“Au revoir Napoleão”: A relação entre o Brasil e o imperador francês acaba em samba

Napoleão no desfile da escola de samba Imperatriz Leopoldinense em 2008. O folião é João Helder.
Napoleão no desfile da escola de samba Imperatriz Leopoldinense em 2008. O folião é João Helder. © Arquivo pessoal

A transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808, provocada pela invasão de tropas de Napoleão Bonaparte a Portugal, ainda inspira e fascina os brasileiros. Livros sobre o “Período Joanino” se transformam em best-sellers e a chegada de Dom João ao país virou até samba-enredo que dá “adeus a Napoleão”.

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“(...) e o imperador francês/Ordena a invasão/Ou ficam todos/Ou todos se vão/Embarcar nessa aventura/E "Au revoir Napoleão", canta o samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense.

“Adeus Napoleão é porque a família real portuguesa veio toda para o Brasil. Não ficou ninguém lá para ser sitiado, virar prisioneiro”, explica a carnavalesca Rosa Magalhães que desenvolveu esse enredo histórico para a tradicional escola de samba carioca.

O samba-enredo “João e Marias” embalou o desfile de 2008, ano de comemoração do bicentenário da chegada da corte portuguesa ao Brasil.

“Napoleão não foi exatamente a fonte de inspiração, foi o causador da inspiração porque tudo começou quando ele se dispôs a invadir Portugal. D. João mudou-se com toda a sua corte para o Brasil e o Rio de Janeiro passa a ser a capital do império português”, conta Rosa Magalhães que lembra que essa transferência “trouxe um desenvolvimento rápido e importante para a cidade”.

Carnavalesca Rosa Magalhães da Imperatriz Leopoldinense
Carnavalesca Rosa Magalhães da Imperatriz Leopoldinense © Arquivo pessoal

O enredo enfoca as biografias das “Marias” da vida de Dom João: a rainha Maria I, mãe do príncipe regente, e Maria Leopoldina, a nora, que deu nome à escola de samba Imperatriz Leopoldinense.

“A Leopoldina se casou aqui e resolveu não voltar para Portugal. Ela e o marido (Dom Pedro) fizeram a independência do Brasil exatamente porque não quiseram voltar para lá”, diz a carnavalesca. O samba-enredo canta ainda que a primeira imperatriz brasileira era irmã da segunda mulher de Napoleão, Maria Luísa.

A Imperatriz Leopoldinense não ganhou o carnaval de 2008, ficou em 6° lugar, mas seu enredo histórico e samba-enredo foram premiados com o Estandarte de Ouro do ano. “Virou um sambão, fez sucesso. A reação do público foi muito boa porque é uma história que todo mundo já conhece, de uma certa forma, do colégio”, acredita Rosa Magalhães.

Passeio pelo Jardim Botânico

Conversas com turistas que passeiam pelas belas alamedas do Jardim Botânico, criado por D. João assim que chegou ao Rio de Janeiro, mostram que a lembrança dessa história é distante. Todas as pessoas entrevistadas pela reportagem da RFI já ouviram falar de Napoleão, de D. João ou da transferência da corte, mas de maneira imprecisa.

O militar Rômulo Vinícius, de Duque de Caxias, confessa que “estudou isso no colégio, mas tem muito tempo e não me recordo”. Ana Beatriz, estudante de Direito de Conde, na Bahia, também não lembra e para se desculpar afirma que “eu não sou daqui do Rio”.

A fisioterapeuta Maria Socorro, do Amazonas, garante que conhece a história, mas não gosta de falar sobre “assunto que tem a ver com coisa política”.

“Se não me engano, Napoleão tem a ver com a Revolução Francesa ou com a expulsão da família real que veio para o Brasil, fundou o Jardim Botânico, o Banco do Brasil, ...”, arrisca Vinícius, estudante de engenharia de Aracaju. Ao saber que estava certo, comparou: “pode ter tido malefícios na Europa, mas aqui no Brasil pode ter ocorrido alguns benefícios”.

Natacha, auxiliar de escritório de Duque de Caxias, não tem certeza sobre a nacionalidade de Napoleão, mas lembra que ele "era do mal". “Ele era um capitão, se não me engano do Exército francês. Ele era bem ruim. Ele não pensava nas pessoas, pensava em conquistar, fazer guerra.” Sobre a vinda da corte portuguesa para o Brasil, Natacha acha que “foi bom porque a gente teve uma visão maior do mundo, mas foi ruim porque a gente perdeu um pouco da nossa identidade para pegar um pouco da identidade portuguesa”.

Best-seller

Uma prova de que os brasileiros se interessam por esse período é o sucesso do livro “1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte portuguesa enganaram Napoleão Bonaparte e mudaram a História de Portugal e do Brasil”. A narrativa histórica trouxe fama ao jornalista e escritor Laurentino Gomes. O livro lançado em 2007, vencedor do prêmio Jabuti e o de Melhor Ensaio da Academia Brasileira de Letras, já vendeu mais 1 milhão de exemplares. Laurentino Gomes não esperava tanto sucesso.

O jornalista e escritor brasileiro Laurentino Gomes durante uma entrevista à AFP em Brasília, em outubro de 2019.
O jornalista e escritor brasileiro Laurentino Gomes durante uma entrevista à AFP em Brasília, em outubro de 2019. AFP

“Achei que tivesse feito uma boa reportagem. Na época um amigo até me desaconselhou a escrever. ‘Ninguém quer saber do Dom João. O Brasil não se interessa por história’. Descobri que o Dom João, apesar das dificuldades pessoais, é muito admirado no Brasil de hoje, ao contrário de Portugal onde até hoje ele é visto como um traidor”, assegura o escritor.

O jornalista se interessou por este período da história do Brasil porque “não existe nenhum outro momento de transformações tão profundas e aceleradas como esses brevíssimos 13 anos de permanência da corte de Dom João no Rio de Janeiro”.

Segundo ele, no “Brasil Joanino” nasceu o país que temos hoje, positiva e negativamente falando: “O Brasil como um país de dimensões continentais, a identidade nacional, mas também nasceu ali, ou se agravou, o clima de toma lá, dá cá, de promiscuidade entre interesses públicos e privados. Houve muita corrupção na época de D. João. O Estado controlava tudo, inibia a iniciativa privada. Manteve-se a escravidão, o analfabetismo não foi resolvido, todos esses aspectos que hoje ainda nos assolam”, afirma Laurentino Gomes.

Laurentino Gomes, que depois de “1808”, escreveu “1822”, “1889” e acaba de lançar o primeiro volume de sua nova série “Escravidão”, diz que deve o sucesso de seus livros a Dom João, uma espécie de “patrono” dele como escritor. “E o Napoleão?”, perguntei ao jornalista. “Ah, meu grande padrinho mesmo é o Napoleão, e o segundo o Dom João”, respondeu Laurentino Gomes brincando.

Napoleão Bonaparte (1769-1821), o primeiro imperador dos franceses, governou a França por quase 15 anos, decretou guerra às monarquias da época e conquistou quase toda a Europa. Em 1807, mandou suas tropas invadirem Portugal que, aliado histórico dos ingleses, não respeitou o Bloqueio Continental decretado pela França contra a Inglaterra. A invasão provocou a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, criando uma situação que em poucos anos levou à independência do Brasil.

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