Imprensa francesa lembra 400 mil mortos por Covid-19 no Brasil e indiferença de Bolsonaro

"A Covid já matou mais de 400 mil brasileiros" é manchete no jornal Les Echos desta sexta-feira (30).
"A Covid já matou mais de 400 mil brasileiros" é manchete no jornal Les Echos desta sexta-feira (30). © Fotomontagem RFI/Adriana de Freitas

A marca dos 400 mil mortos por Covid-19 no Brasil tem grande destaque na imprensa francesa desta sexta-feira (30). Os jornais lembram a ausência de qualquer declaração ou pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro sobre esse trágico número.

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"A Covid já matou mais de 400 mil brasileiros", é a manchete no jornal Les Echos desta sexta-feira (30). O correspondente do diário em São Paulo, Thierry Ogier, escreve que o ritmo da mortalidade acelerou nas últimas semanas no Brasil, quadruplicando em apenas um mês. "Os últimos 100 mil óbitos foram registrados nos últimos 36 dias",  diz a matéria.

O repórter do Les Echos entrevistou Mauro Quijada, presidente da Associação Brasileira das Vítimas da Covid. Para ele, a chegada aos 400 mil mortos pela doença "é um dos capítulos mais tristes da história do povo brasileiro".

Les Echos também destaca a previsão do neurocientista Miguel Nicolelis, para quem esse número é "a crônica de uma morte anunciada". O especialista acredita que a chegada aos 500 mil óbitos por Covid-19 no Brasil deva acontecer nos próximos quarenta dias. 

Enquanto isso, destaca a imprensa francesa, é impressionante o silêncio da parte do governo federal que realiza uma gestão "mortífera" da epidemia no Brasil, publica Les Echos. O jornal lembra que a política adotada por Bolsonaro está na mira de uma CPI que, na próxima semana, vai ouvir os quatro ministros da Saúde que o país teve durante a crise sanitária.

Brasil: cada um por si

"A onipresença da morte, chave do fatalismo brasileiro diante da Covid-19" é manchete do jornal Le Monde. O correspondente do diário no Rio de Janeiro, Bruno Meyerfeld, escreve que "a pandemia atinge duramente o país em grave crise econômica, historicamente marcado pela violência, e onde triunfa, a cada dia mais, a ideia do cada um por si".

O jornalista questiona como é possível que Bolsonaro consiga permanecer no cargo, diante da tragédia humanitária da qual o país é palco. "Sua responsabilidade neste drama é impressionante", diz o Le Monde, lembrando que "Bolsonaro frequentemente negou a existência da pandemia, impediu restrições sanitárias, recusou a negociação das vacinas e desacelerou as campanhas de imunização".

Para o correspondente, em qualquer outra democracia, seria difícil imaginar que um líder como esse se mantivesse na cúpula do Estado. "E apesar de tudo isso, o presidente brasileiro continua amarrado no poder, dispondo de uma popularidade intacta entre 25% a 30% da população e uma sólida maioria no Congresso", reitera Le Monde. 

A matéria afirma que, há um ano, nenhuma grande manifestação veio contestar o governo de Bolsonaro. Diferentemente do que ocorreu no Chile, na Argélia, no Líbano, no Iraque ou em Hong Kong, os brasileiros não ocuparam as ruas para expressar sua revolta, se contentando com pequenas carreatas e panelaços das janelas de suas casas. "Os protestos são tímidos, até insignificantes, em comparação ao desmoronamento vertiginoso do país", salienta. 

Banalização das mortes

O correspondente do Le Monde no Rio de Janeiro tenta apontar algumas razões para esse tipo de comportamento, como a fidelidade do eleitorado de Bolsonaro, o medo da volta da esquerda ao poder, a crise econômica, a banalização da morte, que se acentuou com a pandemia, mas que já é parte do cotidiano dos brasileiros: em média, mais de 70 mil pessoas morrem por ano no país devido à violência. "Por isso, não é impressionante que o uso da máscara seja tão pouco respeitado, que medidas de lockdown sejam raramente aplicadas, que as manifestações contra o governo sejam pouco numerosas", escreve.

Meyerfeld destaca frases que ouve frequentemente dos brasileiros: "tenho mais medo de morrer de fome ou por um tiro na rua do que morrer de Covid". Segundo o jornalista, tudo isso favorece Bolsonaro, "um presidente populista que, no passado, convocou o massacre dos índigenas e dos militantes da esquerda, zombou das vítimas da Covid". 

Para Le Monde, a indiferença do presidente em relação à vida dos cidadãos ficará marcada pelo emblemático "E daí?", proferido por Bolsonaro, em abril ano passado, quando o Brasil havia ultrapassado cinco mil mortes pela Covid-19. 

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