Em Paris, protesto contra Bolsonaro denuncia absurdos na gestão da pandemia no Brasil

Manifestação contra Bolsonaro na praça de la République, no dia 29 de maio de 2021.
Manifestação contra Bolsonaro na praça de la République, no dia 29 de maio de 2021. © Cristiane Capuchinho

Um protesto na praça de la République, local emblemático de manifestações em Paris, reuniu brasileiros para denunciar a má gestão da pandemia da Covid-19 no Brasil e pedir mais vacinas para a população na tarde deste sábado (29). Com uma paródia da peça "Ubu-Rei", marco do teatro do absurdo, os manifestantes criticaram as negativas do governo à compra de vacina e os ataques ao meio ambiente e à ciência.

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Aos gritos de "Fora Bolsonaro" e "Fora miliciano", a manifestação em Paris começou por volta das 17h (meio-dia de Brasília) aos pés da estátua da República, a famosa Marianne. O ato, organizado por coletivos brasileiros, reuniu mais de uma centena de pessoas e tinha como objetivo repercutir no exterior as manifestações realizadas no Brasil contra a administração da pandemia feita pelo presidente Jair Bolsonaro.

"Essa manifestação é em apoio aos atos que acontecem hoje no Brasil para tirar Bolsonaro do poder. É uma forma de dar respaldo aos brasileiros que estão no front, em uma situação muito mais complicada que a nossa. Aqui a maioria das pessoas presentes à manifestação já estão vacinadas", sublinhou Márcia Camargos, membro do coletivo Alerte France Brésil/MD18.

O país europeu já vacinou com uma dose 36,7% da população, e 15,8% recebeu as duas doses. A partir da próxima segunda-feira (31), todas as pessoas com mais de 18 anos na França poderão se vacinar contra a Covid-19.

Entre os manifestantes, estava a enfermeira Agnès Molnar Dupuy, que participou pela primeira vez de uma manifestação contra o presidente, segurando uma placa com os dizeres "459 mil mortos, e 1 culpado".

"É inadmissível a ignorância e o negacionismo do governo. O mundo inteiro já provou que cloroquina não funciona, e esse homem gasta dinheiro comprando isso, enquanto tem gente morrendo, tem gente passando fome, falta oxigênio. Não é possível", disse a enfermeira.

Agnès, que trabalhou na França ao longo da crise sanitária, conta que perdeu uma tia no Brasil em maio de 2020 em decorrência de síndrome respiratória aguda grave. Para ela, o número real de vítimas no Brasil é subestimado por conta da falta de testes e diagnóstico, "minha tia é uma dessas que não entrou nos números de Covid", diz.

Manifestação do dia 29 de maio em Paris

Para a mineira Geovana Passos, que se mudou para Paris há cinco meses para um doutorado-sanduíche, a diferença de tratamento da pandemia entre o governo brasileiro e o francês é evidente e deixa claro o descaso.

"No Brasil, a única decisão tomada nacionalmente é contra o combate ao vírus. Bolsonaro empreende uma política genocida, e deixa tudo a cargo de prefeitos e governadores", diz a pesquisadora de 47 anos, que já tomou a primeira dose da vacina na capital francesa.

Também vacinada com a primeira dose, outra manifestante conta que superou o receio da contaminação para poder denunciar a atuação do governo brasileiro.

"Eu acho que a comunidade brasileira no exterior tem que se mobilizar diante desta crise absurda que o Brasil está passando. Não tem como sustentar mais esse governo, que já foi responsável por tantas mortes nessa pandemia", considera Sandra.

'Bolsonarubu'

Durante o protesto, foi feita a apresentação de uma paródia da peça "Ubu Rei", de Alfred Jarry, considerado o pai do "teatro do absurdo". A sátira original é uma crítica aos abusos do poder e foi publicada em 1896.

Na adaptação feita para a manifestação, o presidente virou "Bolsonarubu rei", um personagem que rejeita a compra de vacinas da Coronavac em 2020, dizendo que todos vão "virar jacaré", trata cientistas de comunistas e maconheiros e ameaça cortar as bolsas de estudantes e pesquisadores.

"Bolsonaro lembra demais esse personagem que quer matar todo mundo. A situação é completamente absurda, o rei está completamente fora da realidade. As falas foram tiradas de coisas que ele mesmo disse ou outras pessoas de seu governo", explica Gabriela Scheer, uma das responsáveis pela adaptação. "Teria um lado quase cômico se não fosse uma tragédia completa", analisa.

Manifestações na Europa

O ato em Paris não foi o único contra o presidente em cidades da Europa. Na manhã deste sábado, brasileiros foram às ruas de Londres com placas em homenagem às vítimas da Covid e com a pergunta: "quantos mortos mais até o impeachment?".

Em Bruxelas, sede da União Europeia, o protesto deste sábado trouxe menções ao desmatamento e às queimadas na Amazônia.

Em Lisboa, foram colocadas cruzes brancas em homenagem às vítimas brasileiras da Covid durante o protesto contra o presidente Jair Bolsonaro.

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