Intelectuais brasileiros e estrangeiros pedem justiça no Le Monde pelo massacre de Jacarezinho

ONU também pediu investigação 'independente' após a sangrenta operação policial na favela carioca.
ONU também pediu investigação 'independente' após a sangrenta operação policial na favela carioca. AP - Silvia Izquierdo

Chico Buarque de Hollanda e cerca de 20 intelectuais estrangeiros e brasileiros como o historiador e linguista Noam Chomsky, a prefeita de Barcelona, Ada Colau, a ativista indígena brasileira Sônia Guajajara e a senadora francesa Laurence Cohen assinaram uma carta aberta no jornal Le Monde desta quarta-feira (16), pedindo justiça pelo assassinato de 28 moradores da favela do Jacarezinho na polêmica e violenta operação policial do dia 6 de maio.

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“Mais uma vez, a ação da polícia, que deveria combater os narcotraficantes, foi marcada pelo uso extremo da força em desrespeito aos direitos humanos mais básicos”, diz o texto assinado pelas personalidades. A carta, que deseja dar ainda visibilidade internacional ao episódio, exige ainda o fim do sigilo sobre a investigação, a demissão dos policiais envolvidos e uma compensação para a família das vítimas.

"Guerra pelo controle de territórios"

O texto, uma iniciativa da associação Autres Brésils, lembra que "a violência policial é parte da guerra pelo controle de territórios e também dos lucros da corrupção policial". "Em duas décadas, as milícias [do Rio de Janeiro] conseguiram vencer as facções do narcotráfico [na disputa pelo poder nas favelas]. Os principais suspeitos do assassinato da vereadora negra Marielle Franco em março de 2018 são supostos milicianos", apontam.

O texto intitulado "Nós pedimos justiça pelo massacra da favela de Jacarezinho", publicado no Le Monde, considera que "essas ações violentas comprovam que o Estado e sua política de segurança não consideram moradores de bairros de baixa renda, como os do Jacarezinho, como merecedores de tratamento justo e digno". "As cenas de luta, transmitidas ao vivo pela televisão durante a operação policial, não deixam margem para dúvidas", enfatiza o documento.

Caráter "racista e antidemocrático" do Estado brasileiro

A carta lembra que diversas "organizações de direitos humanos e moradores denunciam vários abusos cometidos pela polícia". "Várias testemunhas afirmam que durante a operação as balas foram recuperadas [pelos policiais] e os corpos transportados pela polícia", diz o texto.

A entrevista coletiva das forças de segurança cariocas também foi detalhada na carta aberta publicada no jornal francês. "O delegado Felipe Curi, chefe da Delegacia Geral de Polícia, chamou os 28 moradores mortos de 'bandidos': 'Não há suspeitos aqui. Só temos bandidos, assassinos e traficantes. O que dói muito é a morte do nosso colega', disse. A polícia civil do Estado do Rio de Janeiro e o atual governo brasileiro demonstram assim claramente seu caráter bárbaro, racista e antidemocrático", concluem os intelectuais, que sublinham que a operação ocorreu apesar da decisão contrária do Supremo Tribunal Federal, "instância máxima do judiciário brasileiro".

"Desde agosto de 2020, o tribunal proibiu qualquer operação policial nas favelas durante a pandemia, exceto em casos 'absolutamente excepcionais'. Apesar dessa decisão, o ano de 2020 foi tristemente marcado pela morte de 947 pessoas mortas por policiais no estado do Rio de Janeiro", destaca o documento.

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