Velório de Marília Mendonça reúne fãs da artista que mudou o status da mulher na música brasileira

Marília Mendonça durante o programa "Tamanho Família", da Rede Globo. Em abril de 2017.
Marília Mendonça durante o programa "Tamanho Família", da Rede Globo. Em abril de 2017. Mauricio FIDALGO Globo TV (Brazilian TV channel)/AFP/Archivos

“Quando ouvimos sua voz pela primeira vez, sabíamos que a ouviríamos para sempre. Você cantou todas nós”. A frase está em uma entre tantas coroas de flores que chegaram ao ginásio de Goiânia nesse sábado (6) para o velório de Marília Mendonça.

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Por Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

A homenagem deixada pela dupla Anavitória mostra duas façanhas da artista, ressaltadas por admiradores e também por músicos: a revolução que ela fez num ramo musical dominado por homens, que sempre arrastou multidões Brasil afora, mas que tinha mulheres apenas na plateia e nunca no palco; e a ponte que ela conseguiu tão bem construir com outros gêneros da música.

“Marília Mendonça sintetiza algumas aptidões, alguns talentos em uma única figura. Além disso eu destaco a questão feminina, de ela ter colocado a mulher na primeira pessoa, colocado a mulher no centro, no protagonismo das canções, capturando esse espírito da época que a gente está vivendo, e fazendo uma revolução na música sertaneja e na música popular de forma geral”, disse à RFI o produtor e crítico musical João Marcello Bôscoli.

Compositora, de vozeirão marcante, ela fez parcerias com inúmeros músicos e deu voz à mulher apaixonada, à mulher abandonada, à mulher que trai, que é amante, que decide terminar um relacionamento.

Não aceitou o nosso fim

tá desesperado falando de mim

tá me queimando por aí

meu nome na tua boa está bem docinho

A morte trágica e precoce abalou um país, gerando reações desde o presidente Jair Bolsonaro a Gilberto Gil, passando por uma multidão que tem na ponta da língua letras de suas músicas e a lembrança da artista descontraída, que mesmo no auge de sua carreira tinha um jeito simples e carinhoso. Foi assim no último show que fez em Sorocaba, interior de São Paulo, quando recebeu no camarim Valentina, de 9 anos, e depois levou para o palco a menina com Síndrome de Down que havia saído com a família de São Paulo para ver a apresentação da cantora. “Tratou a Valentina como rainha”, contou o pai da criança.

Talento para cultivar fãs

A artista tinha um jeito de cultivar os fãs, de abrir um canal de confiança com eles. “Desde os 12 anos tem músicas gravadas. Registrou mais de 200 composições. Se ela fosse só compositora, ela já teria uma carreira bem-sucedida. Uma cantora com voz bonita, que cantava bonito, uma voz potente, afinada. E uma figura pública com uma inteligência emocional altíssima. Com uma capacidade de se comunicar tanto digitalmente quanto ali ao vivo nos seus shows, no seu camarim depois recebendo o público”, acrescentou Bôscoli.

João Marcelo Boscoli - produtor musical

Esse modo de cativar amigos e admiradores foi ressaltado por muitos artistas que conviveram com ela. “Estou aqui arrasada com a morte da Marília. Uma menina genial, brilhante no seu segmento como compositora. Uma pessoa jovem, carinhosa, maravilhosa, que deixa um filho pequeno. É uma perda irreparável”, revelou nas redes sociais a cantora Gal Costa, que pediu uma música a Marília, gravada pelas duas:

Tô te cuidando de longe

Tô te amando no meu canto

Diga que está feliz

Que daqui eu vou me virando

E se eu tiver distante

Não quer dizer que eu não ame

Tô ensaiando a despedida

Mesmo tendo outros planos

Marília está no álbum de Gal e é citada duas vezes na canção “Sem samba não dá”, de Caetano Veloso, quando lista diversos artistas da música brasileira e a chama de Maravilha Mendonça. O arrebatamento diante das Patroas (em que Marília canta com Maiara e Maraísa) e do trecho do show em que Leo Santana se apresenta ao lado dela e da banda Didá era tão grande que me pareceu justo que ela surgisse duas vezes na canção”, justificou Caetano lamentando a morte da jovem artista.

Pessoas se viam em suas canções

Desde a madrugada alguns fãs já faziam fila na frente do ginásio na capital de Goiás, estado onde ela nasceu e é berço de muitos cantores sertanejos. Gente famosa, gente simples, pessoas que de alguma forma se viam naquelas letras que tratavam com deferência toda mulher e todo tipo de sofrimento, inclusive o de quem só encontrou sobrevida na prostituição:

Hoje você me vê assim e troca de calçada

Mas se soubesse um terço da história

Me abraçava e não me apedrejava

É claro que ela já sonhou em se casar um dia

Não estava nos planos ser vergonha pra família

Cada um que passou levou um pouco da sua vida

E o resto que sobrou ela vende na esquina

“Tinha apenas 26 anos, toda uma estrada pela frente! Não posso acreditar. Integrante fundamental de uma geração brilhante de cantoras que trouxe o universo feminino para o ritmo sertanejo”, afirmou o ator Lúcio Mauro Filho. Marília fez isso, colocou o sentimento feminino como sujeito de um gênero musical e não lhe deu apenas o histórico papel secundário.

E todo esse caminho eu sei de cor

Se eu não me engano, agora vai me deixar só

O segundo passo é não me atender

O terceiro é se arrepender

Se o que dói em mim doesse em você!

“Marília era uma menina brilhante, uma grande compositora, um ícone brasileiro!”, escreveu a apresentadora Ana Maria Braga, entre tantos outros milhares de comentários que tomaram as redes sociais. “Me recuso acreditar, me recuso”, publicou o jogador Neymar.

Adele brasileira

Houve repercussão também na imprensa internacional, com alguns jornais a descrevendo como a Adele brasileira e afirmando que a comoção no Brasil lembra a despedida de Amy Winehouse no Reino Unido.

Em um país com números tão absurdos de violência doméstica, Marília defendia as causas femininas e traduzia o universo complexo da mulher em suas canções de forma simples, falando de mulher para mulher.

Pra você isso é amor

Mas pra ele isso não passa de um plano B

Se não pegar ninguém da lista, liga pra você

Te usa e joga fora

Ele tá fazendo de tapete o seu coração

Promete pra mim que dessa vez você vai falar não

De mulher pra mulher, supera

No último show, no dia 1°, ela parou a música quando avistou do palco um homem agindo de forma agressiva contra a namorada.

O Cenipa, órgão da Aeronáutica que apura acidentes aéreos, vai investigar as causas da queda da aeronave que levava a artista. A polícia vai apurar se houve responsabilidade criminal na tragédia.

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