Para manter escolas abertas, França quer usar testes de saliva contra Covid-19

O Kit Easy Cov, que detecta o Covid com uma amostra de saliva
O Kit Easy Cov, que detecta o Covid com uma amostra de saliva © Divulgação
Texto por: Taíssa Stivanin
4 min

O ministro francês da Saúde, Olivier Véran, anunciou a intenção de aumentar o rastreamento nos estabelecimentos escolares para isolar rapidamente os casos de coronavírus. A decisão foi tomada diante do avanço da cepa britânica no território, mais contagiosa e resistente, que deve se tornar predominante em março e abril. O teste de saliva, de amplificação gênica, como o PCR, deve começar a ser utilizado na próxima semana nas universidades francesas e, em março, nas pré-escolas e nos primeiros anos do ensino fundamental.

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O produto, batizado de EasyCov, existe há quase um ano e foi desenvolvido pelo laboratório Sys2Diag, dirigido pelo pesquisador francês Franck Molina, especialista em biologia sintética. Ele já é utilizado em diversos países europeus, como a Itália, Bélgica ou Espanha, e também na América do Sul e na África. Na França, seu uso foi aprovado recentemente pela HAS (Alta Autoridade da Saúde), o órgão que regula e autoriza medicamentos e produtos médicos.

A realização é simples: a saliva é recolhida com uma pipeta, debaixo da língua, e colocada em um outro recipiente, durante dez minutos, que “desestabiliza a cápsula do vírus e libera seu RNA”, explicou o cientista francês à RFI Brasil.

O método evita o uso do swab, o longo cotonete colocado no nariz para realizar o tradicional PCR, e por essa razão pode ser feito mais facilmente em crianças e adolescentes. “Quando uma criança tem um sintoma, nós a testamos, testamos seus colegas e eventualmente a classe, mas não fechamos as escolas o tempo todo”, diz Molina.

“O que conseguimos fazer foi acrescentar alguns elementos bioquímicos e de temperatura para que a saliva não destruísse o DNA imediatamente”, revela o pesquisador. A amostra em seguida é colocada em um tubo transparente e “lida” por um aparelho durante cerca de 30 minutos.

O resultado do teste é positivo se a cor do líquido se torna amarela. A sensibilidade é de 86%, de acordo com os estudos clínicos. O kit de testes francês foi elaborado em Montpellier, Nantes, Paris e Estrasburgo, associando a iniciativa pública e privada, em menos de três meses e meio.

Protecionismo econômico

Apesar do resultado do teste poder ser obtido meia hora depois de sua realização, o governo francês optou por enviar as amostras para serem analisadas em laboratório. De acordo com Franck Molina, existem as duas alternativas.

“Ou fazemos no próprio local, com nossa técnica e temos a resposta imediatamente, ou enviamos a amostra para um laboratório e aguarda 24 horas. Mas será que é razoável, quando há um cluster em uma classe, esperar 24 horas e correr o risco que toda a classe seja contaminada?”, questiona. Ele diz “não entender por que os testes devem ser enviados para um laboratório se podem ser processados imediatamente por um médico do estabelecimento".

Para o cientista francês, a estratégia governamental é puro “protecionismo econômico”. De acordo com o cientista, os laboratórios franceses, desde o início da crise, não querem perder seu mercado. “Nós temos a tecnologia para realizar e ter os resultados do teste na escola”, reitera. “Temos uma base de dados nacional e podemos contribuir ao rastreamento nacional, para saber, em tempo real, quem é positivo ou não. ”

Por hora, apenas médicos e laboratórios estão autorizados a utilizar a nova tecnologia, mas do ponto de vista operacional, seria perfeitamente possível disponibilizá-la em farmácias, por exemplo. A título de exemplo, isso possibilitaria às pessoas se testarem antes de um jantar.

Hoje, os testes de antígenos podem ser usados para esse fim, mas o alto número de falsos negativos na ausência de sintomas faz com que eles sejam pouco confiáveis. Além disso, a amostra deve ser recolhida por um profissional. “Há muita resistência financeira e proteção de mercado. Quando se trata de saúde, temos que avançar mais rapidamente”, conclui o pesquisador francês.

 

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