Missão Artística Francesa: o bonapartista Debret cria as imagens do império luso-brasileiro

Quadro Coroação de D. Pedro I de Jean-Baptiste Debret
Quadro Coroação de D. Pedro I de Jean-Baptiste Debret © A. Brandão/ RFI

A paz entre a França e Portugal, assinada em 1815, propiciou a imigração de muitos franceses para o Brasil. Muitos deles eram bonapartistas perseguidos em seu país, em busca de empregos e oportunidades. A chamada “Missão Artística Francesa”, formada por artistas que serviram ao regime de Napoleão I, é o exemplo mais expressivo dessa presença bonapartista no Rio de Janeiro, onde a corte portuguesa do príncipe regente Dom João estava instalada desde 1808.

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A “Missão francesa” chegou ao Brasil em março de 1816. Chefiada por Joaquim Lebreton, ela era composta por pintores, escultores, gravadores e arquitetos, representantes do estilo neoclássico, formados na Academia de Arte francesa. Existem duas versões para a imigração do grupo. Na primeira, os artistas teriam sido convidados pela corte portuguesa para desenvolver as artes e ofícios e implementar “o progresso da civilização”. Na segunda versão, o grupo, sem trabalho na França após a queda de Napoleão I e a restauração da monarquia, teria se “autoconvidado”.

De qualquer maneira, houve interesses comuns. Apesar de Bonaparte ter invadido Lisboa e provocado a transferência da corte para o Brasil, D. João recebeu oficialmente no Rio de Janeiro o grupo que tinha ajudado a produzir a imagem grandiosa do antigo inimigo.

“O que a corte portuguesa necessitava era ter um grupo de artistas capazes de construir a imagem da corte. Na época, D. João tinha que casar o jovem Pedro, etc. Para isso, era preciso mostrar que lá, longe da Europa, tinha um país descente. Essa imagem era um elemento fundamental. Eles convidaram o que hoje em dia se chama a mídia”, diz Jacques Leenhardt, professor da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais (EHESS) de Paris, que organizou a nova edição do livro “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, de Jean-Baptiste Debret.

Jacques Leenhardt, prof EHESS e organizador da nova edição do Viagem Histórica e Pitoresca ao Brasil do Jean-Baptiste Debret
Jacques Leenhardt, prof EHESS e organizador da nova edição do Viagem Histórica e Pitoresca ao Brasil do Jean-Baptiste Debret © A. Brandão/ RFI

Já a representação oficial da França no Rio não via com bons olhos a instalação dos simpatizantes de Napoleão na cidade. “No período do D. João, eles eram muito vigiados pelo Jean-Baptiste Maler, que era um militar que cumpria a função de cônsul (francês) no Rio. O Maler tinha uma obsessão, principalmente contra o Lebreton. Ele dá notícias alarmantes sobre os membros da Missão. Está convencido que eles são espiões e que estão trabalhando para tirar Napoleão da ilha de Santa Helena e trazê-lo para o Brasil ou levá-lo para a América do Norte onde o irmão do Napoleão, José Bonaparte, estava vivendo", conta a historiadora Isabel Lustosa.

A presença dos franceses também não ocorreu sem resistências de artistas portugueses, que defendiam uma tradição barroca. Essas animosidades acabaram atrasando a fundação da Academia Imperial de Belas Artes pelos franceses, em um prédio projetado pelo arquiteto Granjean de Montigny. A instituição só foi criada em 1826, quando alguns integrantes da “Missão” já haviam voltado para a França ou morrido, como Joaquim Lebreton.

Jean-Baptiste Debret

O pintor de história Jean-Baptiste Debret, primo e discípulo de Jacques-Louis David, foi um dos mais importantes integrantes da “Missão”. Ele participou da fundação da Academia e deu aulas na instituição até voltar definitivamente para a França em 1831.

Antes disso, realizou para a corte um trabalho que Leenhardt chama de “produção de imagem” de um império nos trópicos. Debret criou cenários para eventos solenes e pintou telas dos momentos marcantes da vida da corte luso-brasileira, antes e depois da Independência do Brasil em 1822.

Na opinião do professor da EHESS, os quadros oficiais feitos no Brasil por Debret são “um pouco rígidos”. Eles revelam uma incoerência entre o neoclassicismo e a realidade da época, marcada pela escravidão. “Debret tem dificuldade de fazer entrar o reino, o império brasileiro, nos quadros ideológicos do neoclassicismo. Essa ideologia necessita da presença e do poder do povo, que apoia e dá conteúdo à nobreza dos gestos. Sem povo, não faz sentido. É difícil dar majestade a um país ainda determinado pela escravidão”, afirma Leenhardt.

“A Coroação de D. Pedro I”

O monumental quadro “A Coroação de D. Pedro I” é um desses quadros “oficiais”. A tela mostra a cerimônia de sagração do primeiro imperador do Brasil, em 1° de dezembro de 1822. Com dimensões gigantescas — 6m de comprimento x 3m de altura —, o quadro foi concluído em 1828 e hoje está exposto no Palácio do Itamaraty em Brasília. Com frequência, é feita a comparação entre “A Coração de D. Pedro I” e “A Coroação de Napoleão”, de Jacques-Louis David, que teria influenciado a obra de Debret.

Quadro "A Coroação de D. Pedro I", de Jean-Baptiste Debret.
Quadro "A Coroação de D. Pedro I", de Jean-Baptiste Debret. © A. Brandão/ RFI

Ana Carolina Mesquita, ex-coordenadora visitação cívica Itamaraty, informa que sempre enumera aos visitantes as semelhanças entre os dois quadros: “a posição dos personagens, os tons, o vermelho”.

Ana Carolina Mesquita, ex-coordenadora da visitacão cívica do Palácio do Italaraty de Brasília.
Ana Carolina Mesquita, ex-coordenadora da visitacão cívica do Palácio do Italaraty de Brasília. © A. Brandão/ RFI

O conselheiro Tarcísio Lumack de Moura, coordenador-geral do Patrimônio Histórico do Ministério das Relações Exteriores, ressalta que a tela tem um aspecto europeu, mas vários elementos mostram a influência do mundo novo. “D. Pedro, nas suas vestes, apresenta indícios de que era um imperador no Novo Mundo. Ele está usando botas até os joelhos. Ele era um cavalheiro, um desbravador em um país tropical ao contrário de seus pares europeus que usavam sapatos de salto alto com fivelas. Isso já denota essa transposição do mundo europeu clássico para uma nova realidade”, aponta o diplomata.

Conselheiro Tarcício Lumack de Moura, coordenador-geral do Patrimônio Histórico do Ministério das Relações Exteriores.
Conselheiro Tarcício Lumack de Moura, coordenador-geral do Patrimônio Histórico do Ministério das Relações Exteriores. © A. Brandão/ RFI

Leenhardt salienta ainda a rigidez de D. Pedro I, sentado no trono, e o vazio central no centro da tela. “Esse vazio tem uma certa força de abstração. A cena toda parece muito abstrata. O sentido de poder não existe neste quadro”, analisa o especialista.

Trabalho secreto

Jean-Baptiste Debret realizou ainda, durante os 15 anos em que ficou no Brasil, um “trabalho secreto”. Em suas horas vagas, desenhava pelas ruas da cidade cenas da vida cotidiana do Rio de Janeiro. Quando voltou para Paris, em 1831, levou na bagagem cerca de 800 desenhos e aquarelas, que nunca tinha mostrado no Brasil. A partir de 1834, uma seleção desse trabalho foi publicada em três volumes no livro “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”.

Essa obra salvou Debret do esquecimento, garante Leenhardt. “É uma obra fundamental. É como uma sociologia, uma etnografia da cidade do Rio de Janeiro. Ele documenta uma realidade que ele não tinha o direito de mostrar em seu trabalho oficial: a vida cotidiana, os escravos e uma situação escandalosa para um europeu que era a escravidão”. Para o especialista, o povo que está ausente nos quadros oficiais “está totalmente presente nos desenhos e com nobreza”.

Ana Paola Baptista, curadora dos Museus Castro Maya do Rio de Janeiro, onde estão a maioria das aquarelas de Debret, também fala em dualidade. “É como se fosse um outro Debret. Hoje, a obra dele interessa muito. A imagem do nosso passado colonial e do Primeiro Império é a imagem que o Debret nos transmitiu. A gente vê o passado pelos olhos do Debret. É o mais importante dos pintores viajantes”, acredita a curadora, que o define como um “estrangeiro residente”.

Anna Paola Pacheco Baptista, curadora dos Museus Castro Maya.
Anna Paola Pacheco Baptista, curadora dos Museus Castro Maya. © A. Brandão/ RFI

O pintor francês é hoje muito mais famoso no Brasil do que na França, onde ele é praticamente desconhecido. Por isso, Vera Alencar, diretora dos Museus Casto Maya, arrisca dizer que ele seja um artista “brasileiro”. “O grande feito do Debret foi esse retrato do Rio Janeiro do século 19, e isso é fundamental para nós, para a nossa história”, pontua Vera Alencar que não esquece “a qualidade técnica incrível” desse registro.

Vera Alencar, diretora dos Museus Castro Maya.
Vera Alencar, diretora dos Museus Castro Maya. © A. Brandão/ RFI

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