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Um pulo em Paris

Governo francês relaxa protocolo da Covid-19 nas escolas em volta às aulas agitada para meninas

Áudio 09:28
O distribuidor de absorventes higiêncos gratuitos colocado à disposição de estudantes do ensino médio em escolas de bairros carentes na região de Ile-de-France.
O distribuidor de absorventes higiêncos gratuitos colocado à disposição de estudantes do ensino médio em escolas de bairros carentes na região de Ile-de-France. © Fotomontagem RFI
Por: Adriana Moysés
15 min

Três semanas depois do início do ano letivo na França, o governo decidiu flexibilizar o protocolo de prevenção do coronavírus nas escolas. De agora em diante, "quando uma criança testar positivo (...), ela terá de ficar sete dias isolada em casa, mas as outras crianças da classe poderão continuar a frequentar normalmente a escola", informou o ministro da Saúde francês, Olivier Verán. 

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O representante do governo considera que é importante as crianças continuarem o aprendizado e afirma não haver motivo para mandar os alunos para casa, ou mesmo para fechar estabelecimentos inteiros ao primeiro alerta. Por outro lado, o governo mudou de orientação em relação às creches e agora quer que os funcionários usem máscaras de proteção na presença das crianças. Até então, isso acontecia apenas na presença dos pais.

Uma pesquisa mostrou esta semana que 62% dos franceses não confiam na gestão do governo nessa epidemia. A falta de transparência a respeito da penúria de máscaras nos meses de março e abril e agora a demora na entrega dos resultados dos testes da Covid-19 deixam os franceses inseguros diante da epidemia.

Em geral, as crianças e adolescentes franceses estão felizes com a volta às aulas, mesmo os maiores de 11 anos que são obrigados a usar máscaras o dia inteiro na escola. Mais do que a Covid-19, o assunto que chamou a atenção na França esta semana foi um protesto de adolescentes do ensino médio.

Fez muito calor nos últimos 15 dias e as meninas usaram roupas leves, minissaias ou blusas mais curtas para ir à escola. Para surpresa geral, no país que em que feministas apoiaram a queima simbólica de sutiãs em 1968, diretores de escolas públicas tentaram impor um código vestimentar considerado sexista e exagerado. Algumas escolas produziram cartazes para mostrar o que pode ser usado e o que é considerado inadequado para meninas.

A proibição de certas roupas apenas para garotas provocou revolta entre as secundaristas. As adolescentes lançaram uma mobilização nas redes sociais, postaram milhares de fotos mostrando o exagero da posição dos educadores. Mostraram que estão cansadas de serem vistas como objeto sexual, de serem suspeitas de vulgaridade ou de ter um comportamento duvidoso a cada vez que vestem uma saia mais curta.

O ministro da Educação, Jean-Michel Blancher, ainda deu uma declaração desastrada. Ele disse que "bastava as estudantes se vestirem normalmente, que tudo voltava ao normal". Aí que a mobilização engrossou. As estudantes do ensino médio cobram do governo uma campanha para combater a hiperssexualização dos corpos, principalmente do corpo feminino, e liberdade para se vestir como bem entenderem.

Além da questão da sociedade patriarcal, atualmente as ameaças às conquistas das mulheres têm uma dimensão política, pelos governos liderados por "homens fortes" em vários países, e o componente de integrismo religioso. Mas, no caso da França, que fez a Revolução de Maio de 1968 e tem uma tradição feminista importante, esse tipo de recuo não pode ser tolerado.

A revista do jornal Aujourd'hui en France publica nesta sexta-feira (18) um editorial indignado citando dois incidentes recentes. No final de agosto, policiais pediram a um grupo de mulheres que faziam topless em uma praia do sul da França para que elas colocassem a parte de cima do biquíni. Uma família incomodada com a visão dos seios nus chamou a polícia para repreender o grupo em Sainte Marie la Mer, perto de Perpignan. A atitude dos policiais foi considerada abusiva, já que o topless não é um delito, muito menos um crime na França.

Na semana passada, uma parisiense postou no Twitter que ela foi proibida de entrar no Museu d'Orsay, em Paris, porque estava com um vestido muito decotado. Esse caso beira o absurdo, porque a frequentadora tinha seios volumosos, o decote era em V, mas o vestido ia até os joelhos e tinha mangas compridas. A mulher ficou furiosa e com razão.

Distribuidor de absorventes nas escolas

Apesar dessas contradições, as jovens francesas podem celebrar algumas conquistas. O movimento de luta contra a precariedade mestrual está comemorando uma vitória. As militantes dessa causa, preocupadas com o custo que representam os absorventes higiênicos no orçamento de famílias de baixa renda, defendem há algum tempo a instalação de distribuidores de absorventes gratuitos nas escolas do ensino médio. Pesquisas mostram que com o receio de um vazamento na sala de aula, 6% das adolescentes francesas deixam de ir à escola no período menstrual, uma taxa que sobe para 12% entre as famílias mais pobres.

Depois de um período de experiência em algumas escolas, as autoridades da região de Ile-de-France, onde fica a capital, decidiram ampliar a instalação de distribuidores de absorventes gratuitos em dezenas de estabelecimentos, principalmente nas periferias.

As estudantes aprovam essa decisão, que ajuda a desfazer os preconceitos em torno da menstruação, como se o sangramento mensal feminino fosse uma coisa "suja", algo que poderia causar vergonha às meninas, quando se trata de um aspecto da saúde da mulher. Estudantes de colégios onde o distribuidor foi instalado dizem se sentir muito mais confiantes para ir às aulas. A medida diminuiu o absenteísmo escolar e ainda permite uma discussão com os meninos sobre a igualdade de gênero.

De acordo com cálculos do movimento, no ano passado a França tinha 1,7 milhão de mulheres vítimas da precariedade menstrual, ou seja, sem dinheiro suficiente para financiar a compra de absorventes. Com a crise provocada pela Covid-19, esse número subiu para 2 milhões de mulheres, segundo associações feministas.

 

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