Paris/Sítios arqueológicos

Mostra propõe visita em 3D a Palmira e outros locais ameaçados na Síria e no Iraque

Imagem em 3D de Palmira, na Síria.
Imagem em 3D de Palmira, na Síria. Iconem, DGAM
Texto por: Patricia Moribe
6 min

A exposição “Sítios Eternos”, em cartaz no Grand Palais, em Paris, até 9 de janeiro, propõe uma visita virtual e grandiloquente a sítios arqueológicos ameaçados – por guerras e pilhages - na Síria (Palmira, a Grande Mesquita de Damasco e o Refúgio dos Cavaleiros) e no Iraque (Khorsabad).

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O mundo assistiu estarrecido às cenas de implosão dos Budas de Bamiyan, no Afeganistão, em 2001, pelos talibãs. Mais recentemente, o alerta foi lançado para Palmira, na Síria, onde extremistas do grupo Estado Islâmico destruíram, em 2015, estruturas que fazem parte de um rico complexo histórico do segundo milênio antes de Cristo.

“Fiquei emocionada”, diz a enfermeira aposentada Françoise, em visita ao Grand Palais. “Eu tive a oportunidade de ver os Budas de Bamiyan, em 1972, intactos, e a destruição dessas outras relíquias me entristeceram muito, por isso eu queria ver a exposição, para poder conhecer outros sítios também ameaçados”.

Drones e imagens 3D

Drone usado por Iconem para ilustrar uma reconstrução virtual de Palmira e outros locais ameaçados na Síria e no Iraque.ue
Drone usado por Iconem para ilustrar uma reconstrução virtual de Palmira e outros locais ameaçados na Síria e no Iraque.ue Siegfried Forster / RFI

A mostra parisiense usa a sofisticação da tecnologia 3D para oferecer ao visitante uma imersão em 360° projetada nas paredes de um grande espaço. A sensação é a de estar no meio dos monumentos e vestígios. A partir de imagens, feitas in loco ou por dones, as simulações de volta ao passado erguem estruturas e revelam mosaicos gigantescos.

“Tentamos enfrentar a destruição de sítios arqueológicos com tecnologia a fim de conservar, pelo menos de maneira virtual, esses lugares cujo futuro infelizmente são incertos hoje e que podem desaparecer nos próximos anos”, declarou à RFI Yves Ubelmann, da start-up francesa Iconem, responsável pelas imagens.

Yves Ubelmann, co-fundador da empresa Iconem.
Yves Ubelmann, co-fundador da empresa Iconem. Siegfried Forster / RFI

“Em Palmira, onde estivemos em abril, trabalhamos quatro dias para fazer 23 mil imagens”, conta Ubelmann. “Usamos diversos dispositivos, como drones, mastros e fotos do solo. De volta à França, colocamos tudo dentro de um computador muito potente, com algoritmos especiais para juntar todas as imagens em uma única cena 3D do sitio arqueológico”.

A reconstrução virtual também conta com amplas pesquisas em museus como o Louvre e outros ao redor do mundo. As técnicas de restauro e estudos de cientistas do século 17 também foram analisados.

Fortalezas, comércio e preces

Construído entre 721 e 705 antes da era Cristã, no norte do Iraque, o complexo de 3km² de Khorsabad, dedicado ao rei Sargon II, era uma das capitais do império neo-assírio. Em março de 2015, jihadistas do grupo Estado Islâmico do Iraque e do Levante iniciaram a pilhagem e a destruição do local. Khorsabad foi descoberta em 1842 pelo vice-cônsul da França Paul-Émile Botta, cujos desenhos de época serviram de base para a reconstrução virtual apresentada na exposição.

Palmira, importante centro comercial no segundo milênio antes de Cristo, quando era parte do império romano, viveu grande prosperidade durante três séculos, graças à localização fronteiriça com o Mediterrâneo e a Ásia. Uma viagem aérea produzida com imagens de drone dá uma pequena ideia da vastidão e riqueza das ruínas de Palmira.

A mostra de Paris devolve à Grande Mesquita de Damasco a riqueza dos mosaicos que decoravam o exterior do prédio, construído entre 705 e 715. A mesquita sobreviveu a incêndios devastadores, como o de 1893, mas o preço é visível. Uma grande restauração no início do século 20 revelou importantes partes da fachada, até então recoberta por um revestimento cinzento e marcado pelos séculos.

Já o Krak dos Cavaleiros é provavelmente o mais importante exemplo de arquitetura dos tempos das Cruzadas que resta no Oriente Médio. O complexo, construído pelos cristãos, tinha como função proteger a rota que unia Homs (a 65km de distância) a Trípoli (Líbano), no mar Mediterrâneo. Bem preservado até metade do século 21, o local foi campo de batalha entre forças rebeldes e o exercito sírio em 2012 e 2013. A extensão real dos danos ainda não foi estabelecida.

A iniciativa do projeto da mostra em Paris partiu da indignação do presidente francês, François Hollande, diante da ameaça a Palmira. Logo, esforços foram agregados, como o da UNESCO e do Louvre, além do patrocínio de grandes empresas.

 

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