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Meio Ambiente

Medo de Covid-19 traz de volta o plástico, inimigo do meio ambiente

Áudio 04:56
Nada menos do que 50% dos plásticos não serão reciclados e acabarão sendo incinerados. Agora, por exemplo, tem esse boom do plexiglas para proteger os caixas e vendedores nas lojas.
Nada menos do que 50% dos plásticos não serão reciclados e acabarão sendo incinerados. Agora, por exemplo, tem esse boom do plexiglas para proteger os caixas e vendedores nas lojas. AP - Lynne Sladky
Por: Lúcia Müzell
11 min

A pandemia de coronavírus traz com força um antigo inimigo do meio ambiente, o plástico. As embalagens e sacolas descartáveis retornam ao nosso cotidiano, em troca de mais segurança face ao risco de contrair a Covid-19. Sem falar nos novos objetos de higiene, como luvas, máscaras e frascos de álcool gel, e todo o equipamento hospitalar necessário para enfrentar a alta das internações.

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Neste contexto sanitário delicado, entidades de proteção do planeta se esforçam para chamar a atenção sobre as boas práticas mesmo sob tempos de coronavírus – afinal, a pandemia um dia estará sob controle, mas o plástico levará séculos para deixar de poluir o meio ambiente.

"O uso de descartáveis pelas pessoas voltou como um reflexo automático, porque dá a impressão de uma suposta segurança, como se tudo que estivesse embalado em plástico estivesse protegido”, comenta a diretora de comunicação da organização internacional Zero Waste na França. "Os lobbies do plástico aproveitam esse momento de crise para voltar com a ideia de que é o material mais higiênico e é a melhor solução para se proteger do vírus, um argumento no qual eles insistem há muito tempo. Mas não podemos deixar de lado as alternativas e lembrar que o mais importante de tudo é estar sempre lavando as mãos, usar máscara e higienizar as superfícies que encostamos”, explica Marine.

Volta de sacolas plásticas

No começo da crise, representantes do setor se apressaram a promover uma campanha global segundo a qual “o plástico salva vidas” neste momento de pandemia. Mas a impressão de segurança pelo uso de descartáveis é uma mera ilusão, já que o vírus permanece por até três dias sobre os plásticos, um dos materiais onde essa sobrevivência é mais longa.

Nos supermercados aqui da Europa, vimos as sacolas descartáveis reaparecerem.
Nos supermercados aqui da Europa, vimos as sacolas descartáveis reaparecerem. AP - Rogelio V. Solis

No entanto, nos supermercados da Europa, as sacolas descartáveis reaparecerem. Muitos clientes ficam com receio de usar sacolas reutilizáveis, já que elas poderiam estar transportando o vírus.

“As sacolas de pano são as únicas que podemos lavar nós mesmos e levar conosco, sem risco. Além disso, muitos mercados estão higienizando as sacolas dos clientes na entrada da loja", frisa a representante da Zero Waste. Da mesma forma, pela praticidade, muitas pessoas acabam preferindo as máscaras descartáveis do que as alternativas em pano, laváveis.

Na França, a associação de fabricantes de plásticos Elipso indicou que 50% deles – a maioria produtores de embalagens para a alimentação – registram alta na atividade. Para um quarto, o aumento é de pelo menos 10%, podendo chegar a 20%.

Preço do petróleo em queda estimula a produção, enquanto reciclagem estagna

Além do próprio coronavírus, um outro fator estimula o retorno massivo dos plásticos:  nunca foi tão barato produzi-los, já que o preço da matéria-prima, o petróleo, despencou com a pandemia. Para completar, em muitas cidades, o serviço de coleta e a reciclagem de lixo simplesmente parou por conta do risco pela Covid-19 – justamente no momento em que o consumo nas casas registrou forte alta, por conta dos trabalhadores em home office e as crianças sem escolas.

“Isso é ruim, claro. Mas é preciso saber que a reciclagem não é a grande solução para esse problema, e sim a redução do uso do plástico”, destaca Marine Foulon.  “A reciclagem não consegue absorver a quantidade gigantesca de plástico que fabricamos e utilizamos hoje. Além disso, ainda existem dezenas de combinações plásticas que simplesmente não são recicláveis: nada menos do que 50% dos plásticos não serão reciclados e acabarão sendo incinerados”, explica.

A pandemia também fez explodir uma nova forma de poluição plástica, a do acrílico, utilizado para proteger os funcionários em caixas de supermercado ou guichês no comércio e serviços. "Ainda não existem recicladores para esse material. Se essas toneladas de placas de acrílico tiverem de ser incineradas um dia, representarão uma grande fonte de poluição do ar e do solo”, lamenta a ecologista.

Temor de retrocessos na legislação

O maior temor é que medidas que visam limitar o uso do plástico possam ser canceladas ou pelo menos adiadas pelos governos que haviam dado esse passo à frente para proteger o planeta. A França, por exemplo, votou no início do ano uma nova Lei contra o Desperdício, que incluía a proibição de uma série de produtos descartáveis, como copos, talheres e canudos. A União Europeia previa para o ano que vem a adoção de uma medida semelhante.

Em uma carta enviada em 8 abril à Comissão Europeia, à qual o jornal Le Monde teve acesso, a entidade EUPC, que representa em Bruxelas mais de 50 mil fabricantes do setor, pedia para o bloco “adiar por pelo menos um ano a entrada em vigor” das proibições e “derrubar todas as interdições já em vigor” a respeito dos plásticos.

"Com certeza tememos retrocessos porque os lobbies do plástico já vinham agindo para tentar conseguir adiar a implementação desse tipo de medida. É preocupante porque organizações como a nossa lutaram por anos para que essas questões fossem colocadas, diante da emergência ambiental que vivemos”, alerta Foulon.

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