Saúde

Mais de 10% da população vive sem sentir odores

Áudio 06:06
A anosmia provoca a perda total do olfato.
A anosmia provoca a perda total do olfato. Flickr.com

Uma pesquisa realizada recentemente na França revelou que cerca de 10% dos franceses perderam total ou parcialmente o olfato. Essas pessoas, que sofrem de hiposmia ou anosmia, têm que adaptar o cotidiano para evitar acidentes domésticos ou simplesmente para encontrar prazer na hora de comer.

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A anosmia é caracterizada pela perda total do olfato, enquanto a hiposmia corresponde a perda parcial da capacidade de identificar odores. Mesmo se os dois distúrbios não se manifestam da mesma forma, eles de desenvolvem na mesma região: o nervo olfatório. Quando essa parte do corpo, situada na porção superior do nariz, entre os olhos, é atingida, seja por uma rinite intensa, um desvio de septo muito forte, que impedem o ar de chegar até a fenda olfatória, ou por diferentes tipos de lesão, ela pode afetar imediatamente o olfato. “O mais comum são as infecções virais, quando a pessoa pega um resfriado e o vírus pode inflamar o nervo. Dependendo da intensidade da inflamação, ela pode provocar uma perda total ou parcial de suas funções”, explica Richard Voegels, professor da Universidade de São Paulo e ex-presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial.

O especialista também chama a atenção para os riscos de alguns medicamentos, como as “gotinhas” usadas com frequência contra a congestão nasal. “Quando você pinga antibióticos no nariz, como as soluções de Rinosoro com Garamicima, que é tóxica para qualquer nervo, essas substância podem atingir o nervo e isso pode levar à anosmia”, comenta o médico, que já recebeu alguns pacientes nesse contexto. 

Um estudo semelhante ao realizado na França também foi feito na cidade de São Paulo, onde os pesquisadores constataram que mais de 12% da população adulta sofria de um desses distúrbios. A paulistana Juliana Millan, 31 anos, é uma delas. Vítima de hiposmia há cinco anos, ela desenvolveu a doença após uma gripe associada a um episódio severo de sinusite. “Eu fiquei sete dias com essa crise e, no oitavo dia, percebi que o cheiro do café não era mais o mesmo”, relata. Pensando se tratar de um sintoma gripal, a jovem não procurou ajuda profissional imediatamente. “Quando eu decidi ir ao médico, já era tarde. Após ter feito vários exames, as equipes confirmaram a morte parcial do meu nervo olfativo”, lembra. Deste então, sua vida mudou. “Eu sinto o cheiro, mas ele não é o mesmo que as outras pessoas sentem.”

Perda de olfato altera o paladar

Uma das principais reclamações das pessoas que sofrem de hiposmia ou anosmia é a alteração do paladar, já que, segundo vários estudos, o olfato é responsável por cerca de 90% das sensações que nos fazem apreciar um alimento. “Eu parei de comer e beber muita coisa, como refrigerante e chocolate ao leite, que não consigo mais ingerir, pois o gosto é muito ruim”, conta Juliana.

O professor Voegels explica que a língua concentra apenas a capacidade de identificar algumas características básicas dos alimentos, como salgado, doce, amargo ou azedo. “As partículas dos odores sobem por trás da boca para dentro do nariz, e é o que dá a sofisticação da gustação. Sem isso, você não vai sentir o gosto de um vinho, por exemplo”, comenta o otorrinolaringologista. “Quando a pessoa perde esses prazeres é que ela percebe quão importante é o olfato”, diz o médico.

Não sei qual é o cheiro do meu marido

Além dos problemas ligados à alimentação, a vida de quem sofre de anosmia ou de hiposmia é repleta de obstáculos. No caso da perda total de olfato, como os pacientes não sentem nenhum odor, inclusive os de gás ou fumaça, eles são muito mais sujeitos a acidentes domésticos.

Cinco anos após ter desenvolvido a doença, Juliana reaprendeu a identificar cheiros, mesmo se não os sente como os demais. É como se seu cérebro tivesse que traduzir o que o nariz está sentindo, mesmo sem conhecer o odor original. Uma ginástica mental que provoca uma certa frustração, afinal, sua percepção do mundo, inclusive em sua intimidade, é alterada. “Quando estou com meu marido, eu não consigo definir o cheiro dele, e isso foi uma das coisas mais difíceis”, conta. “Eu fico imaginando que, quando eu tiver um filho, também não vou conseguir sentir o cheiro de verdade dele, e isso é muito triste”, diz a jovem, que criou um blog para trocar experiências com outras pessoas que também perderam o olfato e têm curiosidade sobre o tema. 

Voegels lembra que ainda não há cura total para a anosmia e a hiposmia, e que as pesquisas na área avançam lentamente. A única maneira de combater os distúrbios é com o tratamento logo que os sintomas aparecem. “Se a partir do quinto dia de um quadro infeccioso o olfato não voltar, mesmo que parcialmente, é bom procurar um médico.”

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