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Daniela Thomas, diretora: "Escravidão é tema atual e universal"

Áudio 06:51
Em "Vazante", Daniela Thomas aborda a escravidão em uma fazenda no século XIX, em Minas Gerais
Em "Vazante", Daniela Thomas aborda a escravidão em uma fazenda no século XIX, em Minas Gerais Berlinale.de
Por: Leticia Constant
11 min

Aos 57 anos, depois de uma carreira internacional co-dirigindo com Walter Salles "Terra Estrangeira" (1998) e "Linha de Passe" (2006), e com Felipe Hirsch, "Insolação" (2009), a diretora, dramaturga e cenógrafa Daniela Thomas finalmente voou com suas próprias asas. Ela realizou o primeiro longa solo, "Vazante", que abriu a mostra Panorama no Festival de Cinema de Berlim, que terminou no último sábado (18).  

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"Vazante" se passa no século XIX em uma fazenda decadente em Minas Gerais, onde vive um fazendeiro viúvo de 45 anos, rodeado por seus escravos. Em busca de um herdeiro, ele acaba se casando com uma menina de 12 anos e espera que ela menstrue para consumar a união. O fato aconteceu realmente com um antepassado da família da cineasta.

Ter realizado esse filme sozinha representa muito para Daniela: "É um desejo adiado por décadas, por várias razões. A principal delas é que Walter (Salles) foi sempre um parceiro incrível, tinha também meu trabalho como cenógrafa, minha vida de mãe, tudo isso foi empurrando essa perspectiva de fazer um filme sozinha por muitos anos... é a realização de um sonho de infância, então, é um momento mágico da minha vida estar aqui em Berlim apresentando meu filme, respondendo sozinha as perguntas do público, é uma coisa muito séria, muito, muito séria!" , enfatiza a cineasta, sorrindo.

Daniela voltou dois séculos para contar essa história porque queria falar da escravidão, do convívio diário dos patrões com os escravos e dessa doença que até hoje o Brasil ainda sofre as consequências. O filme também retrata uma realidade pouco abordada, a exploração dos negros pelos próprios negros, no caso, o capataz da fazenda. "A pesquisa histórica me trouxe muitas ideias (...), no enredo original o personagem do capataz era branco, e a própria historiadora me falou que seria interessante colocar um negro porque acontecia isso com muita frequência, o negro se transformar no capataz "que mantinha a ordem" na fazenda. A riqueza das informações que recebi me permitiu fazer esses personagens todos, realizar essas personagens e a complexidade da vida naquela época", conta Daniela.

Impressionada com o interesse do público da Berlinale, que lotou todas as sessões sem pressa de ir embora depois da projeção, fazendo perguntas relevantes para os diretores, Daniela ficou muito emocionada com a receptividade ao seu filme. "Vazante" foi ovacionado ao abrir a mostra Panorama do festival e teve plateia cheia em todas as apresentações.

"A diáspora continua, agora são os sírios, os africanos no Brasil..."

Sobre a história de "Vazante", que fala da escravidão no Brasil no século XIX, Daniela tinha dúvidas se o público europeu se interessaria: "É isso que é fascinante, a dúvida que a gente tem quando está fazendo uma história muito local é se essa história nos pertence ou se essa história pode pertencer a todo mundo. Aqui em Berlim vivemos a percepção de que estamos falando para todos, e também a diáspora continua, agora são os sírios, e muitos negros que estão chegando no Brasil vindos da Somália, do Mali, de Burkina... esse sofrimento, essa intolerância, essa coisa de tratar homens como menos valiosos que outros é um fenômeno que ainda não foi curado, a Terra está doente, o planeta está doente ainda, não sabe tratar seus filhos, é um drama que não tem fim", observa Daniela Thomas, concluindo que falar sobre isso émuito pertinente, muito contemporâneo e muito universal.

 

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