Profissionais da saúde na França têm medo da vacina ou aguardam doses da Pfizer

Profissional da saúde recebe dose da vacina AstraZeneca no hospital Edouard Herriot, em Lyon
Profissional da saúde recebe dose da vacina AstraZeneca no hospital Edouard Herriot, em Lyon AP - Olivier Chassignole

A vacinação contra a Covid-19 não é obrigatória na França e até agora apenas 30% dos profissionais da saúde aceitaram a imunização no país, de acordo com dados divulgados pelo ministro da Saúde, Olivier Véran, nesta quinta-feira (4). A pouca adesão gera polêmica, já que o SARS-CoV-2 é o campeão de infecções hospitalares no país: desde o início da epidemia, cerca de 27 mil pacientes foram contaminados dentro dos hospitais e 186 pessoas morreram.

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Apesar do contexto epidêmico desfavorável, apenas 25% das doses da vacina da Oxford/AstraZeneca foram utilizadas para imunizar os profissionais franceses nos hospitais. Qual é a razão dessa desconfiança em relação à vacinação?

O clínico geral francês Jérôme Marty, presidente do sindicato UFML (União Francesa para uma Medicina Livre), lembra que os profissionais da saúde franceses com mais de 50 anos receberam a vacina da Pfizer, fabricada com o RNA mensageiro e que protege mais contra as variantes sul-africana e brasileira.

Este não é o caso do imunizante da Oxford/AstraZeneca, que tem proteção limitada para essas cepas – o que levou a África do Sul a suspender a campanha. Além disso, estudos iniciais, que depois foram atualizados, questionaram a eficácia do imunizante para bloquear a transmissão do vírus, o que gerou confusão.

“Houve um questionamento sobre o nível de proteção que a vacina da Oxford/AstraZeneca proporcionaria aos profissionais no meio hospitalar, onde são submetidos a uma alta carga viral e à exposição às variantes. Por isso, no entender de muitos, precisariam da imunização mais eficaz”, explicou o médico francês à RFI Brasil. Nas redes sociais, cientistas renomados também defenderam a prioridade do uso dos imunizantes que utilizam o RNA mensageiro.

 

 

“Depois, outros estudos foram publicados e a orientação atual é vacinar todos os profissionais de saúde com mais de 50 anos com a vacina da Pfizer e os mais jovens com a AstraZeneca, porque não há doses para todos”, detalha o representante do sindicato médico francês.

As orientações, que ao longo do tempo mudaram com a publicação de novos estudos, também influenciaram na desconfiança dos profissionais. Um exemplo é o uso da vacina da AstraZeneca em maiores de 65 anos, que inicialmente foi proibido na França e na Alemanha, e agora foi autorizado.

Neste contexto, explica o clínico geral, a reticência da classe médica e de outros trabalhadores do setor em torno da imunização se expressa de duas formas. “Existe um atentismo, uma tendência a esperar um pouco antes de decidir”, explica. Mas alguns profissionais, diz, acabaram seduzidos pelas teorias do complô. “São medos infundados, sobre o fato de a vacina ser nova, ou temor de efeitos colaterais.”

Para incitar à vacinação entre os profissionais da saúde, o representante do sindicato francês pretende organizar encontros nos estabelecimentos. A desconfiança em relação à vacinação, diz, atinge principalmente enfermeiros, assistentes e outros profissionais dos setores administrativos que trabalham nos hospitais.

“Quando dialogamos, temos um efeito de grupo que pode ser interessante. É preciso reunir as pessoas, confiar nelas e conversar. Se isso não funcionar, a questão da obrigatoriedade pode ser colocada na mesa, mas em uma segunda fase. É preciso ouvir o que todos têm a dizer”, defende.

Teorias do complô

A psicóloga brasileira Tamara L., que atua em um grande hospital psiquiátrico da região parisiense, deve se vacinar em 16 de março com o imunizante da AstraZeneca. Ela já deveria ter recebido a dose em fevereiro, mas, para sua surpresa, a vacinação foi adiada por falta de pessoas interessadas.

“Houve muita propaganda ruim para essa vacina, que tem mais de 70% de eficácia. É muito mais do que a da gripe”, lembra a psicóloga. Tamara atende mais de 11 pacientes por dia. Muitos deles são crianças pequenas que não usam máscara. Algumas de suas colegas recebem os pacientes em grupos.

Ainda que exista todo um protocolo sanitário no estabelecimento, que inclui a limpeza com um produto especial e janelas constantemente abertas, o risco é permanente. A psicóloga também passa de 2 a 3 horas por dia em um trem cheio para chegar ao trabalho e voltar para casa.

Tamara trabalha em um setor médico-psicológico, de atendimento ambulatorial. Ela usa máscaras Ffp2 por conta própria para se proteger, já que só tem à disposição as cirúrgicas. De acordo com a psicóloga, o estabelecimento tem incitado os profissionais a se vacinar, mandando e-mails e telefonando. Mas a adesão é pequena.

“No meu setor, as psicólogas são mais razoáveis e estão se vacinando. Alguns enfermeiros psiquiátricos e o próprio psiquiatra também receberam a dose”, conta Tamara. "Mas, no setor ambulatorial, onde recebemos as crianças, a terapeuta psicomotora é conspiracionista e mandou um link no grupo WhatsApp do filme Hold Up" (polêmico documentário que defende que a epidemia é um complô), lamenta.

“É o discurso de sempre sobre a vacina: ‘não sabemos o que vai acontecer, tudo foi desenvolvido muito rapidamente’”, exemplifica. A psicóloga conta ainda que as secretárias do setor também são contra a vacinação, sendo que uma delas, recentemente, teve um câncer. “Muitas pessoas no meu trabalho preferem esperar. Jovens, sem fatores de risco, que não pensam na questão coletiva: se todos se vacinarem, a gente acaba logo com isso”, resume.

Obrigatoriedade

Diante do aumento das infecções nos hospitais, o debate sobre a obrigatoriedade da imunização para os profissionais da saúde, como é o caso da vacina contra a hepatite B, ganhou força nessa semana na França e divide opiniões. A polêmica surgiu depois da divulgação de dados mostrando que a Covid-19 já é a primeira causa de infecção hospitalar no país. O representante do sindicato francês pede, entretanto, que essas informações sejam analisadas com cuidado.

“Não podemos nos esquecer de que, no início da epidemia, não havia máscaras para todos, e algumas enfermeiras ou assistentes até recebiam advertências quando utilizavam além do que deveriam”, lembra Jérôme Marty. Além disso, a direção da APHP, a rede de hospitais públicos parisienses, determinou que os profissionais positivos para a Covid-19, mas assintomáticos, deveriam continuar trabalhando para suprir a falta de mão de obra. “Não podemos nos esquecer também que, antes, não era possível testar, os testes em massa e repetitivos não podiam ser feitos como agora”, diz.

O médico francês lembra que, nos EHPAD, sigla usada para as casas de repouso para idosos na França, os pacientes positivos também eram recebidos, mas as equipes não tinham a proteção necessária para evitar as contaminações deles mesmos e dentro dos locais. “Houve muita transmissão para os pacientes por culpa da direção e de dirigentes”, acusa o clínico geral francês.

Em sua opinião, também houve um relaxamento por parte dos profissionais nas últimas semanas, por conta do cansaço acumulado. “Na hora do café, as máscaras caem, como em outras horas do dia, e aí o vírus pode circular. Há, também, claro, a vacinação insuficiente. E existe o fato que, quando temos pacientes Covid em um estabelecimento, é difícil manter o vírus fechado dentro de um quarto, sobretudo o SARS-Cov-2, que transmite pelo ar, como uma nuvem de fumaça. E nesses quartos, não podemos abrir a janela”, lembra.

O governo também se engana, diz Jérôme Marty, ao esperar que, dentro de poucas semanas, a situação possa melhorar e flexibilizar algumas restrições. “É como se o vírus fosse obedecer ao presidente da República. Não funciona desse jeito. Todas as vezes que tentamos prever alguma coisa em relação a essa doença, nos enganamos", aponta.

"As pessoas que fazem esse tipo de previsão não passam de egocêntricos que precisam ter mais humildade diante dessa doença”, afirma o médico. Com uma taxa de vacinação da população estimada em 3,5%, Jérôme Marty considera impossível o controle da epidemia a curto prazo.

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