Tensões políticas e ambientais na Amazônia são tema de debate no Festival Biarritz América Latina

Manifestantes do movimento Fridays For Future durante protesto em São Paulo em 24 de setembro de 2021.
Manifestantes do movimento Fridays For Future durante protesto em São Paulo em 24 de setembro de 2021. AFP - NELSON ALMEIDA

O Festival Biarritz América Latina, realizado no sudoeste da França, dedicou uma mesa redonda à Amazônia nesta terça-feira (28). O evento também contou com a exibição do documentário “Les Oubliés de l’Amazonie”, da jornalista e pesquisadora belga Marie-Martine Buckens.

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Daniella Franco, enviada especial da RFI a Biarritz

Diante de um auditório lotado, os historiadores Antoine Acker (Universidade de Munique) e Irène Favier (Universidade de Grenoble-Alpes), além dos geógrafos François-Michel Le Tourneau (Centro Nacional de Estudos Científicos) e Laetitia Perrier-Bruslé (Universidade de Lorraine), debateram dentro do evento “Amazônias: desafios locais, questões globais”, promovido pelo Instituto de Altos Estudos da América Latina (Iheal), da Universidade Sorbonne Nouvelle.

Da descontrução de clichês - como “o pulmão do planeta” - a questões políticas e ambientais, os especialistas discutiram temas relacionados a essa que é uma das maiores reservas naturais do mundo. Entre eles, o consenso de que a região não é um território exclusivamente brasileiro, como chegaram a sugerir representantes do governo Bolsonaro no passado. Le Torneau lembrou que “a maior floresta tropical da Terra é dividida por nove países”: Brasil, Peru, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Guiana, Suriname, Equador e Guiana Francesa.

Para o mediador do evento, o historiador Olivier Compagnon, da Universidade Sorbonne Nouvelle, diante dos acontecimentos que classifica como “recentes e permanentes” em relação a Amazônia, é essencial tratar deste assunto com o público do Festival Biarritz América Latina.

“A Amazônia é um recurso essencial a ser preservado no quadro global das mudanças climáticas. Além disso, acompanhamos as notícias alucinantes sobre o desmatamento e os incêndios florestais durante o governo Bolsonaro e os protestos das populações indígenas em Brasília. Diante de todas essas tensões, acredito que é preciso chegar à melhor arbitragem possível para não sacrificar o meio ambiente”, avalia.

Participantes da mesa redonda “Amazônias: desafios locais, questões globais”, nesta terça-feira (28), no Festival Biarritz América Latina.
Participantes da mesa redonda “Amazônias: desafios locais, questões globais”, nesta terça-feira (28), no Festival Biarritz América Latina. © Daniella Franco/RFI

Compagnon reconhece a dificuldade de tratar deste assunto sensível fora do Brasil, o que nem sempre visto com bons olhos pelos políticos brasileiros. “Temos a sorte de estar na França e podemos falar livremente sobre essa questão. No contexto atual, sabemos que há uma política deliberada de Bolsonaro, sobretudo junto ao agrobusiness, que resulta em níveis de desmatamento inacreditáveis”, destaca.

 

Sobre o interesse do público de debater sobre questões relacionadas à América Latina, o historiador, que organiza este evento do Iheal há cerca de 15 anos em Biarritz, afirma que a cada edição do festival, entre 200 e 250 pessoas marcam presença na mesa redonda.

“No começo dos anos 2000, quando houve a guinada à esquerda, com Lula e Chávez, havia uma grande curiosidade para saber o que acontecia na região, mas hoje, diante da ascensão do conservadorismo, sabemos que não é mais esse o caso. De todo o jeito, a problemática da Amazônia é internacional e diz respeito à França também já que a Amazônia se estende até a Guiana Francesa”, lembra.

Os esquecidos da Amazônia

Sala lotada também nesta terça-feira para assistir “Les Oubliés de l’Amazonie” (Os Esquecidos da Amazônia, em tradução livre), documentário realizado em 2017 pela jornalista e pesquisadora belga Marie-Martine Buckens. No trabalho, ela retrata o cotidiano da população ribeirinha do Norte do Brasil pressionada a aderir a medidas pseudo-ambientais, com a cumplicidade de algumas ONGS e o Ministério do Meio Ambiente, e em benefício de grandes multinacionais.

Em entrevista à RFI, Buckens destaca não apenas as causas do desmatamento, mas a evolução da destruição da Amazônia “há séculos”. Para realizar o documentário, ela se dedicou a meses de pesquisas e entrevistou responsáveis de fundações e das ONGs WWF e Greenpeace, além de intelectuais, escritores e cientistas da Universidade de Manaus.

“Enfrentei dificuldades para poder filmar na reserva do Juma, da Fundação da Amazônia Sustentável (FAS), que se enrolou para me conceder uma autorização. Também precisei esperar durante mais de dez horas para que seu diretor aceitasse me receber e responder às minhas perguntas. Da parte da Coca-Cola, que financia o projeto da FAS sobre o qual tratávamos, eles adiaram a nossa entrevista até o dia no qual estava marcada a nossa viagem de volta”, relembra.

Buckens considera que o desmatamento da Amazônia é um assunto sensível entre os brasileiros, mas acredita que essa suscetibilidade é justificável. “Eles desconfiam de todos esses estrangeiros que querem explicar como eles devem gerenciar seu próprio patrimônio natural. Eu os compreendo: o que pensaria um francês ou um belga se organizações brasileiras viessem nos dizer como administrar as florestas na Europa?”, questiona.

A documentarista também salienta que para a maioria dos brasileiros, que vivem em zonas urbanas distantes da Amazônia, esse é um território desconhecido e misterioso. “Para eles, é um lugar fantasmagórico, povoado de animais fascinantes, mas perigosos, atravessado por rios impetuosos e onde moram índios pobres”, diz.

Buckens lamenta a falta de familiaridade por parte da maioria dos brasileiros com a população cabocla, “que constitui portanto, e de longe, a vasta maioria do povo amazônico”. “São eles, esses ‘esquecidos’ que eu quis mostrar em meu documentário”, conclui.  

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