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Como o trabalho de vencedores do Prêmio Nobel de Medicina 2020 impactou a vida de milhões

Dr. Eduardo Carlos Brandão, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, conversou com a RFI sobre o Prêmio Nobel de Medicina, entregue nesta seguna-feira (5).
Dr. Eduardo Carlos Brandão, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, conversou com a RFI sobre o Prêmio Nobel de Medicina, entregue nesta seguna-feira (5). © Reprodução Zoom
Por: Márcia Bechara
4 min

Na segunda-feira (5), o britânico Michael Houghton e os norte-americanos Harvey Alter e Charles Rice venceram o Prêmio Nobel de Medicina de 2020 pela descoberta do vírus da hepatite C. Uma “descoberta histórica, fruto de 30 anos de trabalho de três gênios da ciência”, segundo Eduardo Carlos Brandão, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia. Ele comenta à RFI os benefícios e impactos dessa descoberta no tratamento de uma infecção antes considerada incurável pela medicina.

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O especialista Eduardo Carlos Brandão, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, lembra que a hepatite C recebeu esta denominação “apenas em 1989, quando o vírus da doença foi geneticamente identificado”. “O conceito de hepatite C já existia anteriormente como o conceito de ‘hepatite não-A e não-B’. Até este momento, conhecia-se apenas esses dois tipos da doença – a hepatite A, de transmissão oral e fecal, pela contaminação da água e dos alimentos, e a hepatite B, que se transmite predominantemente pela via sexual e parenteral”, conta.

No entanto, os cientistas perceberam que havia outros casos de hepatite que não poderiam ser atribuídos aos vírus A e B. “Em 1974, um cientista norte-americano chamado Stephen Feinstone deu essa denominação de hepatite não-A e não-B. Somente 15 anos depois esse grupo de pesquisadores de um laboratório californiano isolou, sequenciou e clonou o vírus da hepatite C. Eles fizeram este trabalho a partir de uma ‘soroteca’ de seres humanos, uma biblioteca de soros de casos de hepatite não-A e não-B”, relata Brandão.

“O Charles Rice [um dos cientistas vencedores do Nobel 2020 de Medicina] fez a confirmação de que a hepatite C desenvolvia infecção não apenas em humanos, mas também em outros primatas. Esse prêmio é o reconhecimento de um trabalho de 30 anos, muito importante para a hepatite C: hoje estima-se que existam no mundo cerca de 70 milhões de indivíduos infectados com esse vírus”, afirma o médico. “É uma doença que tem muita importância para todos nós médicos porque ela não se curava em quase 80% dos casos. A pessoa fica cronicamente doente e essa doença pode evoluir para cirrose e câncer do fígado. A hepatite C é também a primeira indicação de transplante hepático em todo o mundo”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia.

Tranfusão de sangue e a hepatite C

“Como o vírus da hepatite C é de transmissão predominantemente parenteral, ele era responsável por um número imenso de casos por transfusão de sangue. Todas as pessoas que recebiam sangue até 1990, 1991, recebiam uma transfusão que não era testada para a hepatite C”, lembra Brandão. “Muita gente adquiria essa doença por transfusão de sangue, plasma e outros derivados. Depois da descoberta do vírus, foram desenvolvidos testes sorológicos para identificação do vírus da hepatite C. Os bancos de sangue passaram a fazer essa triagem sorológica”.

“No Brasil, despois dessa descoberta, a transmissão da hepatite C por via transfusional caiu dramaticamente. Hoje não temos mais casos de hepatite C por transfusão. Continuamos a ter casos dessa doença por compartilhamento de agulhas no caso de uso de drogas ilícitas ou eventualmente pelo contato sexual”, afirma.

Revolução no tratamento

“Ao longo desses últimos 30 anos, tivemos uma verdadeira revolução no tratamento da hepatite C. Sou testemunha ocular dessa mudança, porque trabalhei muito com drogas novas no tratamento da hepatite C”, conta o médico brasileiro. “No início dos anos 1990, tínhamos uma droga, que era o interferon, e a partir de 2015, há apenas 4 ou 5 anos, tivemos uma verdadeira revolução no tratamento desta hepatite, com a descoberta de uma série de medicamentos orais, que a gente chama de agentes antivirais de ação direta”, explica.

“É um tratamento que você faz de 8 a 12 semanas e que cura praticamente 98% dos pacientes. É uma verdadeira revolução. Mas o pontapé inicial começou com a descoberta desse vírus em 1989”, diz Brandão. "Nada disso teria acontecido se não fosse a descoberta desses gênios da Medicina", conclui.

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