Revolução de Pernambuco de 1817 e a fracassada fuga de Napoleão para o Brasil

O quadro "Benção das bandeiras da Revoução de 1817", de Antônio Parreiras.
O quadro "Benção das bandeiras da Revoução de 1817", de Antônio Parreiras. © Reprodução

Em 1817, nove anos depois da chegada da corte portuguesa ao Brasil, eclodiu em Recife a Revolução Pernambucana. O movimento republicano despertou o interesse de bonapartistas que planejavam libertar Napoleão Bonaparte da ilha de Santa Helena e trazê-lo para a América.

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A Revolução Republicana de Pernambuco eclodiu em 6 de março de 1817. O estopim para a revolta em uma das capitanias mais ricas da colônia foi a política de tributação “pesada”, baixada após a chegada de Dom João ao Brasil, em consequência da invasão de Portugal por tropas napoleônicas. A instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808, teve um impacto decisivo para o desenvolvimento da capital e do Sudeste, mas desfavoreceu outras províncias, criando desequilíbrios regionais e tensões.

"A província de Pernambuco vivia um reaquecimento de suas exportações e sentiu a mão pesada da tributação da corte sobre sua balança comercial. Praticamente todo superávit comercial de Pernambuco foi retirado na forma de tributação (...) para aproximar o Rio daquilo que era a vida em Lisboa. Entre todos esses impostos, o mais criticado era a taxa de iluminação do Rio de Janeiro, enquanto as ruas do Recife seguiam às escuras”, lembra George Cabral, historiador e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Os revoltosos tomam o poder e proclamam a República de 1817, com o apoio do clero, de militares e comerciantes. O governo provisório organiza o Estado e cria uma bandeira. Um projeto de Constituição determinou a separação de poderes, a liberdade de imprensa e a tolerância religiosa. Ao invés do termo separatista, muito utilizado pela historiografia oficial, George Cabral prefere definir o movimento como anticolonialista. “Separar de que, uma vez que não existia ainda um Brasil?”, questiona. “É um movimento anticolonial que consegue efetivamente tomar o poder. É o único em toda a história da monarquia portuguesa”, salienta o historiador.

Prof e historiador George Cabral da UFPE
Prof e historiador George Cabral da UFPE © Arquivo pessoal

A Revolução de Pernambuco revela que o processo de independência do Brasil não foi nada pacífico, e, segundo o professor da UFPE, a proposta era muito mais vanguardista que o Estado-nação implementado por Dom Pedro I, em 1822.

“Você tem um movimento de muita tensão e muita violência, antes e depois do 7 de setembro. 1817 em Pernambuco é um desses projetos de independência de Estado-nação, um projeto indiscutivelmente mais vanguardista, republicano, constitucional, antenado com o que havia de mais vanguardista em termos de política e filosofia naquele momento”.

Ideais franceses

Os ideais da Revolução Francesa de 1789 — liberdade, igualdade, fraternidade — influenciaram o movimento pernambucano. “Em lugar de vossa mercê, diz-se vós simplesmente. Em lugar de senhor, é-se interpelado pela palavra patriota, o que equivale a cidadão e ao tratamento de tu. As cruzes de Cristo e outras condecorações reais abandonam as botoeiras. Fez-se desaparecer as armas e os retratos do rei”, relatou Louis-François de Tollenare. O comerciante francês estava em Recife no momento da Revolução e deixou em suas “Notas Dominicais” um dos registros mais importantes sobre o movimento.

De acordo com o historiador francês Denis Baud, que está escrevendo uma tese sobre Tollenare, o comerciante mostra que “as lojas maçônicas deram essa coloração, essa vontade de democratizar esta parte do Brasil, influenciadas pelas ideias do século 18 francês”.

Em busca de apoio e reconhecimento internacional

O governo provisório envia Antônio Gonçalvez Cruz, o "Cabugá", aos Estados Unidos em busca de apoio e reconhecimento internacional. O “embaixador” não obteve a ajuda necessária do governo americano, mas despertou a simpatia de bonapartistas que estavam exilados na Filadélfia, entre eles José Bonaparte, irmão do ex-imperador francês. Surge então o plano para libertar Napoleão Bonaparte da ilha de Santa Helena a partir de Pernambuco.

Escritor Leonardo Dantas
Escritor Leonardo Dantas © A. Brandão/ RFI

“Cabugá conseguiu com os franceses cerca de US$ 1 milhão para formar uma pequena esquadra que iria resgatar Napoleão. Ele chegou inicialmente a mandar dois navios à costa do Nordeste trazendo não só enviados bonapartistas, como também armas e suprimentos”, conta o escritor Leonardo Dantas, que tem vários artigos sobre o tema. Mas ao chegarem ao Brasil, em agosto, a República de 1817 já havia sido derrotada. Os franceses são detidos e expulsos do Brasil.

Leonardo Dantas pensa que os bonapartistas até “acreditavam na Revolução Pernambucana”, mas o principal objetivo deles era realmente soltar Napoleão que não iria, se o plano funcionasse, para Recife e sim para os Estados Unidos. “Não tem nenhum documento que comprove que Napoleão ficaria em Pernambuco. Ele usaria a República de Pernambuco para uma fuga da ilha de Santa Helena, onde ele passou seus amargos últimos dias”.

Derrota

A escravidão foi uma das questões centrais do fracasso da Revolução de 1817. “Os revoltosos defendiam a libertação dos escravos, mas como se a economia dependia dos escravos? Começa a haver uma reação entre os próprios revolucionários”, diz o arquiteto e professor da UFPE, José Luiz Menezes. “O que derrota 1817 é muito mais a contra-revolução do que as tropas enviadas pela corte”, completa George Cabral.

Arquiteto José Luiz Mota Menezes, professor da UFPE.
Arquiteto José Luiz Mota Menezes, professor da UFPE. © A. Brandão/ RFI

A República de Pernambuco, que teve a adesão de outras províncias do Nordeste, durou apenas dois meses. Ela foi derrotada em 19 de maio. A devassa imposta pela Corte condenou, executou, esquartejou e prendeu dezenas de revoltosos.

Legado

O escritor Ronaldo Correia de Brito lembra que Pernambuco, que havia expulsado os holandeses no século 17, tem um passado de lutas que se revelou também na Confederação do Equador, em 1824. “Sem dúvida Pernambuco e seu povo se alimentaram desse sentimento revolucionário, dessa revolta, que deu em mortos, banidos e muita tristeza. Mas deu também um poema, talvez de nosso maior poeta João Cabral de Melo Neto, que eu considero o mais belo poema em língua dramática da língua portuguesa: “O Auto do Frade”, afirma o escritor.  Ele acredita que “decadência da região Nordeste começou com a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, época da primeira revolução pernambucana”.

Escritor Ronaldo Correia de Brito.
Escritor Ronaldo Correia de Brito. © A. Brandão/ RFI

Desenhos e relatos de viajantes, como o do francês Tollenare, foram utilizados pelo arquiteto José Luiz Menezes para reconstituir a cidade de Recife em 1817. Baseado nesse trabalho, ele conseguiu localizar os principais locais dos acontecimentos do movimento revolucionário, detalhados no livro “O Recife da Revolução Pernambucana”. Hoje, esses marcos têm placas indicativas de azulejo para que a população não esqueça a história e o legado dessa primeira experiência republicana no Brasil, minimizada pela narrativa oficial.

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