Cinema/Brasil

Documentário mostra paradoxo da liberdade sexual no Brasil

Cena de “Sexo, Pregações e Política”, de Aude Chevalier-Beaumel e Michael Gimenez.
Cena de “Sexo, Pregações e Política”, de Aude Chevalier-Beaumel e Michael Gimenez. Divulgação

Um dos clichês mais fortes da imagem do Brasil no exterior é a da liberdade sexual, da sensualidade extravagante. A dupla francesa de cineastas – Aude Chevalier-Beaumel e Michael Gimenez – resolveu mergulhar na questão e o resultado foi um documentário intenso sobre um Brasil em movimento, mas com suas contradições, tendo como pano de fundo a preocupante ascensão de evangélicos no cenário político nacional.

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Da enviada especial a Toulouse

“Sexo, Pregações e Política”, uma produção franco-brasileira, concorre ao prêmio de melhor documentário do Festival Cinelatino, de Toulouse, no sudoeste da França.

O filme começa com a encenação de um caso que comoveu o Brasil em 2014, o da morte de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, de 27 anos. Grávida, ela se internou em uma clínica clandestina do subúrbio do Rio de Janeiro e seu corpo foi encontrado mutilado e carbonizado. A repercussão do caso originou a Operação Herodes, da Polícia Federal, para desmantelamento de clínicas de aborto. Todos os entrevistados eram confrontados com a mesma pergunta: “Quem matou Jandira?”.

Temática tabu

“Começamos a filmar instintivamente, durante as campanhas legislativas e presidencial”, conta Aude, que mora há dez anos no Brasil. Eles perceberam que o tema do aborto não era abordado pelos candidatos presidenciais, mas  que alguns candidatos evangélicos a deputados viram o potencial de ganhar votos empunhando a bandeira do “contra”.

A dupla entrevistou candidatos como os evangélicos ultra conservadores Marco Feliciano, Silas Malafaia e Jair Bolsonaro. Para Gimenez, o discurso deste último, militar de carreira, ex-católico, convertido durante a corrida eleitoral, foi o mais chocante. “Eu sabia que havia machismo no Brasil, mas não a esse ponto extremo e com tanta popularidade”.

O contraponto em defesa do aborto e de luta contra o preconceito sexual é feito por depoimentos de candidatos de outro lado do espectro, como Jean Wyllys (PSOL) e de representantes de movimentos sociais e humanitários. “Uma pessoa muito corajosa e com uma rara visão ampla do mundo”, diz Gimenez a respeito de Wyllys, assumidamente gay, que ganhou fama ao participar do programa Big Brother. “Era a questão da homossexualidade entrando na sala de estar do brasileiro. O público gostava de mim e precisava lidar com isso”, lembra Wyllys no documentário.

Comparações com a França

A plateia do festival aplaudiu o filme e fez até paralelos com a situação na França. “Vocês precisam fazer um filme sobre a corrupção aqui, vão ter muito material”, ironizou um espectador na sessão de perguntas e respostas.

Aude concorda que o fato de se apresentarem como uma equipe independente e estrangeira possa ter facilitado o acesso aos personagens. “Mas, ao mesmo tempo, eles gostavam da ideia de aparecer no exterior”, conta. “E o discurso era o mesmo, seja nos cultos ou durante as entrevistas”, acrescenta.

“Sexo, Pregações e Política” já foi apresentado no Festival de Brasília e na Mostra de São Paulo. No Brasil, será divulgado pelo Canal Brasil.

Veja um teaser de "Sexo, Pregações e Política":

 

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