, a entrada de franceses, principalmente parisienses, se multiplica. “É algo que não foi totalmente explicado. Por que aceitar esses ex-bonapartistas? Afinal de contas, aqueles que apoiaram Bonaparte apoiaram de uma certa forma a expulsão de Dom João de Portugal”, indaga a historiadora carioca.

Bonapartistas se reiventam no Rio de Janeiro

Essa foi primeira corrente migratória francesa importante para o Brasil. O historiador francês Laurent Vidal fez com a reportagem da RFI uma visita ao centro histórico do Rio de Janeiro seguindo os passos desses franceses. Ele explica que muitos desses imigrantes eram “bonapartistas, inclusive militares, que não encontravam mais trabalho porque eram perseguidos na França e se exilaram. O Brasil, onde o rei precisava de artistas, arquitetos, etc. para transformar o Rio em uma capital imperial, é um desses lugares de exílio que oferece oportunidades profissionais”.

No Brasil, esses bonapartistas se reinventaram como comerciantes, modistas, cozinheiros, donos de hotéis, de jornais... A nacionalidade francesa antes velada, passa ser propagada e símbolo de civilização europeia. “A presença francesa é essencialmente simbólica porque representa essa ideia desejada de uma europeização do Rio de Janeiro”, analisa o professor da Universidade de La Rochelle, especialista em história do Brasil.

Numericamente, a comunidade francesa é pequena. Um censo realizado entre 1817 e 1820 indica que 300 franceses moravam no Rio de Janeiro. Cerca de 50 deles, isto é, um sexto, moravam ou tinham uma loja na Rua do Ouvidor, o endereço “chique” do centro da cidade, que se tornou “a rua dos franceses”. Laurent Vidal constata que hoje, essa presença tão importante simbolicamente, foi “invisibilizada” e é desconhecida da maioria dos brasileiros.

Primeiro hotel de luxo do Brasil

Louis Pharoux, ex-soldado de Napoleão, foi um dos parisienses que se instalou na Rua do Ouvidor. Ele chegou ao Rio em 1816, aos 26 anos, e criou primeiro uma pequena “casa de pasto”, isto é, um restaurante que oferecia também quartos para hóspedes. Mais de 20 anos depois, ele inaugurou no Largo do Paço, à beira mar e ao lado do Palácio Imperial, o Grande Hotel Pharoux, o primeiro hotel de luxo para viajantes da cidade e do Brasil, que ficou famoso por sua cozinha francesa.

Hotel Pharoux, no Rio de Janeiro, em meados do século 19.
Hotel Pharoux, no Rio de Janeiro, em meados do século 19. © Reprodução

Para melhor acolher os hóspedes, que chegavam de barco e ancoravam na Baía de Guanabara, ele construiu em frente ao hotel o “Cais Pharoux”, que existe até hoje, apesar de ter sido deslocado para outro lugar após o aterro que ampliou a Praça Quinze. Em 1853, o hotel foi vendido e o bonapartista voltou para a França “arruinado”. Essa história foi retraçada por Nicolas Saudray, tataraneto de Louis Pharoux, no livro “Napoléon au Brésil”, publicado em 2019.

Nicolas Saudray, autor do livro Napoleão no Brasil.
Nicolas Saudray, autor do livro Napoleão no Brasil. © A. Brandão/ RFI

Saudray garante que o ex-soldado nunca conspirou no Brasil para, por exemplo, soltar Napoleão. Ele era apenas um “comerciante”, mas não soube administrar bem os negócios. “Foi uma aventura que acaba mal. Meu tataravô adorava o luxo. Fez muitos gastos, mas não tinha capital. Sua situação era frágil. Devido a uma disputa, seu genro, meu trisavô, que o ajudava a administrar o hotel, abriu seu próprio estabelecimento e entraram em concorrência. A partir de 1851, veio a epidemia de febre amarela. Foi terrível para os hotéis, um pouco como vivemos hoje com o coronavírus”, conta o escritor.

O genro, Auguste Saudray, faliu e desapareceu, sem deixar notícias. Pharoux não faliu, mas foi obrigado a vender o hotel em péssimas condições. Como herança, Nicolas Saudray recebeu a Medalha de Santa Helena, uma recompensa desejada por Bonaparte para homenagear todos os soldados do Primeiro Império e implementada por seu sobrinho, Napoleão III, em 1857.

Nicolas Saudray, com medalha Santa Helena de Napoleão que pertenceu a Louis Pharoux.
Nicolas Saudray, com medalha Santa Helena de Napoleão que pertenceu a Louis Pharoux. © Arquivo pessoal

Hogendorp

Outros exemplos relevantes dessa presença bonapartista no Rio foram a “Missão Artística Francesa”, formada por artistas que serviram ao regime de Napoleão I, e o general do Grande Exército francês Dirk van Hogendorp. O oficial holandês, ajudante de campo do imperador, se mudou para o Rio de Janeiro em 1816. Ele morava em uma chácara no Cosme Velho, na encosta do Corcovado.

Antes da Independência do Brasil, Hogendorp recebia com frequência a visita de Dom Pedro e de sua esposa Dona Leopoldina. Contrários aos ideais franceses, os absolutistas Dona Carlota Joaquina e Dom Miguel (mãe e irmão do futuro imperador brasileiro) diziam que essas visitas eram um perigo. Chegou a se cogitar que o general ocupasse um cargo no governo e quando ele morreu em 1821, no mesmo ano que Napoleão Bonaparte, um registro necrológico no jornal louva suas atitudes e Dom Pedro se oferece para pagar o enterro que é finalmente custeado pela representação francesa.

Para se ter uma ideia da proximidade de Hongendorp com Napoleão I, quando o testamento do imperador foi aberto, o general era um dos herdeiros. Mas durante a sua estada no Rio, onde viveu modestamente, Hogendorp não teria participado de nenhum complô ou plano efetivo para libertar Bonaparte da ilha de Santa Helena, como temia a representação francesa no Brasil. O único projeto concreto para resgatar o imperador, detido pelos ingleses na ilha do Atlântico Sul, ocorreu durante a Revolução Republicana de Pernambuco de 1817, mas fracassou.

Como explicar a contradição da vida desses bonapartistas na corte do Rio de Janeiro? “O símbolo do exilado bonapartista continuava sendo importante. Mas aos poucos as pessoas esqueceram. Os desafios do cotidiano foram mais fortes do que os ideais iniciais. Partiram com ideais e se instalaram tentando aproveitar das potencialidades oferecidas pelo país”, responde Laurent Vidal.

Donos de jornais

Franceses bonapartistas também estiveram presentes na imprensa carioca. O editor Pierre Plancher chegou ao Rio de Janeiro em 1824, dois anos depois da independência do Brasil, se aproximou de Dom Pedro I e virou tipógrafo imperial. No mesmo ano, ele criou o jornal o “Espectador”, “onde passava uma imagem positiva e defendia o imperador brasileiro”, segundo Isabel Lustosa, pesquisadora do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.

Em 1827, Plancher funda o Jornal do Comércio e também um jornal em francês, “L’Indépendant”, que depois muda de nome e proprietário, mas mantém a mesma linha editorial. “Esses franceses, antirrestauração, defendem as ideias liberais anteriores à Restauração (da Monarquia na França). Eles são favoráveis a Dom Pedro I justamente porque ele é um imperador constitucional”, relata Isabel Lustosa. Eles vão defender até o fim monarca brasileiro. Dom Pedro era alvo de uma insatisfação e oposição crescentes por conta de seu autoritarismo e vinculação com Portugal que acabam levando à sua abdicação em 1831.

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