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Congresso de Cancerologia discute como tratar doentes com escassez de recursos gerada pela pandemia

Congresso Brasileiro de Cancelorogia discute desafios para superar falta de recursos gerados pela pandemia
Congresso Brasileiro de Cancelorogia discute desafios para superar falta de recursos gerados pela pandemia © Divulgação
Texto por: RFI
5 min

Começa nesta sexta-feira (25) e vai até amanhã o 22º CONCAN (Congresso Brasileiro de Cancerologia), promovido pela Sociedade Brasileira de Cancerologia. Nesta edição, que acontece no complexo do World Trade Center, em São Paulo, o encontro reunirá 196 especialistas, sendo 25 estrangeiros. Em tempos de Covid-19, grande parte das plenárias acontecerá virtualmente, abordando diferentes temáticas, como terapias e novos tratamentos.

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Uma das principais dificuldades dos oncologistas, em várias partes do mundo, é lidar com a falta de recursos, atualmente destinados em massa para as pesquisas ligadas ao SARS-Cov-2. O mesmo problema pode ser observado nos hospitais, e muitos pacientes, seja no Brasil ou em outros países, tiveram seus tratamentos e cirurgias interrompidos.

“Houve uma defasagem muito grande. Mais de 50 mil pacientes ficaram sem tratamento no Brasil por causa da Covid-19. Cirurgias e diagnósticos foram atrasados, além de seções de Quimioterapia e Radioterapia. Está um caos. A área do câncer está um caos. Vai faltar dinheiro para o câncer, porque ele vai todo para a Covid”, diz a oncologista e imunologista brasileira Nise Yamaguchi, que coordena o Congresso.

As pesquisas também estão paradas diante da urgência da situação sanitária, lembra. “Algumas delas, que já estavam em andamento continuam, mas no mundo, o Brasil está muito longe do que deveria estar em termos de pesquisa”, observa.

Desafio tecnológico

Em tempos de Covid-19, grande parte das plenárias do CONCAN acontecerá virtualmente, abordando diferentes temáticas. Organizar um evento deste porte diante contexto sanitário atual é, antes de tudo, um desafio tecnológico, lembra a oncologista brasileira.

“São quatro salas concomitantes, com uma tecnologia que ainda estamos alinhando diz. “Teremos discussões sobre Medicina personalizada e de precisão, Inteligência Artificial, tratamentos moleculares, cirurgias robóticas, minimamente invasivas, tratamentos de precisão em radioterapia e hematologia e Medicina de integração, de suporte ao paciente. É um grande evento com palestras que mostram como prevenir e tratar os pacientes com câncer de uma forma muito avançada”, explicou à RFI Brasil.

Acesso à Imunoterapia

O acesso à Imunoterapia também será discutido no evento. O tratamento, que existe há poucos anos, “ensina” o próprio sistema imunológico a se defender das células tumorais e tem sido eficaz em vários tipos de câncer, como o de pulmão, por enquanto. Há relatos de pacientes com metástases, com pouco tempo de vida, que tiveram remissão total.

Neste contexto, a oncologista lembra que um dos convidados de honra deste ano é o imunologista japonês Tasuku Honjo, prêmio Nobel de Medicina em 2018, pela descoberta de uma proteína, a PD-1, essencial no desenvolvimento da Imunoterapia que, no Brasil, infelizmente está restrita à rede de saúde particular.

“O paciente da rede privada recebe esse tratamento, mas o da rede pública não tem acesso a nenhuma medicação. Isso é muito grave porque cria uma diferença de acesso. Hoje também existem muitos tipos de câncer cujo melhor tratamento é com alvo molecular, e não Quimioterapia, que o paciente também não consegue obter no SUS (Sistema Único de Saúde)”, diz.

Muitas entidades e especialistas, lembra, têm batalhado para liberar a medicação para o câncer na rede pública mais rapidamente. “Usando mais, o preço acaba diminuindo. Essa medicação de ponta é muito cara, então o objetivo é trabalhar na diminuição de impostos, preços e melhorar acessos”, frisa.

Os parcos recursos e as diferenças de atendimento na rede pública e privada estão no centro das discussões do Congresso e são “uma fonte de angústia permanente” para os oncologistas, diz a médica. “Uso a minha experiência em centros de referência, como os hospitais Sírio Libanês, Albert Einsten e Nove de Julho, em São Paulo, e uso o que posso para levar esse conhecimento para o SUS e a Agência Nacional de Saúde”, declara a especialista, que há algum tempo decidiu se dedicar às questões de política e governança.

A oncologista também elogia o trabalho realizado pelo movimento TJCC (Todos Juntos Contra o Câncer), que reúne representantes de diferentes setores voltados ao cuidado do paciente com câncer que, nos anos 2000, criou uma lista com as principais necessidades dos doentes que deveriam ser supridas. “Acredito na mudança. Passamos por exemplo, com o INCA (Controle Nacional do Controle do Tabagismo) a lei de controle do tabaco no Brasil) ”, exemplifica a especialista.

Política

Nise Yamaguchi integra o Conselho Científico do Ministério da Saúde e chegou a ser cotada a assumir a Pasta da Saúde, depois de defender (e continuar defendendo) publicamente o uso da hidroxicloroquina nos tratamentos contra a Covid-19, assim como o presidente Jair Bolsonaro. Difundida pelo francês Didier Raoult, a terapia foi alvo de estudos que provaram que ela não reduz a mortalidade contra o SARS-Cov-2.

O professor de microbiologia francês, chefe do setor de doenças infecciosas do hospital de Marselha, também é alvo de uma queixa conjunta no Conselho Regional da Ordem de Medicina da região. Ele é acusado de promoção de um tratamento ineficaz, mas continua defendendo a molécula e questionando as medidas de restrição impostas pelo governo. Para ele, o vírus é “menos perigoso” do que parece e as autoridades divulgam notícias “alarmistas” em torno da situação epidêmica em Marselha e na França.

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