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Paulo Artaxo: limitar aquecimento global a 2°C é “praticamente impossível”

Áudio 07:10
O físico da USP Paulo Artaxo é membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
O físico da USP Paulo Artaxo é membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Wikipedia/commons
Por: Lúcia Müzell

Como fazer para alimentar uma população cada vez maior sem destruir o planeta, a começar pelas terras nas quais os alimentos são cultivados? Essa foi a questão debatida por especialistas do mundo inteiro e cujas conclusões foram publicadas nesta quinta-feira (8), em Genebra, pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O físico da USP Paulo Artaxo, um dos cientistas mais respeitados do Brasil, fez parte do estudo.

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Por telefone, ele comentou que, no modelo atual de exploração excessiva dos solos, a humanidade não vai conseguir produzir alimentos suficientes para a população de 10 bilhões de pessoas que habitarão o mundo em 2050. “Temos que cuidar melhor do que temos de mais precioso, a nossa terra, de onde a gente tira praticamente todos os nossos alimentos. A degradação do solo, os processos de desertificação e a perda acelerada de carbono do solo podem trazer danos muito grandes para a nossa estrutura socioeconômica, e comprometer a nossa capacidade de produção de alimentos ao longo das próximas décadas”, afirma o cientista, em entrevista à RFI.  

Para lidar com o problema, o relatório do IPCC enumera quatro emergências para os governos e sociedades: reduzir o desmatamento de florestas tropicais, incentivar o reflorestamento e aumentar a produção de alimentos e de biocombustíveis de um modo mais sustentável. “É um desafio. Nós precisamos reduzir as emissões, mas os setores de queima de combustível fóssil e o agronegócio estão andando na direção contrária e olhando só para os próprios interesses”, indica Artaxo.

Objetivo do Acordo de Paris está distante

Hoje, com as emissões aumentando 2,4% ao ano, segundo o IPCC, o objetivo de limitar o aquecimento do planeta em 1,5°C até 2100 – em relação à era pré-industrial - fica cada vez mais distante. A meta foi estabelecida no Acordo de Paris sobre o Clima, em 2015 – mas, para ser cumprida, seria necessária uma redução anual dos gases de efeito estufa em 5%.

“Não há qualquer cientista do IPCC que coloque que poderemos limitar o aquecimento em 2°C. Na atual taxa de emissões, essa tarefa é praticamente impossível”, constata o especialista, explicando que, na trajetória em curso, a elevação da temperatura ficará entre 3° e 4°C no fim do século.

Até leigos constatam aquecimento global

Perguntado se os recentes questionamentos das mudanças climáticas por governos importantes como dos Estados Unidos e do Brasil dificultam essa missão, o físico ressaltou que, na ciência, essas dúvidas não existem. “E qualquer cidadão, mesmo sem ser cientista, observa facilmente que o clima do planeta está mudando. A questão é não deixar que interesses econômicos específicos, como a indústria do petróleo ou do agronegócio brasileiro, predominem sobre os interesses da população em geral”, ressalta o pesquisador da USP.

Ele afirma que os recentes números sobre o aumento do desmatamento do Brasil não foram um tema da reunião do Painel do Clima – pelo menos, não oficialmente. “O IPCC não lida com questões políticas internas de cada país: lida com a questão científica global”, frisa.

Para ouvir a entrevista completa, clique na foto acima.

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