Música/ Poesia

Miroda lança disco com poemas de Hilda Hilst

O grupo acústico francês Miroda nos estúdios da RFI.
O grupo acústico francês Miroda nos estúdios da RFI. L. Froes

O grupo acústico francês integrado pelos violonistas David Krupinski e Singhkèo Panya e pela cantora Milena Rousseau encontrou nos textos da poetisa, dramaturga e ficcionista brasileira Hilda Hilst a musicalidade que estava procurando para o seu primeiro disco. E através de canções minimalistas conseguiu traduzir a força brutal e vibrante da poesia de Hilst em "A História dos Meus Roteiros", que está sendo lançado nesta quarta-feira em Paris, na sala Les Trois Baudets. Miroda se apresenta no Brasil em 2011.

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Foi em 2007, através da antologia "Do Amor", lançada em 1999 por Hilda Hilst, que o violonista David Krupinski ficou conhecendo o trabalho da poetisa, dramaturga e ficcionista brasileira. Ele se surpreendeu com a musicalidade dos poemas e decidiu transformá-los em canções. O resultado é o disco "A Estória dos Meus Roteiros" que está sendo lançado nesta quarta-feira, em Paris, na sala Les Trois Baudets. Um concerto intimista do qual participam os dois outros integrantes do grupo Miroda, a cantora Milena Rousseau e o violonista Singhkèo Panya.

"Aconteceu uma coisa mágica, quase sobrenatural, pois a decupagem dos textos, e mesmo das sílabas, colava perfeitamente com as músicas. Quanto mais eu lia os poemas, mais isso parecia evidente, como se a própria Hilda Hilst estivesse participando do projeto", explica David Krupinski. Casado com uma brasileira, ele decidiu ir a São Paulo conhecer a família da escritora, morta em 2004. Depois foram meses de trabalho em estúdio ao lado de Milena Rousseau e Singhkèo Panya para lançar "A Estória dos Meus Roteiros", disco que consegue traduzir a força brutal e vibrante da poesia de Hilst.

A cantora francesa Milena Rousseau também precisou mergulhar no universo de Hilda Hilst para poder interpretar, em português, os textos da poetisa. Sua belíssima voz valoriza as palavras e cria atmosferas com o auxílio dos violões de Singhkèo e Krupinsky. O projeto é ousado e teria sido difícil mesmo se realizado por brasileiros. Nem todas as palavras são compreensíveis, mas compreende-se imediatamente a importância da poesia de Hilda Hilst, uma escritora irreverente, arrojada e sempre atual, como prova o poema

"Árias Pequenas. Para Bandolim"

Antes que o mundo acabe, Túlio,

Deita-te e prova

Esse milagre do gosto

Que se fez na minha boca

Enquanto o mundo grita

Belicoso. E ao meu lado

Te fazes árabe, me faço israelita

E nos cobrimos de beijos

E de flores

Antes que o mundo se acabe

Antes que acabe em nós

Nosso desejo.

Hilda Hilst nasceu em 1930 na cidade de Jaú, no interior do Estado de São Paulo, e morreu em fevereiro de 2004. Preocupada com a morte e a finitude das coisas, ela recebeu inúmeros prêmios literários e suas obras foram traduzidas para diversas línguas. Entre elas pode-se citar "Poesia (1959/1979)", lançado em 1980, "Tu não te moves de ti" (prosa, 1980) e "O Verdugo" (teatro, 1969). De 1984 são os "Poemas malditos, gozosos e devotos" e de 1986 os livros "Sobre a tua grande face" (poesia) e "Com meus olhos de cão e outras novelas" (prosa). 1989 marca o lançamento de "Amavisse" (poesia). Em 2003 a Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) lhe concedeu o Grande Prêmio da Crítica pela reedição de suas "Obras completas".

O grupo francês Miroda lança seu primeiro disco, "A Estória dos Meus Roteiros", com poemas de Hilda Hilst.

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