A luta de Alexya, mãe de duas meninas também trans e um menino com necessidades especiais

"Assumida" só depois de adulta, Alexya batalha para que as filhas e o filho não sofram o preconceito que ela enfrentou na infância e juventude.
"Assumida" só depois de adulta, Alexya batalha para que as filhas e o filho não sofram o preconceito que ela enfrentou na infância e juventude. © Arquivo pessoa/ RFI

A trans Alexya Salvador contou à RFI os dramas que viveu e o esforço para garantir aos filhos uma vida com menos preconceitos. Pastora e professora, ela adotou duas meninas trans e um garoto com necessidades especiais.

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Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

Foram quase quatro anos de economias para realizar um dos maiores sonhos: o implante de silicone, para completar o visual de cabelos compridos, maquiagem e salto alto. Alexya Salvador, mulher trans, tinha à época 34 anos e muitos planos, mas a ordem deles bagunçou quando trocou olhares com Gabriel, o garotinho de nove anos que estava sozinho num canto do orfanato onde ela e o marido Roberto prestavam serviços sociais. Especial, com o físico perfeito mas com limitações cognitivas, o menino fisgou na hora o casal e um filme passou na cabeça de Alexya: as inúmeras vezes em que ela ficou num canto da escola chorando depois de levar socos e pontapés, ou para fugir de xingamentos e dos olhares fuziladores dos colegas.

Uma das funcionárias do abrigo até tentou demovê-la da decisão (“vai adotar justamente o menino com problema?”), porém naquele momento a cirurgia para a colocação dos seios estava definitivamente adiada e o sonho de ser mãe pulou na frente dos outros. “Eu nasci para ser mãe. E aquelas palavras questionando a decisão só me reforçaram. Seria o Gabriel. Eu tinha certeza disso.”

As economias serviram para reformar a casa que agora tinha um novo membro e garantir assistência médica ao filho. Naquela época, em 2015, Alexya era professora da rede pública, mas ainda não estava efetiva. Como mãe, não poderia mais correr riscos financeiros. A primeira trans a concluir um processo de adoção no país logo ganhou as páginas de jornais e a revelação de outro desejo, o de adotar uma criança trans, acabou chegando ao gabinete de uma juíza de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. E assim, no ano seguinte, uma ligação telefônica ampliou a família, com a chegada de outra criança, uma menina trans de dez anos.

Pela distância e pelos custos, dessa vez a aproximação com a criança se deu num modelo que, hoje, é corriqueiro: videoconferência. Alexya mostrava como era sua vida em Mairiporã, cidade com 180 mil habitantes na Grande São Paulo, a rotina em casa com a família, na escola, as pregações e trabalhos sociais na igreja na qual é pastora, e recebia vídeos com o dia a dia da futura filha. O tema da transsexualidade só entraria em pauta se a criança tocasse no assunto. E foi num desses encontros que a menina disse que tinha um segredo, receosa de lhe faltar amor ao dizer que, na verdade, nascera menino.

Emoção ao ouvir “mamãe”

A confirmação de que jamais faltaria sentimento naquela família e a compreensão mútua entre elas de que sempre foram duas mulheres selaram a adoção da criança, que deixou para a mãe a escolha de seu novo nome. Foi quando Alexya realizou outro sonho, o de ter uma filha com o nome de sua mãe: Ana Maria. E assim como Gabriel a fez chorar quando, subitamente e em tão pouco tempo,  soltou um ‘mamãe’ num passeio de carro, a filha com nome da avó já saiu do abrigo provocando lágrimas quando gritou ‘mainha, mainha’, ao avistar o perfil de Alexya.

“Foi emocionante, lindo. Eu teria então a chance de cuidar, de ouvir, de tentar dar a uma criança trans uma vida sem tantos traumas”, relembra.

A vontade de ampliar a família não acabou por aqui. Quando receberam outro telefonema propondo uma nova adoção, em 2019, Alexya, Roberto e os dois filhos fizeram as malas na hora, pegaram o carro e desceram a Serra para conhecer a caçula.

Menina trans, decidida e questionadora, Deisy fora abandonada pelos mesmos motivos que a irmã, por não se reconhecer no corpo de menino e não se enquadrar nas expectativas dos pais biológicos. A mais nova passou por pressões psicológicas também dentro do abrigo, por uma prestadora de serviço que não a aceitava. “São crianças que foram rejeitadas, não foram aceitas por suas famílias porque são trans. E agora elas têm a oportunidade de serem quem são, com todo o apoio da mãe, do pai e do irmão. Não quero que elas passem pelo que passei. Só me assumi adulta, depois de muita dor. Sempre falo isso com elas, que a vida delas será bem diferente”, sublinha Alexya, que só aos 28 anos finalizou a transição para se tornar mulher.

"Assumida" só depois de adulta, Alexya batalha para que as filhas e o filho não sofram o preconceito que ela enfrentou na infância e juventude.
"Assumida" só depois de adulta, Alexya batalha para que as filhas e o filho não sofram o preconceito que ela enfrentou na infância e juventude. © Arquivo pessoa/ RFI

Sem referências na infância

Quando criança, ainda menino, sentia o afeto presente dos pais, mas o assunto gênero nem de longe passava pelas conversas da família católica, mesmo com o trejeito feminino que ele apresentava. Sem qualquer referência, o rapaz buscava se encontrar, apesar da culpa que sentia por ter tido um namorado aos 16 anos. “Eu me sentia um E.T. Não conhecia, por exemplo, o caso da Rogéria. Quando ouvia falar da Roberta Close, não entendia direito o que tinha se passado com ela. Já minhas filhas têm referência, tem meu apoio e amor”, ressalta.

Aquele jovem perdido então achou algum alento na própria igreja, onde chegou a cantar com a Renovação Carismática, fez seminário, estudou teologia e quase se ordenou padre. “Eu tinha e tenho fé. Sou cristã, sigo os ensinamentos de Jesus. É algo que faz parte de mim. E por isso, durante um tempo, a igreja supriu esse lado”, conta. “Mas houve um momento em que a minha essência estava sendo corrompida porque eles não me aceitavam como eu era. Não podia continuar mais. Eu tinha que decidir. Aí larguei o seminário.”

A notícia de que não haveria mais um padre na família foi comunicada numa conversa franca e aberta entre Alexya e seus pais. A mãe começou a ver ali todo o sofrimento que a filha carregou por anos, pediu desculpas por não ter compreendido antes e passou a aceitar a nova realidade. “Ela foi incrível. A reação da minha mãe foi muito importante para mim, de ter se disposto a entender e aceitar, ainda que tudo tenha sido de forma gradual. Os pais erram. Eles sempre me deram amor, mas não entendiam essa outra parte”, disse. “Sei que os meus pais não fizeram por mal. Era um outro tempo, esse assunto nem existia, era difícil até explicar o que se passava comigo. Eu não era gay. Era mulher.”

Com o pai, o acolhimento foi mais lento, até que a novela “A força do querer”, da TV Globo, deu um empurrãozinho nesse processo, ao mostrar a transformação da jovem Ivana em Ivan, por não se reconhecer no corpo de mulher. “O drama da personagem ajudou meu pai a entender o meu.”

Pais aceitaram melhor as netas

Se depois daquela conversa os pais de Alexya foram compreendendo aos poucos o que se passava com ela, a aceitação das netas teve um ritmo bem diferente. “Meu pai demorou para me chamar pelo nome feminino. Até depois que virei mãe, com a chegada do Gabriel, ele ainda trocava meu nome. Com as minhas filhas ele nunca trocou, nunca errou o nome delas, sempre no feminino, sempre com muito carinho. Desde o início meus pais aceitaram com amor minhas filhas”, revela. “Isso me deixa muito feliz. É muito bonito ver essa relação deles. É a criação de uma linda memória afetiva.”

A chegada dos filhos encheu o lar de Alexya e Roberto de alegria, mas também trouxe lembranças do bullying que ela sofreu durante toda a vida escolar, quando vivia escondendo os hematomas e a roupa suja de comida que lhe era arremessada na hora do lanche, em meio à indiferença de professores e funcionários, e à ameaça dos colegas para que não revelasse as agressões à família. Um dos golpes mais duros veio de um professor, que assistiu ao vivo à sessão de tortura dos meninos contra Alexya num ponto de ônibus, todos uniformizados, na volta da escola. Quando viu o carro do professor de educação física se aproximar, sentiu um alívio e acreditou que ele interviria a seu favor – mas o docente apenas olhou paro o chão, onde ela fora jogada para receber pontapés, e lançou: “Você não quis ser veadinho? Tem que apanhar quieto”. Foi então que os algozes espancaram para valer.

“Lembro como se fosse hoje. Eu estava na oitava série. E espero ainda encontrar esse professor, que continua dando aulas aqui na cidade. Quero olhar para ele, cobrar isso dele. Sei onde ele dá aulas, mas não vou atrás, quero que o destino faça esse reencontro na hora certa”, afirma. “Acho que ele pode ter mudado, espero que tenha mudado. Mas aquilo eu carregarei para o resto da vida”, diz.

Por essas e outras feridas, Alexya fez todo um trabalho junto aos vereadores do município e conseguiu ver aprovada, sem muita demora, uma lei que assegura o banheiro feminino para meninas trans nas escolas da cidade. “Sou uma mãe protetora. Sei que o mundo está aí e não conseguirei proteger ou estar presente sempre. Mas o que puder fazer, farei pelas minhas filhas e pelo meu filho.”

Na escola onde trabalha, onde as filhas também estudam, ela não deixa passar nenhum indício de discriminação, nem piadas ou caras e bocas. “Eu faço o barraco quando vejo alguém reduzindo ou mal tratando quem quer que seja. Não aceito preconceito contra homossexuais, trans, negros, não aceito a objetificação das mulheres. Uma vez encarei uma turma de 40 alunos quando vi para onde iam aquelas brincadeiras. No fim, a gente ajuda todo mundo, inclusive os agressores, que têm a chance de crescer, de perceber o que eles estão fazendo.”

A difícil decisão da cirurgia de transição

A maternidade também confirmou, anos mais tardes, que Alexya acertara na tomada de decisões difíceis, como a cirurgia de reversão peniana, para que ela passasse a ter o órgão genital feminino. Decidida a se operar, Alexya achava que esse era um ponto crucial na afirmação de sua feminilidade, mas prestes a ir para a mesa de cirurgia colocou na balança medos e sentimentos confusos, que a levaram a recuar na mudança interna. Hoje, sente que no seu caso foi a melhor escolha: está feliz com o corpo que tem e com a mulher que sempre se abrigou nele.

A prova maior veio anos depois, quando ajudou a filha mais velha a superar uma crise de rejeição do próprio corpo, que no caso de algumas crianças e jovens trans, pode levar à automutilação. O choro da menina virou sorriso quando se deu conta que a mãe, sua referência de universo feminino, tinha o corpo como o dela.

“Eu deixo claro que elas poderão, quando tiverem idade, optar pela cirurgia. É um direito delas. Se lá na frente, após toda preparação, decidirem por isso, terão meu apoio”, garante. “Mas quero que antes disso elas se sintam femininas também, felizes com o corpo que têm agora. Quero que sejam crianças e adolescentes seguras.”

Alexya e Roberto estão juntos antes mesmo dela completar a transição. Ele, homossexual cis (se reconhece no corpo que tem e não deseja mudar sua condição), a apoiou em todo o processo. Ao buscar um espaço religioso que os acolhesse como casal, ela conheceu a Igreja da Comunidade Metropolitana, criada nos Estados Unidos há 50 anos. Lá, ela voltou a estudar e tornou-se a primeira reverenda trans da América Latina.

Agora com a família completa, eles planejam continuar ajudando crianças e adultos que sofrem discriminação por meio de projetos sociais. “Sonho em ter uma casa de acolhimento”, diz Alexya, que também quer ampliar o diálogo com o Judiciário e outras autoridades para que a criança trans tenha seus direitos assegurados. “O Estatuto da Criança e do Adolescente é tão importante, mas não faz menção a esses meninos e meninas que existem, são incompreendidos, muitas vezes abandonados”, destaca.

Quanto à cirurgia para o implante dos seios, enfim aconteceu no ano passado – quase sete anos depois da chegada do Gabriel.

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